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'Precisamos premiar o consumidor adimplente', diz presidente da Manaus Ambiental

Sérgio Braga, novo diretor-presidente da concessionária Manaus Ambiental, fala dos desafios que já começou a enfrentar no comando da empresa, como o elevado índice de perdas do sistema e a questão do esgoto 28/06/2015 às 12:52
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Sérgio Braga é graduado em Gestão de Empresas
Saadya Jezine Manaus (AM)

Sérgio Braga, administrador com vasta experiência em gestão empresarial, atuou no setor de telecomunicações e consultoria. Suas últimas atividades foram voltadas para a área de saneamento. Paraense que morou em diversas capitais como Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro, chegou a Manaus para assumir o cargo de diretor-presidente da Manaus Ambiental em 24 de fevereiro deste ano.

Para realizar as metas presentes no contrato de concessão, o diretor identificou os gargalos e montou um plano estratégico para realizar com excelência os objetivos propostos. Em entrevista ao jornal A CRÍTICA, o especialista enfatiza questões como o combate ao desperdício de água, abastecimento, metas, impasses em relação ao esgoto e comprometimento de colaboradores com a missão da empresa.

Quais os desafios identificados inicialmente?

Existe um desafio que é de toda companhia que presta serviço de saneamento: abastecer a cidade e coletar esgoto. Diante desses dois cenários, podemos afirmar que o de água, nós conseguimos através de um esforço coletivo -  tanto da Prefeitura [de Manaus] quanto do governo do Estado, que foi abastecer mais 100 mil famílias que sempre tiveram o abastecimento precário. São cerca de 500 mil pessoas que hoje recebem água com toda regularidade, tratada.

E a questão do esgoto?

Nesse aspecto, nós precisamos de algumas conquistas. Ainda temos metas extremamente ousadas no nosso contrato. Para se ter uma ideia, nós temos que levar esse índice de coleta em 2030 a patamares de 80% da população, isso significa investimentos na ordem de R$ 1 bilhão pelo menos. Atualmente a porcentagem é de 20%, com 103 mil coletas na cidade.

Por que índices tão baixos?

Porque em qualquer lugar do mundo o investimento em esgoto é muito mais oneroso, complexo e caro. Via de regra, os municípios, as cidades, começam com o suprimento de abastecimento de água, com as soluções próprias de esgotos que elas vêm herdando. É para melhorar essa situação que nós tivemos que esse contrato, a fim de multiplicar por 4, sair de 100 mil para cerca de 400 mil pontos de coleta nesses 15 anos.

Que outros desafios o senhor destaca como prioritários dentro desse processo?

Um desafio tão grande quanto esse é que há um número muito grande de ligações irregulares. Isso leva a duas situações muito graves. A primeira é o risco de contaminação dessa água. Então se perde a garantia da qualidade. O segundo malefício é que as pessoas que têm esse consumo irregular gastam no mínimo quatro vezes mais água do que quem paga a conta, quem é o consumidor consciente. Normalmente esse comportamento está associado à gratuidade da água, de uma maneira irregular. E essa pessoa, depois que é regularizada, acaba trazendo esse comportamento deturpado, com reflexos na conta dele ao final do mês. Mas é porque ele já desenvolveu o costume de consumir mais que o necessário.

Como combater esse desperdício?

Vamos fazer, ao longo desse semestre, um desenho macro da região. Em um conjunto de bairros, batendo literalmente de porta em porta e verificando como está o abastecimento daquela residência. Identificando também um abastecimento que esteja irregular, ou aguardando regularização. Levaremos uma equipe técnica e operacional completa, com agentes comerciais dando suporte. Colocaremos uma van equipada com o nosso sistema para imediatamente fazer os acertos de débitos. Vamos ser o mais flexível possível para reconquistar esses clientes.

A empresa tem um diagnóstico a respeito das perdas do sistema em Manaus?

Temos mais de 130 mil clientes cortados ou suprimidos. As casas continuam nos mesmos locais, e eles estão se abastecendo, porque ninguém vive sem água. Isso significa dizer que ou ele encontrou uma fonte alternativa ou ele está consumindo água de maneira irregular. Grande parte do nosso desperdício vem dessas pessoas que não são clientes, usando de uma maneira não responsável.

