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Manaus
INFRAESTRUTURA

Porta de entrada da cidade está abandonada e não há projeto consistente para revitalizá-la

O descaso do poder público com essas áreas é secular: Manaus é conhecida como uma das cidades construídas de costas para o rio, deixando de aproveitar o potencial turístico que ele possui 02/06/2018 às 15:51 - Atualizado em 03/06/2018 às 07:43
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Trecho do bairro Educandos, na Zona Sul da cidade, um dos primeiros de Manaus, está tomado por palafitas / Fotos: Márcio Silva
Álik Menezes Manaus (AM)

Na orla central da capital amazonense, palafitas no entorno do bairro Educandos, na Zona Sul, chamam a atenção de turistas com destino aos portos do Centro da cidade. O abandono e o descaso do poder público com essas áreas é secular: Manaus é conhecida como uma das cidades construídas de costas para o rio, negando-o a existência e deixando de aproveitar o potencial turístico que ele possui. 

E mesmo hoje, com o reconhecimento dessa potencialidade, materializada em ações como o tombamento do Encontro das Águas tombado como patrimônio histórico, não há um grande projeto para requalificar essa parte da cidade e melhorar a vida de quem mora por ali.

No Educandos, várias pessoas ainda vivem em casas de madeira construídas às margens do rio Negro em péssimas condições, sem rede de esgoto. Em muitos desses locais, o rio recebe tudo o que é rejeitado pelos moradores. A atitude, aliada a omissão do poder público, deixa a entrada da cidade com um aspecto de abandono.


Palafitas, balsas e flutuantes ficam em meio ao lixo jogado no rio , que acumula nas margens

“A primeira imagem é a que fica na nossa mente. Sempre que viajo para outros estados, guardo na minha memória as coisas bonitas, mas o abano também chama a minha atenção. A primeira vez que vim à Manaus achei (essas casas) bonitas, pois imaginei que era característico da região, mas depois você entende que é fruto do abandono mesmo e falta de políticas públicas”, disse a auxiliar de escritório Marisa dos Santos, 28, que atualmente mora em Manaus, mas veio pela primeira vez há oito anos. 

Na orla do “Amarelinho”, moradores e trabalhadores que passam na área todos os dias também afirmam que a impressão que passa é de uma cidade em decadência. “Na hora do meu intervalo (do trabalho) costumo descansar aqui depois do almoço e fico olhando a orla do rio, a impressão que tenho é que tudo foi largado à própria sorte e a população foi fazendo intervenções de qualquer forma. Casas construídas nos barrancos, lixo jogado nos rios e uma feira (da Panair) entregue às baratas. Se eu, que moro aqui, penso assim, imagina os turistas. Lamentável”, disse o almoxerife Fredson Cabral Neto, de 34 anos. 

A feira citada pelo almoxerife é uma construção de madeira, às margens do rio, em frente à feira da Panair, também no bairro Educandos. No local, que está em péssimas condições, alguns comerciantes ainda trabalham e chama a atenção de outros frequentadores da área. “Parece cidadezinha do interior. Tudo abandonado, sujo, sem manutenção, a impressão que tenho é que isso não faz parte de Manaus”, disse o estudante universitário Carlos Marinho, 26.

Bagunça que afasta os turistas

Na orla da Manaus Moderna, os turistas e amazonenses que desembarcam na orla da cidade enfrentam a bagunça que se tornou aquela área.  Eles precisam disputar espaço com vendedores que ocupam as calçadas, flanelinhas que negociam vagas de estacionamento públicas, o trânsito caótico, caminhões de carga e descarga e uma feira sem a estrutura ideal, além do passeio público e escadas depredadas. 


Área da Manaus Moderna, que foi ‘revitalizada’ segundo a prefeitura, tem escadarias em ruínas, além de outros problemas estruturais e de organização

“Gosto de viajar, de passear, mas, às vezes, encontrar situações como essa me desmotivam. Ali na Manaus Moderna é uma bagunça, sujo, trânsito horrível, vendedores ambulantes se amontoam”, destacou o estudante de veterinária Sidney Nascimento Filho, 23. “Queria entender o que está faltando para que os políticos resolvam de forma definitiva essa situação. Nossa cidade fica sendo conhecida pelas coisas ruins, mas nós temos potencial e podemos mostrar que somos mais que isso”, completou o jovem. 

Prefeitura diz que 'revitalizou' trecho da Manaus Moderna

Questionada sobre a situação, a prefeitura  disse em nota que  Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf) realizou a revitalização do pavimento, troca da iluminação, recuperação do passeio, troca dos guarda-corpos (muretas) e sinalização vertical e horizontal na área da Manaus Moderna, no trecho entre o Mercado Adolpho Lisboa até a feira. 

“O calçamento, pintura e arborização foram executados num segundo momento, com recursos da própria secretaria, uma vez que a obra era oriunda de convênio entre a prefeitura e a Caixa Econômica Federal, mas os recursos não foram liberados conforme acordo. Além disso, ações que visam o ordenamento no trânsito também já foram realizadas no local pelo Instituto Municipal de Engenharia e Fiscalização do Trânsito (Manaustrans)”. 

Ainda segundo a nota, o maior problema do local são as contentes depredações do patrimônio público por usuários do próprio espaço, o que está relacionado ao vandalismo e à questão da segurança pública. Quanto aos ambulantes, a prefeitura disse que  espera minimizar a presença dos mesmos a partir da contratação dos 100 novos fiscais da subsecretaria Municipal de Abastecimento, Feiras e Mercados (Subsempab), atualmente aguardando liberação pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM)”.

Sem projetos

Questionadas sobre a situação das casas construídas na orla do bairro do Educandos, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Manaus (SRMM) e a Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE) informaram que não há nenhum projeto ou programa em andamento de revitalização para esta área da cidade.

Manaus já teve ‘cidade flutuante’

A orla do Centro da capital já teve status de “cidade flutuante”, com 700 moradias ancoradas em frente ao Porto de Manaus. Em 2010, ano do último Censo, cinco mil  pessoas moravam às margem dos rios na capital, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A ocupação da margem do rio Negro começou em 1740 e o auge da cidade flutuante foi em 1940, quando 700 barcos serviam de casa para pescadores e comerciantes. O perfil do ribeirinho de Manaus sempre se caracterizou por famílias de baixa renda.

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