Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019
CENTRO HISTÓRICO

Por rachaduras na torre, sinos da Igreja de São Sebastião param de tocar

Suspensão por tempo indeterminado foi feita após orientação de engenheiros que estão fazendo um laudo para atestar as reais condições da construção centenária; silêncio no Largo consterna frequentadores



sino1_C5FE7A61-9599-47DA-81C2-8AA8247467A3.JPG Sino tocava de 15 em 15 minutos durante todo o dia, até às 22h. Foto: Jair Araújo
19/05/2019 às 18:50

Os frequentadores do Largo de São Sebastião ficarão por um bom um tempo sem ouvir o badalar dos sinos da igreja que leva o nome do santo, na rua Dez de Julho, no Centro de Manaus. Motivo: há muitas rachaduras na parte interna e externa do campanário. Por orientação técnica de dois engenheiros civis do grupo “Engenheiros Solidários”, Arlindo Frota e Jhosnny Lima, os sinos permanecerão em silêncio por tempo indeterminado para que a vibração deles não comprometa ainda mais a estrutura da torre.

Atendendo a um pedido da paróquia, o presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Amazonas (CREA-AM), Afonso Lins, solicitou que os engenheiros civis, voluntariamente, preparassem um laudo técnico gratuitamente para preservar um dos monumentos mais icônicos da capital amazonense.



O laudo, que está em fase de conclusão, vai recomendar uma obra emergencial de manutenção para evitar que aconteça um acidente, já que a estrutura do campanário apresenta rachaduras em toda a sua cúpula.

A equipe de reportagem de A CRÍTICA esteve no topo da torre da Igreja de São Sebastião e, durante a árdua subida e constatou pequenas e grandes rachaduras. A maioria remendada por cimento, feito ao longo dos anos (boa parte delas já comprometida pela ação do tempo). A torre, por se tratar de uma construção do século 19, não conta com uma estrutura de ferro. E um detalhe: a construção nunca passou por um restauro desde a sua fundação, em 1888.

De acordo com o frei Paulo Xavier, pároco da Igreja de São Sebastião, por conta dos problemas detectados, os engenheiros aconselharam a desligarem os sinos, que estão programados a tocarem de 15 em 15 minutos, durante o dia todo (só parando às 22h da noite).

“A medida foi tomada por prudência mesmo. Os engenheiros darão um laudo técnico em até 15 dias. Agora precisaremos nos mobilizar para não permitir que essa estrutura desmorone e corramos o risco de perder um dos patrimônios históricos da cidade”, disse.

“Após o laudo, buscaremos recursos com o governo do Estado, com o Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional], todos os órgãos competentes, até mesmo com os fiéis, para que a gente não perca esse patrimônio amazonense. Deixando a torre como está estaremos pondo em risco não só um monumento histórico de Manaus, mas também a vida das pessoas", acrescentou.

A notícia deixou os fiéis e frequentadores do Largo de São Sebastião consternados. A engenheira civil Yasmin Silva diz que o soar dos sinos da igreja já faz parte da paisagem. “Fará muita falta. É triste saber que vamos passar pelo cartão postal da cidade sem a ‘trilha sonora’ que marca a rotina de quem vive e trabalha na redondeza”, lamentou.

A avó de Yasmim, a aposentada Maria do Socorro, de 80 anos, veio do município de Lábrea (distante 865 quilômetros da capital) só para conhecer o cartão-postal de Manaus. “Só venho à cidade para fazer os meus exames. Adoro passear pelo Largo de São Sebastião. O soar dos sinos da igreja vai fazer falta, com certeza. Espero que voltem logo a marcar as horas”, disse.

Como o agente de portaria Jacinto Gonçalves Neto faz questão de frisar, ao contrário da estrutura da torre, os sinos estão em perfeito estado. “O ruído dos sinos é forte, principalmente para quem trabalha na igreja, mas, mesmo assim, vou sentir falta dos badalos”, diz ele, que trabalha na Igreja de São Sebastião desde janeiro.

A igreja

Considerado um patrimônio histórico e cultural de Manaus, a Igreja de São Sebastião tem os seus detalhes mesclados entre o gótico e o neoclássico, e seu interior é marcado por painéis e vitrais europeus. As obras da igreja foram concluídas em 1888, com apenas uma torre, o que até hoje dá margem a muitas teorias.

Uns dizem que o mestre de obras fugiu com o dinheiro que seria utilizado na construção. Outros afirmam que, com o fim do ciclo da borracha, os doadores que ajudavam na construção da igreja ficaram sem condições de bancar o término da estrutura. Uma outra versão, mais difundida, diz que a torre teria afundado no mar quando estava sendo trazida de navio da Europa.

O frei Paulo Xavier, atual pároco da Igreja de São Sebastião, prefere uma versão, digamos, mais técnica. “A igreja foi construída em um terreno baixo na época. A estrutura não suportaria uma segunda torre”, disse, destacando que o fato da igreja ter uma torre é que faz dela ainda mais especial.

News guilherme 1674 2977771b 6b49 41af 859a ef3c3b62eae8
Repórter do caderno de Cidades - Jornal A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.