Quais são as consequências desses atos?

Muitas vezes a pessoa vê um exemplo sem consequência. Um morador que tem na sua rua, 50 casas, 30 delas estão regulares e 20 não. Aí por uma dificuldade financeira qualquer, a pessoa acaba criando facilidades para ela passar para a clandestinidade, mas elas não têm a compreensão do real prejuízo. Nós temos a nossa rede que trabalha por pressão. Quando eu capto água da ponta do Ismael, essa água chega a até 50 km de distancia para abastecimento de alguém mais à frente. Quando alguém se utiliza de um “gato”, ele está prejudicando todo o restante que seria abastecido numa determinada pressão. O prejuízo é muito grande.

E o que a Manaus Ambiental está fazendo para evitar esse tipo de situação?

Uma das coisas que estamos fazendo se chama “setorização”. Nós estamos pegando uma determinada área geográfica e isolando toda a água que entra para podermos medir o consumo dentro de uma determinada área. Com isso, saberemos qual foi a quantidade de água que colocamos lá dentro e o que foi faturado. “Setorização” consiste na redução de uma área muito grande em pequenas áreas possíveis de medir. Assim, conseguiremos ser mais precisos no tratamento desse desperdício.

O que a empresa pretende fazer para estimular o consumo consciente?  

Nós entendemos que precisamos premiar o cliente adimplente, aqueles que efetivamente pagam suas contas. Nós temos varias ideias, e estaremos colocando em prática através de campanhas na mídia, nas associações de bairro, de tal maneira que a gente possa primeiro, levar educação, conscientização. Vamos premiar esse adimplente, que paga suas contas corretamente, que trabalha para honrar seus compromissos e não colocar o foco em feirões que acabem entrando num ciclo vicioso.

Que estratégia o senhor pretende utilizar para enfrentar esses principais impasses?

Ordenamento social. A sociedade precisa discutir sobre isso: do coletivo prevalecer sobre o individual. Quando a gente fala de coleta de esgoto ou saneamento, estamos falando do coletivo prevalecer sobre o individual. Se eu prefiro não pagar R$ 30 na minha conta de água para ter meu esgoto coletado porque com esse dinheiro eu faria outra coisa, eu não estou me isentando de cometer um crime. Eu estou prejudicando outras pessoas, inclusive outras gerações. Esse é o perfil da política da Manaus Ambiental, conseguir colaborar e participar ativamente da grande mobilização da sociedade, criando consciência nas pessoas. Esse é o meu grande objetivo estratégico.

Como a Manaus Ambiental está estruturada para superar esses desafios?

Nós temos um contrato de concessão que vai até 2045, portanto são 30 anos, com uma ordem de contrato de R$ 3 bilhões para ser investido. Com relação à equipe, são cerca de mil colaboradores. Temos um grupo de colaboradores diretos, e um grupo de indiretos, mas que trabalham quase que permanentemente aqui conosco na execução de obras e de serviços terceirizados. E isso eu queria enfatizar, porque foi uma das coisas que me impressionaram: o nível de comprometimento, dedicação, orgulho das pessoas do grupo. É compreensão e comprometimento que esses profissionais têm em relação à importância deles para a saúde das pessoas.

Além desses profissionais, que outros parceiros colaboram com as atividades?

Nós somos só um elemento – a concessionária, mas os órgãos reguladores, gerenciadores, também têm sua contribuição. Temos uma unidade da Prefeitura Municipal gestora de água, que está coordenando todo um trabalho de articulação que envolve a atuação de outros órgãos públicos. Eu destacaria o papel do Ipaam (Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas), da Semmas (Secretaria Municipal de Meio Ambiente), a Secretaria de Saúde através da Vigilância Sanitária, o Implurb (Instituto Municipal de Planejamento Urbano), o Sinduscon (Sindicato da Indústria da Construção Civil) – na construção de novos empreendimentos, para que eles sigam um padrão correto do ponto de vista ambiental. O próprio Ministério Público é fundamental no acompanhamento de todo esse movimento.

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