Sábado, 16 de Janeiro de 2021
PRECONCEITO

Preconceito vira arma eleitoral no segundo turno para prefeito em Manaus

Idade e religião de candidatos a prefeito são usadas na tentativa de ‘desqualificar’ as candidaturas, empobrecendo o debate



3f10c558-10b0-4fc1-b344-d4c1644330e8_2506BE3D-F9FE-4E2B-94AE-A55F62F1C9DD.jpg Aos 80 anos, o candidato Amazonino Mendes diz que está em plenas condições de saúde física e mental; David diz que é preciso reconhecer a existência de ‘ uma tendência ao preconceito religioso’
23/11/2020 às 09:51

O segundo turno das eleições municipais trouxe à tona dois tipos de preconceitos: a idade e a fé professada pelos candidatos a prefeito de Manaus. Os alvos são Amazonino Mendes (Podemos) e David Almeida (Avante), respectivamente.

Aos 81 anos, cardíaco, diabético e do grupo de risco da Covid-19, a idade e a saúde de Amazonino Mendes são usadas pelos adversários como argumentos contrários à sua capacidade de administrar a cidade, pela quarta vez. Ele é o candidato mais idoso entre os 11 postulantes ao cargo de prefeito.



Desde criança David Almeida congrega como adventista e defende os princípios conservadores, entre eles, a “preservação da família, como instituição divina”. Ele recebeu o apoio e o reconhecimento de diversas lideranças de congregações evangélicas na capital.

Essas características dos candidatos são as preferidas pela “fábrica de memes” na tentativa de desconstruir os oponentes que disputam o segundo turno, marcado para o domingo. A intolerância também se dá por comentários e vídeos, sobretudo, nas redes sociais.

O reitor da Fundação Universidade Aberta da Terceira Idade do Amazonas, Euler Ribeiro afirma que é envelhecer é um privilégio, pois quem não envelhece morre precocemente. O médico geriatra disse que a população somente agora se deu conta que a expectativa de vida quase dobrou em menos de 50 anos no país.

Até 2060, aproximadamente, 1/3 da população brasileira será composta por pessoas idosas. Os cidadãos acima dos 60 anos somam 36 milhões ou 17% da população, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em cinco anos a população manauara nesta faixa etária cresceu 19%. Saltou de 199 mil, em 2014, para 246 mil, em 2019.

“No passado quem conseguia ultrapassar 50 anos era considerado um caduco, pois o comportamento no passado se modificava. O preconceito com a velhice ainda existe, mas quando se dão conta que são os mais velhos que promovem saúde com ciência e sabedoria, são os mais velhos que conquistam com tecnologia atual tudo de melhor para a população”, disse o especialista.

Euler Ribeiro frisou que nos países cuja longevidade é exponencial, como na Ásia e no Mediterrâneo, os idosos são idolatrados e lamentou que exista o preconceito etário na América Latina, mas, na avaliação ele, esse cenário irá mudar em breve. “Tenho 80 anos e já contribui com o meu Estado e com o país, pois fui secretário da Saúde por sete anos e deputado federal por 12 anos. Há 13 anos estou à frente da Fundação Universidade Aberta da Terceira Idade, a primeira no Brasil, cuidando com ensinamentos corretos como envelhecer com qualidade no Amazonas”, disse.

Intolerância religiosa

O jornalista e professor de escola bíblica da Nova Igreja Batista (NIB) André Alves disse que sente na pele, desde a infância, o preconceito contra evangélicos. “Nasci num lar cristão e aprendi, por intermédio dos meus pais e de acordo com o que a Bíblia diz, que o ato de ‘colar’ em provas ou furar filas, por exemplo, é um pecado chamado desonestidade”, contou.

Ao rejeitar essas condutas e não participar de movimentos grevistas e de atos de rebelião contra professores, por princípio bíblico, ele foi tachado de “santo do pau oco”, “pastor”, “otário”, “puxa saco” e frases acompanhadas de palavrões. “Já na fase adulta, vi o preconceito se manifestando de várias formas, por meio de piadas jocosas sobre ‘dízimo’ ou sexo. Quando um jovem evangélico defende a prática sexual dentro do casamento, ou se manifesta contra a pornografia, é motivo de deboche dentro do ambiente universitário ou nas escolas. O movimento ‘Eu Escolhi Esperar’ virou motivo de pilhéria na internet”, afirmou.

O professor de ensino bíblico frisou que as redes sociais estão cheias de frases como “crente é tudo safado”, “pastor é tudo pilantra” e, segundo ele, a grande mídia, em parte, alimenta a tese de que “a onda evangélica ou conservadora” é algo perigoso para a sociedade.

Na opinião do jornalista, os que pregam a tolerância são, muitas vezes, os mais intolerantes. “Todos aqueles que conhecem a Bíblia sabem que Jesus e seus seguidores jamais vão impor comportamentos a quem quer que seja. O evangelho é uma escolha pessoal. Livre arbítrio também é um princípio bíblico. Afinal, todos, um dia, vão prestar contas a Deus”, declarou.

