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Manaus
SUMIÇO

Prefeito de Manaus assinou Diário Oficial do Município só cinco dias no mês de janeiro

Assessores não confirmaram quantos dias do primeiro mês de mandato o prefeito passou fora da cidade, mas sumiço foi inequívoco 05/02/2017 às 09:59 - Atualizado em 05/02/2017 às 10:33
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Foto: Winnetou Almeida/ACritica
Janaína Andrade Manaus (AM)

O prefeito de Manaus, Artur Neto (PSDB), encerrou seu primeiro mês de mandato com muita turbulência. Nomeação polêmica da esposa para cargo com status de secretária, o reajuste da tarifa de ônibus - que deu origem a uma batalha judicial - e ausência não justificada da cidade deram o tom dos primeiros 30 dias de governo neste segundo mandato do tucano.

 A ausência de Artur da cidade causou constrangimento aos próprios assessores, que não conseguem - ou não podem - explicar o real motivo do sumiço, que durou ao menos 15 dias. Sem informações oficiais, não é possível saber exatamente quantos dias do mês de janeiro Artur Neto ficou na capital, mas das 23 edições do Diário Oficial do Município de Manaus (DOM) que circularam desde o começo do ano até dia 31 de janeiro, o prefeito assinou atos em apenas cinco dias – 3, 4 a 6 e 17. O restante das edições carrega a assinatura do vice-prefeito, Marcos Rotta, e dos secretários municipais.

Os problemas começaram ainda na posse. Reeleito para mais quatro anos de mandato, Artur iniciou o mês na solenidade de posse, dia 1º de janeiro, com atraso de quase duas horas, o que levou os vereadores a começarem o evento sem ele.

Secretariado

No dia 6 de janeiro, Artur anunciou o novo secretariado de seu governo. Em oito pastas, o tucano  trocou o secretário. No mesmo evento que anunciou seu novo staff, Artur afirmou que criará um fundo, batizado de “Fundo da Solidariedade”, para empregar a esposa, Elisabeth Valeiko, que permitirá a ela receber salário de secretário municipal, que é de R$ 15 mil.

Segundo ele, o Fundo não terá custos e será o resultado da “retenção que se vai fazer de 0,5% dos pagamentos feitos pela Prefeitura a pessoas jurídicas. “Sou a favor de que ela receba, ou como subsecretária ou secretária. Ela não é uma dondoca que não precisa de dinheiro. Ela está deixando o trabalho e eu sou a favor de que receba”, defendeu Artur.

Nos dias que se seguiram, de 7 a 16 de janeiro, o prefeito não assinou nenhum ato no Diário Oficial, e a ausência dele começou a ser sentida na cidade.

No dia 17, Artur deu sinais breves de que estava em Manaus, ao assinar atos que foram publicados no Diário Oficial. Mas logo em seguida, comunicou que viajaria para Bogotá e Medelim, na Colômbia, de 18 e 22 de janeiro, para conhecer a experiência da cidade colombiana com o sistema BRT. A primeira dama estava na comitiva.

Depois disso, Artur não colocou mais o pé em Manaus. E o sumiço de Artur começou a ser tratado como segredo e assunto indigesto nas esferas do poder. Questionado sobre o assunto pela coluna Sim&Não, o vice-prefeito Marcos Rotta (PMDB) desconversou: “Meu papel seria de um vice-prefeito atuante, participativo e presente. É exatamente isso que estou fazendo nesse momento, cumprindo minha função de substituí-lo”.

A Secretaria Municipal de Comunicação (Semcom) seguiu a mesma linha e adotou o silêncio como resposta às perguntas sobre o paradeiro de Artur.

Vai que é tua

Diante da ausência do prefeito, coube a Rotta a responsabilidade de assumir o desgaste público e político de anunciar, no dia 26, o reajuste da tarifa de ônibus, contrariando promessa dos dois na campanha. A passagem passou de R$ 3 para R$ 3,55, sendo R$ 3,30 pagos na catraca. Em coletiva a imprensa, Rotta deu sinais  de constrangimento ao ser questionado sobre o paradeiro de Artur. Indagado com a pergunta de um repórter, Rotta disparou: “O prefeito está na sua frente!”.

Rotta afirmou ainda que Artur dá ordens e passa orientações via WhatsApp. Apesar de administrar a capital via aplicativo, Artur evitou as redes sociais e não utilizou nem o seu perfil do Facebook ou do Instagram para escrever ao menos uma sílaba sobre o aumento da passagem.

