Domingo, 19 de Maio de 2019
CAUSA SOCIAL

Fundador de escola dedica três décadas a ‘abraçar’ crianças especiais de Manaus

Edson Siqueira é fundador e coordenador do Centro de Educação Especial Shirley Bessa (Ceesb). Há 30 anos ele trabalha com a conscientização e amparo a deficientes com necessidades educacionais



14/04/2018 às 08:00

Abril é o mês internacional da conscientização do autismo, síndrome que atinge quase 2 milhões de brasileiros. Em Manaus, o mês é de muito trabalho em uma casa que abriu espaço para abraçar a causa, seus portadores e todo mundo que tem um pouquinho a oferecer sobre a temática. Quem cuida e responde por todo um projeto de inclusão é Edson Siqueira.

Das 55 primaveras do diretor, 30 delas foram dedicadas a uma única e grande causa social: abraçar. Abraçar o amor à primeira vista, abraçar o violão e uma canção regional, abraçar uma mãe no auge do desespero e, acima de tudo, abraçar uma minoria. Com os dois braços, com mais dois de sua ex-esposa e, consequentemente, de toda uma rede de apoio, desde 1995 ele deposita toda fé, dinheiro e o tal do abraço no Centro de Educação Especial Shirley Bessa (Ceesb), uma escola dedicada completamente a crianças, jovens e adultos com deficiência. 

De músico, lá nos seus 20 e tantos anos, a diretor de escola para deficientes com necessidades educacionais, Edson passa os dias numa simpática casa de esquina, no conjunto Campos Elíseos, Zona Centro-Oeste da capital amazonense. O muro traz a vívida memória de sua ex-esposa e motivadora do projeto: Shirley Bessa.

A casa azul e branca, por dentro, é enfeitada com balões e artes produzidas pelos alunos da instituição - quase que filantrópica. Por fora tem piscina e uma grande área de lazer. Dentro, alunos se dividem em atividades específicas com o apoio de toda uma equipe pedagógica, terapêutica e fitoterapêutica.

Edson, de dentro da sua sala, é quem coordenada tudo. Ele puxa uma cadeira, estende outra, parte para uma conversa de volta ao tempo e convida, mesmo que sem querer, todos a abraçarem a sua causa também. 

“Os pais chegam aqui, em sua maioria, chorando, sem saber o que fazer. Já teve caso de pai que chegou e me disse: ‘o médico disse que meu filho vai ser um vegetal’. Médico não é Deus. O que ele falou, é opinião médica dele. O que acontece aqui dentro vai da nossa experiência profissional com esses casos. Só vamos saber com o tempo, é ele que nos diz. Uma coisa é certa: tem que trabalhar. O resultado é consequência, e nós temos grandes e boas consequências”, conta. 

Emoção

Quando fala, Edson tropeça nas palavras, dá uma gaguejada aqui e ali, e, vez ou outra, pede desculpas. “Me emociono com isso”, justifica. Não precisava falar. O musicoterapeuta é, em seu todo, filantropismo. As palavras de carinho quando conta o início da sua jornada mantém-se fieis à imagem que passa quando está ao lado de seus alunos. Todos são especiais e ele, ele é todo amor. É abraço. 

“Eu era vocalista de uma banda chamada Raízes da Terra quando era novo. Um dia nos chamaram para tocar em uma escola (a escola Sempre Viva). Fomos para lá e, quando me deparei com a situação, pensei: ‘o que tá acontecendo aqui?’. Geralmente éramos chamados para tocar em bailes, em eventos. E aí explicaram: essa aqui é uma escola para crianças especiais. E eu confesso que, naquele momento, eu desconhecia quase tudo sobre esse assunto. Não tinha a conscientização. Era tudo nebuloso. Mas aquilo foi uma surpresa muito agradável”. 

Ele enrubesce. Foi ali, naquela festa estranha e cheia do desconhecido que ele conheceu Shirley, a professora. O romance foi alicerçado em encontros na escola e infindáveis ligações madrugadas a fio. “Passei a trabalhar na escola. Era o nosso jeitinho de ficar juntos”. Os dois casaram. A escola fechou. Os dois se abraçaram e foram em frente. 

“A esta altura a gente estava tão envolvido com a causa, tão imersos, que na nossa cabeça não tinha cabimento trabalhar com outra coisa se não com a educação de crianças especiais. A gente tinha que seguir com essa missão. Foi quando decidimos que estava na hora de montarmos a nossa própria escola. Montamos. Era uma parceria muito legal, que durou até teve que durar”.

Shirley faleceu. Deixou para trás seu Edson e uma filha que, quase que como por instinto natural, é “abraçadora” também. Os sonhos seguiram e seguem. Plantados no dia a dia. 

“Depois que ela (Shirley) partiu, eu me senti na obrigação de me engajar muito mais. Seria por mim e por ela. Foi quando troquei o nome da escola e a homenageei. Hoje já temos 25 anos de escola, com dedicação total ao que sempre foi nosso sonho”.

Num discurso de voz embargada, Edson chega ao ápice quando se deixa emocionar por inteiro. Ameaça umas lágrimas e traduz com simplicidade o seu papel e a luta pela sua causa. A causa que abraçou. A causa do ensino, da construção. A causa da formação.

“É uma recompensa diária. Eu digo que não sei quantas lágrimas já derramei. Sempre que o assunto é a escola, é consequentemente as crianças. Enquanto eu sentir essa emoção, não está na hora de parar. Se um dia eu chegar aqui e não sentir mais isso, não me emocionar diante de tudo que acontece, é porque está na hora de parar”.

Depois de fazer um tour pelo colégio e apresentar aluno por aluno, à hora, pelo visto, não está perto de chegar para seu Edson.

Parceria

Hoje o braço direito de Edson é Cíntia Barbosa, sua atual esposa. Ela, contagiada pelo abraço, fez pós-graduação em psicopedagogia e trabalha como professora na escola. Com discursos quase ensaiado, assim como o de todos que ali trabalham, Cíntia se emociona com o papel da escola na vida dos mais de 30 alunos.

“Não tem igual o sentimento que é fazer esse trabalho. Tem o Pedro, por exemplo, um aluno que entrou aqui junto comigo. Hoje ele sai pra passear com os pais, solta algumas palavras. Não tem dinheiro que paga o bem que é você ajudar na construção de uma criança”.

A escola não tem a documentação de instituição filantrópica. É particular. Mas particular de acordo com o que pode abraçar. “Tem gente que paga a mensalidade completa. Tem gente que paga só a metade. E tem gente que paga a metade da metade. Isso é um suporte, mas não é o que nos importa”, explica Edson.

“É muito difícil mensurar o sentimento. Não tem como dimensionar. É só muito gratificante acordar, olhar para trás, para a frente, para as crianças e pensar: foram grandes 30 anos", simplifica o diretor.  

Doações

Edson e a instituição aceitam doações e fazem esporádicos eventos beneficientes para arrecadar verda. Os interessados em apoiar o projeto do Centro de Educação Especial Shirley Bessa (Ceesb) pode entrar em contato direto com o diretor pelo número (92) 99364-0108.


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