Sábado, 25 de Maio de 2019
CENTRO HISTÓRICO

Abandonada, Praça da Saudade virou ponto de assaltos e cenário de tiroteios e mortes

Antes um ponto de parada obrigatório do entretenimento em Manaus, hoje a tradicional atração turística está ocupada por moradores de rua e tomada pela violência



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Ocupada e pichada. Foto: Michell Mello/freelancer
11/04/2019 às 06:45

A Praça da Saudade tem sofrido com constantes atos de vandalismo. Pichações nas colunas são comuns, lâmpadas dos pequenos postes são furtadas constantemente, deixando a praça com pontos mais escuros durante a noite, favorecendo a ação de assaltantes. Outro problema surgiu em dezembro do ano passado, quando a cabine telefônica passou a ser ocupada por moradores de rua. Os homens e as mulheres  passaram a viver no local colocaram dois colchões, uma rede e uma dezena de roupas penduradas.

Conversando com uma comerciante que pediu para não ser identificada, ela contou que a presença dos moradores de rua têm espantado a clientela do seu estabelecimento. “Eles costumam abordar as pessoas de maneira ríspida pedindo dinheiro e comida. As meninas que saem da escola só passam aqui para comprar algo quando estou na porta do meu estabelecimento. Quando estão ‘noiados’ brigam entre eles, às vezes com pedaços de pau e gargalo de garrafa. Ligo para a polícia, mas o problema não é resolvido. Já liguei para a prefeitura também e nada. Eles fazem as necessidades [fisiológicas] deles aí mesmo e não tem quem suporte o odor. Tem dias que sobra muita mercadoria porque os clientes ficam com medo de passar por essa cabine ocupada”, relatou.

A comerciante também disse que um cunhado dela tinha uma banca de revistas na Praça da Saudade, mas ele não aguentou mais a insegurança do lugar e fechou. “Tem um quiosque fechado do outro lado da praça que nunca mais foi ocupado. Porque não tem quem aguente essa situação de o tempo todo estar vulnerável a assaltos. Logo que reformaram essa praça ainda tinha a presença da Guarda Municipal, e era ótimo porque podíamos trabalhar em paz. Agora nem isso tem mais. É por essas e outras que a praça está cada vez mais morta”, lamentou.

Se durante o dia a movimentação fica por conta de vendedores, estudantes, usuários do transporte público e transeuntes que tomam a praça como atalho, durante a noite os  bares da rua Simão Bolívar, no trecho entre a avenida Epaminondas e a rua Ferreira Pena, em frente à praça, é que costumam dar vida ao lugar.

Frequentado majoritariamente por jovens universitários, a movimentação dos bares costuma ser grande. Aos fins de semana, com a lotação, é comum que as mesas dos estabelecimentos cheguem a tomar conta de metade da rua. Sem contar a presença maciça de vendedores ambulantes, que comercializam de churrasquinhos a balas e cigarros. A lotação obriga, muitas vezes, os motoristas de ônibus a fazerem a curva naquele trecho com muita cautela para não causar nenhum acidente.

Após denúncias, no dia 15 de março a Polícia Civil interditou os oito bares por falta de licenciamento ambiental.

Assaltos e mortes

A estudante de pedagogia Marina Ferreira lamenta não ter nenhuma foto com o filho de dez anos na Praça da Saudade. Fotos posadas que ela conta ter aos montes de quando era mais jovem e quando a praça era um ponto obrigatório de entretenimento das famílias. A justificativa é o medo que ela tem de sacar o celular da bolsa e ser roubada a qualquer momento. “É  linda, mas eu só passo aqui pra encurtar caminho até o ponto de ônibus mesmo. Trazer o meu filho aqui pra passear nem pensar. Já vi muitos assaltos. Não quero ser a próxima”, diz.

Não é muito difícil encontrar alguém que já foi assaltado entre aqueles que diariamente passam pela praça. De andar apressado, e no início um pouco desconfiado quando este repórter o abordou para uma conversa, o estudante Rafael Oliveira não consegue esquecer do dia em que teve o celular roubado quando estava passeando com a namorada. “Um homem mal encarado encostou na gente com a mão embaixo da camisa e disse baixinho ‘passa o celular’. Preferi não arriscar a reagir, mas depois de passar por isso a gente fica desconfiado, né? Sempre que tenho que passar por aqui; caminho o mais depressa possível”, relata.

Na mesma tarde outra transeunte caminhava tranquilamente com fones no ouvido e o celular na mão. Quem olhasse a auxiliar de serviços gerais Kellen Cristiane distraída nem imaginaria que ela já foi assaltada duas vezes na praça – sendo a última vez em dezembro do ano passado. “Não fui agredida, mas a gente nunca sabe se a pessoa está armada. Entreguei o celular assim que o cara me pediu. Hoje só ando por aqui durante o dia e na hora em que os estudantes estão saindo da escola por causa da grande movimentação. Em outras horas, evito ao máximo”, conta. 

 
Escuridão e medo durante a noite. Foto: Antonio Lima - Arquivo/AC

Além dos assaltos, tiroteios e mortes; foram cinco nos últimos meses. Na noite de 20 de março, por exemplo, os frequentadores dos bares da Simão Bolívar foram surpreendidos com uma troca de tiros. Os disparos partiram de um táxi que passou pelo local. Os tiros acertaram Alexandre da Costa Braga, 30, que foi baleado e encaminhado ao HPS 28 de Agosto, e Anderson Silva Andrade, 18, que morreu no local.

Na madrugada do dia 17 de fevereiro, o traficante identificado pelo apelido de “Cebolinha” foi o autor de disparos que matou um homem que estava em um dos bares da próximo à Praça da Saudade. A vítima foi identificada como sendo Andrey Sampaio da Costa, de 25 anos. Atingido com quatro tiros, ele ainda correu alguns metros pedindo ajuda.

O outro lado: policiamento

De acordo com o major Franklin Terto, comandante da 24ª Companhia Interativa Comunitária da PM (Cicom), além do patrulhamento de rotina, incluindo o ciclopatrulhamento, o local recebe ações da “Operação Águia” e também da Central Integrada de Fiscalização (CIF), coordenada pela Seagi.

O outro lado: ocupação

Consultada, a Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Direitos Humanos (Semasc) informou, por meio de nota enviada à redação de A Crítica, que realiza abordagens junto a esses moradores de rua, que não são considerados invasores, e sim pessoas em situação de vulnerabilidade social. Portanto, segundo a pasta, não podem ser retiradas das ruas contra as suas vontades.

“As equipes de abordagem orientam quanto aos meios de auxílios disponibilizados, como o Centro Pop, onde recebem alimentos, podem tomar banho, ajuda psicossocial. A população pode solicitar o serviço de abordagem pelo disk assistência social do município, pelo 0800 092 1407, e acompanhar o encaminhamento da situação via protocolo”, diz a nota.

Outro lado: manutenção

A respeito da infraestrutura, a Prefeitura de Manaus informou  que a praça já recebeu várias ações de manutenção e lavagem, e que Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas) tem cuidado do paisagismo do espaço e, no momento, a Secretaria Municipal de Parcerias e Projetos Estratégicos (Semppe) está realizando estudo técnico da praça para propor melhorias visando a manutenção e recuperação.
 


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