Quarta-feira, 28 de Outubro de 2020
TERMELÉTRICA

Poluição sonora e ambiental da usina Mauá 3 é denunciada por moradores

Moradores do conjunto Jardim Mauá reclamam da fumaça, do ruído e dos rejeitos jogados no lago da comunidade pela termelétrica



zDIA0324-102_p01_54F3AE33-A80C-4745-BCC5-5381435783DC.jpg Cidadãos como a empresária e líder da ação encampada por 126 moradores, Inácia Medeiros, criticam o fato da empresa não ter comprometimento com a população. Foto: Junio Matos
24/09/2020 às 08:52

Moradores do conjunto Jardim Mauá, Zona Leste de Manaus, questionam os estudos sobre os impactos ambientais causados pelas operações da empresa Amazonas GT na Usina Termelétrica de Mauá 3. Fumaça, ruídos e prejuízos sobre a fauna do lago do Mauá estão entre os principais problemas enfrentados pela população que habita o entorno da unidade geradora.

O caso foi denunciado ao Ministério Público do Amazonas (MP-AM) pelo vereador Wallace Oliveira (Pros) e está sendo investigado por meio de inquérito civil, autorizado pelo promotor de Justiça, Francisco de Assis Arguelles.



A CRÍTICA foi à comunidade ontem. Cidadãos como a empresária e líder da ação encampada por 126 moradores, Inácia Medeiros, criticam o fato de a empresa não ter comprometimento com a população. Segundo ela, durante a aprovação do projeto para funcionamento da termelétrica, no ano de 2012, houve diversas conversações e acordos com a comunidade, mas que não tiveram efetividade ao longo dos anos.

Após a instalação, a empresária, que mora há uma quadra da usina, afirma que “o odor de gás à noite é muito forte” e ressalta que não é de hoje que a situação ocorre, pois, anteriormente, a empresa realizava o processo pela manhã e após muitas reclamações alterou o turno para despejar a fumaça no ar.

Trepidações

A reportagem constatou o forte odor da fumaça vinda das caldeiras e pode comprovar um intenso ruído produzido pela termelétrica. De acordo com moradores, como a professora universitária, Maria de Nazaré Teles, “tem dias que parece que nós estamos em um local de terremoto”.

Maria disse que após a chegada da usina os imóveis perderam valor de mercado devido à falta de qualidade de vida em virtude das ameaças à saúde dela e da família. A casa, que fica a 10 metros da usina, será posta à venda.


A dona de casa Maria de Jesus Neves, que tira o alimento do Lago do Mauá há pelo menos 4 anos, disse que a fauna foi afetada. Foto: Junio Matos

“Quando eu comprei a minha casa, não tinha nada disso. Em um ano cresceu estupidamente. Eu sofro de insônia e quando chega de madrugada parece que estão explodindo bombas, parece que eles tiram alguma coisa que vem com muita força”, relatou.

A professora teme que as trepidações e tremores que ocorrem na região podem ser a causa das rachaduras comuns das residências do conjunto.

Prejuízos a fauna

Os impactos ambientais são um preocupação para a  dona de casa Maria de Jesus Neves que tira o alimento para ela e os filhos pescando no Lago do Mauá há pelo menos 4 anos.

“Você precisa ver a água que eles estão jogando dentro [do lago]. No começo, a água era bem limpinha que era uma água da caldeira e era uma água só morna agora ela não está mais limpa”, alertou a moradora.

Até o fechamento desta edição a Amazonas GT, concessionária da Usina de Mauá 3 não se pronunciou sobre as denúncias.

Personagem: Inácia Rondon, empresária

Ninguém pode construir nada

“A usina é a gás e tem uma tubulação. Onde existe essa tubulação ninguém pode construir nada. Ninguém pode colocar sistema de saneamento de água. A rua está desse jeito porque não tem para onde escoar, não foi feito nenhum sistema, ou seja, quando foi construído isso aí teve uma autorização do governo federal e eles não prepararam o nosso bairro para essa atividade.

Foi uma empresa que se instalou e não preparou a comunidade para isso. Fora que existem essas trepidações e as nossas casas estão todas comprometidas. Quem mora ali para dentro, a maioria tem a casa rachada. 

Com a construção dessa usina nós perdemos uma área, porque disseram que não podemos construir nada em áreas onde existem usinas, mas construíram a usina próxima a nossa casa.

Quando a gente veio morar aqui eles tinham uma torre pequena, mas em 2012 eles começaram a construir essa usina a gás. Depois que construíram a usina os nossos imóveis tinham um valor hoje nem vender a gente consegue, desvalorizou demais”.

Pós-doutora vê indício de irregularidade

A pós-doutora em inteligência energética e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Elizabeth Cartaxo, afirmou que os problemas alegados pelos moradores da área no entorno da termelétrica não deveriam acontecer e a  foligem pode indicar problema nos filtros de emissão ou na qualidade do combustível utilizado pela Amazonas GT.

Segundo a pesquisadora, Mauá 3 não sofreu os estudos de impacto do meio ambiente como as demais, pois foi instalada no período anterior as mudanças da legislação ambiental. Ela relembra que existem regulamentações da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), mas questiona a falta de órgãos fiscalizadores da atividade das termelétricas, pois o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) fica refém dos próprios dados da empresa.

“Se a população está reclamando sobre isso, é procedente sim, e é bem provável que estejam sendo transgredidos os limites tanto de ruídos, quanto de emissões. É preciso que se faça uma denúncia junto ao órgão de fiscalização ambiental para que adote as medições e possa constatar que estão sendo extrapolados os limites previstos em lei”, esclareceu.

Dentre os possíveis problemas para a população, por conta do ruído, Elizabeth ressalta complicações no sistema nervoso central e perda de audição. Enquanto a fumaça, dependendo da composição, por gases ou partículas, podem, a longo prazo, desencadear doenças como o câncer.

Comentário de Wallace Oliveira, vereador pelo Pros e autor do pedido de apuração ao MP

‘Cadê o estudo de impacto ambiental do lugar?’

O que nós estamos buscando é que a Amazonas Energia se digne a fazer um trabalho que traga novamente o conforto para aquela população, que coloque equipamentos com o menor nível de ruído, com o menor nível de poluição ambiental através da emissão de gases e esses equipamentos não tragam tanta trepidação, que obviamente estabelece o que? O comprometimento da estrutura de algumas residências e por aí vai.

Não é só colocar uma usina ali e de repente não olhar para os que moram em torno daquilo. O que nós estamos buscando dentro do processo de esclarecimento, é isso! Nós queremos chamar a empresa à Câmara Municipal de Manaus e vamos fazer isso através de outros mecanismos para que ela venha dizer. Cadê o estudo de impacto ambiental do lugar? Porque quando eles foram se instalar ali tinham que ter um estudo de impacto, porque ali já existia uma comunidade estabelecida. Já existia ‘N’ moradores. Então, o que nós estamos buscando é isso! É que eles, pelo menos, coloquem equipamentos que causem menos ruído, menos emissão de gases e assim por consequência não venham continuar a dar prejuízo para os moradores. É isso que a gente está buscando.

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Repórter de A CRÍTICA. Sempre em busca de novos aprendizados que somente uma boa história pode trazer.

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