Domingo, 31 de Maio de 2020
LOCKDOWN

Possibilidade de bloqueio total para conter a Covid-19 divide opiniões em Manaus

Equipe de reportagem de A Crítica ouviu a opinião de algumas pessoas a respeito da aplicação da quarentena total na capital do Amazonas



WhatsApp_Image_2020-05-03_at_14.38.25_A3583450-6961-49A2-B562-0B5768380CC9.jpeg Foto: Euzivaldo Queiroz
13/05/2020 às 20:07

Ao longo das últimas semanas, o termo bloquei total - lockdown, em inglês - se tornou o centro do debate sobre o combate à pandemia do novo coronavírus (Covid-19) no Amazonas. Na quarta-feira da semana passada (6), a Justiça do Amazonas negou o pedido do Ministério Público (MP-AM) para determinar o bloqueio total de circulação de pessoas no Estado. O pedido do MP-AM levou em consideração o aumento vertiginoso do número de casos no Amazonas que, na tarde de hoje (13), registrou 15.816 infectados.

A expressão “lockdown”, significa “confinamento total” ou “quarentena total”. O “lockdown” foi adotado em vários países durante a pandemia, como Alemanha e Argentina, considerados casos de sucesso no controle das infecções. Sendo a fase mais severa de restrições, a medida é imposta para que as pessoas cumpram, de fato, o isolamento social e, assim, a propagação do novo coronavírus seja contida.



Os decretos de “lockdown” ainda podem prever multas e até prisão para quem não cumprir as ordens impostas. Em uma eventual quarentena total, a população precisa comprovar que o seu deslocamento é para algo essencial, tais como ir ao supermercado, ao caixa eletrônico sacar dinheiro ou ao hospital. No caso dos profissionais de saúde e segurança, por exemplo, as empresas devem emitir declarações que atestem o desempenho da atividade.

No Brasil, na terça-feira da semana passada (5), o Maranhão passou a adotar o “lockdown” na região da capital, São Luís. No Pará, a medida passou a valer na última quinta-feira (7), no entorno de Belém.

No Amazonas, em pronunciamento online transmitido no dia 12 de abril (Domingo de Páscoa), o governador Wilson Lima chegou a mencionar a possibilidade de uma medida restritiva mais dura no Amazonas, quando ainda havia 1.206 casos confirmados e 59 mortes notificadas no Estado.

“Eu não quero tomar essas medidas, mas vai chegar o momento em que o Estado vai ter que baixar um decreto para colocar todo mundo em quarentena”, declarou ele na ocasião.

Em um momento em que o número de infectados e de mortes causadas pela Covid-19 só aumenta a cada dia, a equipe de reportagem de A Crítica ouviu a opinião de algumas pessoas a respeito da aplicação da quarentena total no Amazonas.

Coordenador do Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares), um dos 44 coletivos que assinaram carta-manifesto em que medidas mais rígidas são cobradas dos poderes públicos para combater a pandemia no Estado, o padre Paulo Tadeu se diz completamente a favor da quarentena total, principalmente porque o Amazonas apresenta um dos maiores índices de letalidade do Brasil – 7,33%, segundo o último boletim epidemiológico divulgado pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) nesta quarta-feira (13).

“Estamos assistindo ao colapso dos sistemas de saúde em nossa cidade. As estatísticas veiculadas não correspondem à realidade. Temos que ser honestos, pois a testagem é insuficiente para saber a real expansão do vírus. Diante desta dramática conjuntura, temos que buscar outros remédios e o “lockdown” no momento atual seria este remédio”, opinou o padre.

A professora universitária Cristiane Haddad se vê dividida entre discordar e concordar com a implementação da quarentena total no Amazonas. Ela explica o porquê. “As pessoas parecem não ter consciência do que está acontecendo e continuam circulando por ai sem necessidade”, observa. 

“Ao mesmo tempo, penso na economia do Estado - muitos precisam trabalhar, pelo sustento de suas famílias. Não se pode esperar nada do governador nem do prefeito. Porque eles não querem saber da cidade nem muito menos do povo. Para ambos o que interessa é decretar a calamidade pública para receber o dinheiro, sem nada fazer pelo ou para a população”, apontou.

Mesmo amargando prejuízos financeiros por conta da suspensão de licenças para eventos públicos por parte da Prefeitura de Manaus, o DJ Pan Dean é favorável a essa medida mais restritiva de circulação de pessoas para, dessa forma, achatar a curva de infecções o mais rápido possível.

“Pelo menos assim podemos evitar que o vírus se propague ainda mais, porém, ainda assim, acredito que as pessoas não ficarão em casa, principalmente nos bairros mais periféricos, onde os comércios não essenciais continuam de portas abertas”, observa ele, que sem poder organizar eventos, tem recebido apoio financeiro de familiares nesse período.

Pertencente ao grupo de risco, por sofrer de mastite granulomatosa (uma doença autoimune que afeta a mama), a professora Mônica Palheta também é a favor do “lockdown” porque, segundo ela, a maioria das pessoas não está obedecendo à recomendação do distanciamento social.

“Sou a favor, inclusive, que se aplicasse multas a quem desobedecer ao isolamento social, para ver se assim conseguimos conter o avanço dessa doença. Estou fazendo a minha parte. Eu não saio de casa sem necessidade há dois meses. Procuro fazer todas as minhas compras pela internet, compro de pão a sandália pro meu filho”, disse.

Contudo, a quarentena total (ou “lockdown”) está longe de ser uma unanimidade entre a população. Que o diga a esteticista Rita Anselmo da Silva, que só essa semana veio ouvir a expressão inglesa pela primeira vez.

“Eu não sou a favor dessa medida. Nem todo mundo tem condição de estar trancado em casa. Muitos pais de família não têm o que comer. Fora isso, estão sem receber, como é o meu caso”, contou.

Diretrizes regionalizadas 

Durante coletiva de imprensa no Palácio do Planalto na semana passada, o ministro Nelson Teich afirmou que o governo federal deve recomendar o chamado “lockdown” (quarentena total) para cidades que estejam enfrentando uma transmissão mais grave do novo coronavírus - o plano do Ministério da Saúde para esta medida de isolamento social mais rígida trará diretrizes regionalizadas.

“Quando falamos em isolamento e distanciamento existem vários níveis. É importante que a gente entenda que não existe uma defesa do isolamento ou não isolamento. Vai ter sempre medidas simples até o lockdown. O que é importante é que cada lugar vai ter sua necessidade”, declarou o ministro.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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