Segunda-feira, 20 de Maio de 2019
DEMOGRAFIA

População de Manaus aumentou em 1,6 milhão após criação da Zona Franca

Capital é 7ª cidade mais populosa do País. Crescimento desordenado gera problemas na infraestrutura, como a dificuldade na mobilidade urbana, o déficit habitacional, a falta de saneamento básico e a arborização precária



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Foto: Arquivo/AC
21/04/2019 às 19:26

Manaus cresceu em um susto. Desde o estabelecimento da Zona Franca, em 1967, e o êxodo em massa fez a capital saltar dos modestos 175.343 mil de habitantes, em 1960, para 1.802.014 milhões em 2010, segundo a última estimativa do IBGE. A capital amazonense ocupa a sétima posição entre as cidades mais populosas do Brasil. Contudo, nos últimos anos, o crescimento desordenado fez com que os moradores sentissem na pele problemas na infraestrutura, como a dificuldade na mobilidade urbana, o déficit habitacional, a falta de saneamento básico e, até mesmo, a arborização precária.

Se continuarmos nessa trilha, a perspectiva é que daqui a alguns anos Manaus sofra um colapso. Como lembra o urbanista Claudemir Andrade, o Plano Diretor de Manaus (de 2013, atualizado em 2018) prega que esse crescimento deve ser contido para que os espaços urbanos já existentes sejam melhor aproveitados. “Estamos crescendo cada vez mais longe, além da barreira da BR-174. O grande vetor de crescimento é a região Norte, onde, nos últimos 40 anos, houve ocupação significativa”, disse.

Resultado? “Daqui a 50 anos teremos uma ocupação muito mais horizontal. Até porque não vejo políticas atuais que incentivem o aproveitamento das áreas ociosas no meio da cidade. A tendência é que fiquemos cada vez mais descentralizados” destacou Andrade.

Vazio no Centro

Assim sendo, a tendência é que o Centro da cidade, mesmo como uma área em potencial para expansão demográfica, continue cada vez mais vazio. “O Centro está acabado. Padece pela falta de projetos claros e objetivos. É louvável os estudos da prefeitura e as intervenções do Prosamim, que o governo estadual vem implementando há alguns anos, mas ainda não temos, em um contexto geral, um projeto macro em que podemos dizer ‘é isso que queremos para o Centro’”, frisou.

Uma das soluções apontadas por Andrade é retomar as habitações familiares. “Se houver políticas públicas de incentivo para trazer famílias para o Centro, com certeza vai atrair mais serviços, de uma forma que devolva a ‘vida’ para aquela área não só no horário comercial”, disse, ressaltando que o déficit habitacional da cidade gira em torno de 130 mil habitantes.

Círculo vicioso

A interrupção do círculo vicioso “crescimento mais degradação ambiental” é um desafio que Manaus tem que encarar o quanto antes se quiser preservar a fauna e a flora para as próximas gerações. Se da década de 1960 até hoje a cidade vivenciou um desenvolvimento prolífico impulsionado pela indústria, por outro lado a expansão urbana sem planejamento provocou uma série de problemas ambientais – entre eles, a questão da falta de um tratamento adequado do lixo e a contaminação do lençol freático pela construção irregular de poços e fossas. 

Para o professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Marcos Castro, doutor em Geografia Urbana pela Universidade de São Paulo (USP), o problema das ocupações irregulares é resultado do déficit habitacional que, por sua vez, é o reflexo de uma sociedade desigualmente constituída no que se refere à renda e às condições de posse da terra.

“A metrópole é um espaço de oportunidades, mas também de ilusões, para onde muitas pessoas vão em busca de inserção social e de renda. Quando não se tem isso o resultado são as ocupações irregulares, que continuarão enquanto não se equilibrarem as disparidades sociais na metrópole; ou daqui há 50 anos estaremos falando dos mesmos problemas”, explicou.

Tentáculos para o Interior

Castro destaca também que a tendência é que, nos próximos anos, Manaus continue lançando sua infraestrutura de metrópole sobre os demais municípios da região metropolitana, principalmente para Iranduba e Manacapuru, por conta das rodovias estaduais.

“Os impactos da ‘metropolização’ sempre trarão inevitáveis conflitos entre as estruturas territoriais existentes e aquelas que se impõem, como o aumento da violência, da degradação ambiental, da circulação de automóveis e a consequente ampliação de acidentes de trânsito, dentre outros’, disse ele.

Uma das grande questões que fica é se um dia teremos mais qualidade de vida em Manaus. O professor Castro aponta que uma mudança nas estruturas e formas de governança, de postura social e de comprometimento com o ambiente são os caminhos para construir uma cidade melhor: “Exemplos de metrópoles sustentáveis no mundo não faltam, mas para se chegar a isso é necessária uma mudança estrutural. E tal mudança deve começar hoje para que o nosso ontem não seja repetido e o nosso amanhã seja mais saudável. Por outro lado, o esforço individual também é necessário; não apenas cumprindo o dever do voto, mas acompanhando e cobrando, bem como praticando uma relação saudável com o meio ambiente urbano”, encerra ele.

No final das contas, construir essa cidade ideal para as próximas décadas é um trabalho (presente) de todos.

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Repórter do caderno de Cidades - Jornal A Crítica

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