‘Respeito todas as manifestações de fé’

Candidato a prefeito de Manaus que avançou para 2º turno, David Almeida é membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), denominação cristã restauracionista e protestante. Os adventistas pregam o retorno de Jesus Cristo e, logo, são cristãos. Entre as teologias está os ensinamentos cristãos tradicionais como a Trindade, a infalibilidade bíblica e protestantes, por exemplo, justificação pela fé, salvação pela graça. Creem na ressurreição e guardam o sábado como dia sagrado e abstém-se do trabalho.

Os adventistas crêem na Bíblia e cristã nos escritos de Ellen Gould White, considerados inspirados e úteis para orientação, instrução e correção, embora esteja sujeito ao ensinamentos bíblicos. Na prática, a nomenclatura evangélicos tornou-se um guarda chuva para designar todos aqueles que são cristãos e não católicos.

“Eu sou evangélico adventista desde criança, mas sempre convivi muito bem com os católicos porque a maioria dos meus amigos eram católicos. É de se reconhecer a existência de uma corrente que hoje tem uma tendência ao preconceito religioso. Mas, da nossa parte, sempre partiu o respeito a todas as manifestações de fé e culturais, haja vista o meu histórico, no bairro (Morro da Liberdade) onde nasci e me criei. Até o momento não enfrentei nenhuma manifestação de preconceito por ser adventista, pois, como homem público eu sempre busco o lugar o respeito e do diálogo", declarou David Almeida.

‘Em plenas condições físicas e mentais’

O democrata Joe Biden, que completou 78 anos na última sexta-feira, será o presidente americano mais velho a assumir o cargo. A idade dos candidatos à presidência dos Estados Unidos dominou a campanha eleitoral à Casa Branca e levantou a discussão sobre saúde e preconceito.

No Brasil, o empresário José Braz (PP), de 95 anos, foi eleito para Prefeitura de Muriaé, em Minas Gerais. Ele conquistou 42,80% dos votos válidos em uma disputa acirrada contra o atual prefeito Grego (PSD), diferença de 926 votos, e se tornou o prefeito eleito mais velho do país. Ele já havia comandado a prefeitura entre 2005 e 2012.

Maria do Carmo (PSDB), de 83 anos, foi eleita vice-prefeita de Nova Olinda (PB) com 56,9% dos votos.

A deputada federal Luiza Erundina, de 85 de anos, concorre a vice-prefeita de São Paulo na coligação “Pra Virar o Jogo”, de Guilherme Boulos, ambos do PSOL. A deputada Benedita da SIlva (PT), de 78 anos, concorreu a prefeitura do Rio de Janeiro e ficou em quarto lugar.

Em Manaus, Amazonino Mendes usou mais uma vez as redes sociais para rebater críticas em relação à sua idade. O candidato, que completou 81 anos na semana passada, questiona “você me acha velho para ser prefeito?” e responde: “Se eu não estivesse em plenas condições físicas e mentais de assumir a nossa prefeitura, eu não me candidataria. Mas o fato é que eu estou bem, tranquilo e vou colocar toda a minha experiência e conhecimento para enfrentar o desemprego brutal que vem aí”, declarou em vídeo publicado na sexta-feira.

Análise Marcelo Seráfico, cientista político e doutor em sociologia

‘Há um vazio no debate’

Os preconceitos são um dado do processo de formação da sociedade brasileira. Dentre outras razões pelo modo como essa sociedade se constitui de um lado a partir da escravidão e do outro a partir de uma divisão social do trabalho em que a força de trabalho associada da juventude sempre foi muito cultivada.

O preconceito de raça, etária, de gênero acerca do lugar da mulher na sociedade, étnico relativo a quais são os tipos de conduta na vida adequados a realização de determinadas tarefas vinculadas ao processo econômico são estruturantes da existência da sociedade brasileira. Não é estranho que esses preconceitos sejam reanimados em momentos em que os conflitos se acirram e que tendem a resultar em perdas e ganhos, neste caso, eleitorais.

Acredito que em situações dramáticas como essas os preconceitos acendem como o foco das críticas mútuas que se faz pelo fato de que existe um vazio político no debate, vazio de ideias e de propostas, o que nos leva a um conclusão que é lamentável do ponto de vista dos cidadãos.

É como se as eleições não passassem de um concurso para saber quem tem mais competência na publicidade para conquistar o voto do eleitor e chegar ao poder, o que não tem absolutamente relação com o exercício do mandato com vistas a assegurar e ampliar os direitos dos cidadãos e melhorar as condições de vida deles.

Saiba mais

Dos 123 candidatos a vereador de Manaus com mais de 60 anos neste pleito, apenas um foi eleito. Professor Samuel, do PL, de 62 anos, foi reeleito e emplacou o 3º mandato. Na disputa entre as 41 cadeiras da Câmara Municipal, 11 vereadores foram eleitos para próxima legislatura, de 2021 a 2024, com o apoio e o voto dos evangélicos.

News larissa 123 1d992ea1 3253 4ef8 b843 c32f62573432
Repórter de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.