O que se teve foi um prefeito bem diferente daquele de 27 de junho de 2016, quando, rodeado de assessores com câmeras ligadas entrou em ônibus na capital arrancando e rasgando os avisos de reajuste de tarifa e potencializando a ação nas redes sociais com a seguinte afirmativa: “A passagem não vai custar um centavo a mais que R$ 3”.

Críticas

O prefeito resolveu quebrar o jejum das redes sociais no dia 27 de janeiro, quando disparou contra o governador José Melo (Pros), numa tentativa de creditar ao governo parcela de responsabilidade pelo aumento da passagem. O novo valor - R$ 3,30 - começou a valer desde o dia 28.

“O governador José Melo acaba de atropelar todos os princípios da administração pública ao retirar os subsídios do ICMS incidentes sobre o óleo diesel e o IPVA das empresas de transporte coletivo”, avaliou nota da Prefeitura de Manaus, compartilhada pelo tucano.

Artur reapareceu, segundo parlamentares da base, na quinta-feira (2). Na sexta-feira se reuniu com o secretariado para “avaliar os primeiros 30 dias”.

“Passarei a controlar de perto o desempenho de cada pasta com reuniões segmentadas. Não vou tolerar atrasos, e tampouco falta de comprometimento”, disse Artur Neto em nota divulgada à imprensa.

Amanhã, Artur fará a leitura da Mensagem Governamental na Câmara Municipal de Manaus, o que marca a abertura dos trabalhos legislativos em 2017.

Citado na Lava Jato

Entre as delações de 77 executivos e ex-funcionários da empresa Odebrecht homologadas no dia 30 de janeiro pela presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, está a do ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht, Cláudio Melo Filho, que desnuda um esquema criminoso de compra de apoio político de parlamentares e partidos para a liberação de contratos e a aprovação de projetos do interesse da empreiteira, que movimentou mais de R$ 75 milhões em pagamento de propina.

Entre os delatados está o prefeito de Manaus, Artur Neto (PSDB), identificado como ‘Kimono’, que teria recebido R$ 300 mil sob a forma de caixa dois na campanha para o Senado em 2010.

 O tucano é faixa-vermelha de jiu-jitsu, a maior graduação da arte marcial.

Mudança nas redes sociais

Em junho, no Instagram, o prefeito desafiou o aumento. Em janeiro, confirma o reajuste. 

Frente a Frente

Vereador e líder do prefeito na CMM, Marcel Alexandre

 “O que é a Prefeitura? A Prefeitura tem vice. A cidade não ficou desassistida. O Artur viajou para Bogotá para estudar o BRT e tem a questão de saúde que ele estaria fazendo alguns exames, e no mais, torço para que ele tenha tirado uns dias de férias, porque os quatro anos foram intensos, a campanha foi pesada e ele é gente, então tomara que ele tenha tirado ao menos uma ‘semanazinha’. Teve o aumento da tarifa e essa do governador (José Melo). Ninguém esperava que ele, por conta de melindres políticos perdesse a sensibilidade com o povo, porque o que ele está fazendo não é simplesmente bater no prefeito Artur, ele está batendo no povo, é uma atitude criminosa. O prefeito Artur continua tendo uma boa imagem, administrou Manaus três anos sem dar aumento, agora no quarto ano com as avaliações não teve mais como segurar. Mesmo assim, ele fez um esforço absurdo para não ser algo tão prejudicial à população. Mas ele não contava com esse golpe do Melo. E quanto à ausência dele (Artur Neto) da cidade, o Marcos Rotta deu um show de bola”, disse o líder do prefeito na CMM, Marcel Alexandre (PMDB).

Vereador Chico Preto

“Em 30 dias como prefeito de Manaus, Artur Neto ainda não convenceu, nem mostrou a que veio. As propostas de campanha, até o momento, foram esquecidas no palanque e o que vemos é uma sucessão de atitudes erradas que só prejudicam a população: reajuste da tarifa de ônibus e uma inércia diante dos desastres provocados pelas chuvas. Artur jogou o ‘pepino’ para o seu vice responder a perguntas que só ele, com um mandato já de 4 anos nas costas, teria condições de responder. Talvez esteja por fora de tudo, já que há 15 dias não é encontrado em nossa cidade. O que Artur precisa entender é que ele não é um prefeito que herdou uma prefeitura agonizante, ele é o mesmo prefeito que continua a gerir a mesma cidade. Nosso prefeito precisa, com urgência, fazer uma reforma administrativa que contemple todos esses itens e estabeleça um marco legal para a fiscalização e o controle do transporte público. Não é hora de criar secretaria, e hora de priorizar o povo de nossa cidade, mas pra isso tem que tomar as rédeas da Prefeitura. Não é hora de sumir, é hora de mostrar serviço, de preferência, de qualidade”.

 

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