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'Policiais já chegaram atirando sem motivo nem razão', diz mãe de jovem baleado por PMs

Segundo o boletim médico, foi constatada uma lesão na coluna do adolescente que estaria 'produzindo dificuldades de movimento dos membros inferiores' 13/01/2015 às 20:49
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O adolescente permanece internado na enfermaria cirúrgica, lúcido e em estado estável
Mariana Lima Manaus (AM)

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“Meu filho pergunta de mim o porquê de não estar sentindo as pernas e eu ainda não tive coragem de dizer que ele não vai mais andar. Eu não sei como ele vai aceitar a nova vida que vai ser obrigado a levar”. O depoimento emocionado é de Néia de Oliveira Cruz, mãe do adolescente de 17 anos baleado por policiais militares na tarde do último domingo (11). Nesta terça-feira (13), o procurador Geral de Justiça Fábio Monteiro informou que o Ministério Público do Estado do Amazonas começará hoje o processo de investigação do caso.

Ainda revoltada, a mãe mostrou os dois pequenos cômodos onde mora com os dois filhos e um neto de três anos. Caçula de cinco filhos, o adolescente dormia com a mãe em um colchão de casal no estreito cômodo utilizado como o único quarto da casa. “A nossa ideia era subir uma laje e ter mais conforto. Agora não sei como vai ser porque teremos que trazer mais acessibilidade ao meu filho”, disse.

Segundo Néia, ela e a filha mais velha arrumavam o quarto quando foi avisada do crime. “Estávamos todos aqui no quarto, ele estava deitado e se levantou para tomar banho e encontrar a namorada no lanche. Nesse momento eu até pensei: ‘opa meu filho vai se levantar e agora a gente vai poder arrumar aqui o quarto’. Quando a gente começou a desmontar a cama foi quando vieram bater forte aqui na porta, os vizinhos só faltaram arrombar e eu pedi pra minha filha ver o que estava acontecendo. Foi quando ouvi dizerem: ‘fala para tua mãe ir lá embaixo porque os policiais deram um tiro no teu irmão’. Eu fiz só vestir minha roupa e fui do jeito que tava. Desde então não dormi e não comi muita coisa”, disse.

Os vizinhos disseram a Néia que o adolescente estava em uma lanchonete sentado na mesa com mais duas pessoas quando a viatura de policiais da 25ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom) chegou no local. “Os policiais já chegaram atirando sem motivo e nem razão. Como meu filho viu todo mundo correndo  correu também. E os policiais atirando. Deram três tiros e o terceiro acertou ele nas costas. Quando ele já estava caído no chão começaram a chutá-lo, ao ponto de quebrar o queixo dele e ferir todo o braço direito. Foi quando  revistam o bolso dele e perceberam que ele não tinha nada”, afirmou.

“No depoimento do policial diz que o meu filho estava com a droga e com a arma. Mas eu tenho certeza que eles colocaram essas duas coisas depois, para incriminá-lo. Porque não pediram pra revistar ele antes de atirar? Já foram logo dando um tiro e depois fizeram o procedimento normal deles. Como eles sabiam que estavam  errados, para tirar o corpo dele de fora, eles estão alegando que pegaram meu filho com arma e droga e dizendo que meu filho também tinha atirado”, concluiu a mãe do adolescente.

Internado

A mãe do adolescente baleado por policiais militares disse que não vai descansar até conseguir Justiça. Néia Cruz classificou como “monstruoso” o modo como trataram o filho dela, baleado nas costas e supostamente agredido com chutes.

Segundo o relato de Néia, os policiais alegaram em depoimento que o adolescente teria atirado contra os policiais militares durante uma suposta fuga. “Como o meu filho atiraria de costas? Não tem condições porque com certeza se ele tivesse atirado teria acertado alguém: ou os policiais ou as pessoas que estavam no lanche. Isso não tem cabimento”, desabafou.

Testemunhas que presenciaram o crime informaram que o adolescente foi atingido na coluna após uma viatura da 25ª Cicom atirar contra frequentadores de uma lanchonete do bairro. Um vídeo gravado por moradores mostra o momento em que os policiais carregam e depositam, sem os cuidados de imobilização necessários, o adolescente na viatura. 

O boletim médico disponibilizado pela assessoria do hospital na manhã desta terça (13), indica que o adolescente permanecia internado na enfermaria cirúrgica, lúcido e em estado estável. Os médicos constataram uma lesão na coluna que estaria “produzindo dificuldades de movimento dos membros inferiores”.

Investigação

O Ministério Público do Estado do Amazonas (MPE-AM) irá investigar, a partir de hoje, se houve abuso dos policiais militares que balearam o adolescente no bairro Coroado 2. A informação é do Procurador Geral de Justiça, promotor Fábio Monteiro. “Essas formas de abordagens são completamente opostas àquilo que deve ser feito. A Polícia Militar, constitucionalmente falando, existe para evitar que o crime ocorra, proteger cidadãos que estão sendo vitimados. O MPE não vai aceitar situações assim”, disse o Procurador Geral. 

A Promotoria de Justiça de Controle Externo da Atividade Policial (Proceap) será a responsável por iniciar as investigações envolvendo os policiais da 25ª Cicom. “Caso ainda não tenha sido aberto um inquérito policial vou solicitar que os promotores do Júri façam esse pedido. Na abordagem que vitimou o adolescente o procedimento natural é ser instaurado o inquérito policial para apurar tentativa de homicídio e isso vai além de qualquer processo administrativo ou sindicância interna”, explicou o promotor.

Fábio ainda acrescentou que “é preciso entender que quem atira tem a intenção de matar ou assume o risco de que isso aconteça. Precisamos investigar o que houve e aproveitar o momento de mudança na alta cúpula da Segurança Pública do Estado para convocar uma reunião em conjunta com todo. A gente tem que começar a trabalhar junto”.

A Secretaria de Segurança Publica informou que o crime está sendo investigado por meio de um inquérito Policial Militar comandado pelo Departamento de Justiça e Disciplina do Comando de Polícia Militar, em acompanhamento com a Corregedoria Geral. O relatório final deve sair entre 40 e 60 dias e será avaliado pelo Comandante Geral da Polícia Militar.

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