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Manaus
DRAMA

Policiais que atuaram nas negociações de assalto a lotérica relatam experiência única

Além de estarem fortemente armados, os bandidos tinham um balde de gasolina e chegaram a derramar o líquido ameaçando atear fogo em tudo, mas não tinham isqueiro ou fósforo 16/10/2018 às 01:37 - Atualizado em 16/10/2018 às 09:02
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Foto: Junio Matos
Joana Queiroz Manaus (AM)

A negociação para libertar os 25 reféns no assalto a casa lotérica ocorrido no último sábado (13), no bairro São José, na Zona Leste de Manaus, só não foi considerada melhor pelas autoridades porque quatro dos cinco criminosos envolvidos acabaram mortos durante a intervenção policial. Segundo o comandante das Ronda Ostensiva Cândido Mariano (Rocam), o tenente-coronel Bruno Patrício de Azevêdo Campos, que atuou como gerenciador da crise, a primeira regra é preservar vidas, inclusive a dos bandidos.

Além da Rocam, o gerenciamento de crise na ocorrência também foi realizado por integrantes do Comando de Operações Especiais (Coe) e da Polícia Civil. De acordo com Bruno Azevedo, que é especialista de gerenciamento de crise pelo Ministério da Justiça (MJ) e já atuou em situações com tomada de reféns, em casos de suicídios, mas com a proporção do caso de sábado foi a primeira vez. “Foi uma crise, em um estado crítico que demandava uma resposta especial por parte da polícia”, afirmou ele.

Conforme o tenente-coronel, em aproximadamente três horas de negociações com os criminosos, foram muitos os momentos de tensão, principalmente porque os bandidos demonstravam estar sob efeito de droga. Para ele, o que aconteceu inicialmente foi uma ocorrência normal, mas que se agravou após a chegada da primeira viatura da Polícia Militar no local.

A partir daquele momento, o grupo armado manteve aproximadamente 25 pessoas reféns, o que aumentou o nível da crise e risco de morte. Para o gerenciador, a primeira regra é preservar vidas, inclusive a dos criminosos e fazer a aplicação da lei. Um gerenciador, dois negociadores e um escrivão formavam a equipe que manteve o contato direto com os criminosos.

“Assim que cheguei e assumi o gerenciamento, vi que eles estavam nervosos. Durante a negociação, eles pediam drogas a tempo todo, muito nervosos. Eles não queriam abrir mão do dinheiro da loteria que eles haviam pegado e falavam que não iam se entregar. Que tinham participado de outras ocorrências semelhantes e diziam ser integrantes da facção criminosa Família do Norte (FDN)”, explicou Azevedo.

Azevedo disse ainda que no decorrer das negociações, os criminosos atiraram várias vezes. “Nós estávamos a uns três metros de distância deles”, afirmou.  Os negociadores conseguiram libertar inicialmente quatro reféns.

Quadrilha tentou atear fogo em loteria

O bando que assaltou a loteria era formado por Valdemir Lima de Pala Rodrigues, 28, que se entregou, Victor Souza de Castro, 21, o “Jamal”, apontado como líder do bando; Jeffry Mariano Santana, 24, Gustavo dos Santos Maciel, 22, e Hudson Figueiredo, 26, morreram em confronto com a polícia.

Eles conseguiram tirar da lotérica R$ 135 mil, mas o dinheiro foi recuperado e devolvido. Os bandidos estavam fortemente armados com armas de longo alcance, muita munição e ainda tinham um balde de gasolina que chegaram a derramar dentro do estabelecimento e só não atearam fogo porque não tinham isqueiro ou fósforo.

Ontem, a loteria permaneceu fechada. Donos de lojas e vendedores ambulantes que presenciaram o crime também não quiseram falar, mas  pelo olhar dele era possível perceber o medo que ainda sentem.

Derramaram gasolina na lotérica

Alcides Alves Teixeira: Eles nos ameaçavam toda hora, chegaram a derramar gasolina dentro da lotérica e ameaçaram tocar fogo. Quando eles chegaram,  já  foram  gritando e mandando todos nós deitarmos no chão. Eles quebraram o vidro que dá acesso aos caixas, pegaram a minha sacola e colocaram o dinheiro. Eu pensava que não ia sair com vida daquela situação, eu só pensava nos meus filhos. Acho que Deus me deu uma segunda chance. Os criminosos tiveram toda oportunidade para saírem vivos, mas não quiseram. Em alguns momentos eles diziam ser filhos do “demônio” e que iam nos matar.

Comerciantes temem

Um vendedor ambulante que não quis ser identificado disse que são comuns assaltos na área, mas não com tanta comoção.   Ele relatou sobre a participação de uma sexta pessoa, informação que não é descartada pela polícia. Ontem, duas pessoas feitas reféns foram até o local para saber sobre seus pertences, mas o DRCO informou que os materiais recolhidos não foram identificados.

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