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Prejuízo: Avanço da cheia ajuda a proliferar doenças e perigos a moradores de Manaus

O lixo, as palafitas e os animais peçonhentos mostram uma realidade que, desde a enchente de 2009, tem se repetido e deixado os moradores em risco 07/06/2013 às 08:00
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No bairro Betânia, um problema de saúde pública que se agrava durante a cheia se torna evidente: a poluição dos igarapés e o risco de doenças de veículação hídrica
Jéssica Vasconcelos e Florêncio Mesquita ---

Moradora do bairro Betânia, na Zona Sul, um dos já ‘invadidos’ pela subida dos rios, Daniela Maia de Araújo, 33, é um exemplo dos riscos que sofre quem mora próximo aos igarapés, especialmente durante a cheia.

O diagnóstico de leptospirose, confirmado na quarta-feira pelos médicos do Hospital 28 de Agosto, é um reflexo do contato com a água contaminada pelo lixo que se acumula no igarapé do 40, uma rotina para quem reside em um ambiente cercado de perigos. “Fui atravessar alguns moradores numa canoa, toquei na água e acabei passando a mão no rosto. No dia seguinte acordei com o rosto vermelho e cheio de bolhas”, contou.

O lixo, as palafitas e os animais peçonhentos mostram uma realidade que, desde a enchente de 2009, tem se repetido e deixado os moradores dos becos do Aterro, São João e São Cristovão, no bairro Betânia, em risco. O maior perigo apontado por eles são as doenças causadas pela contaminação das águas e os animais peçonhentos que surgem. O industriário Rosinaldo Cruz,37, que mora há 35 anos no beco do Aterro, conta que todos os dias encontra aranhas, cobras e baratas no igarapé. “Já encontramos até jacaré”, disse Rosinaldo.

O bairro da Betânia é um dos 14 afetados pela cheia do rio Negro, que ontem atingiu a cota de 29,31 metros, a receber uma ação integrada entre a Defesa Civil, Secretaria Municipal de Limpeza e Serviços Público (Semulsp) e Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), que cadastrou 100 famílias em situação critica que devem ser retiradas do local e receberão auxílio aluguel de R$ 300 por dois meses.

Segundo a assessoria de comunicação da Superintendência de Habitação (Suhab), a previsão é que até o final de 2013 as casas sejam desapropriadas.

Cheia e doenças

A cheia que afeta o Amazonas nesta época do ano causa, além dos prejuízos materiais à população, exposição a doenças graves como febre tifóide, cólera, dengue, hepatites A e E e leptospirose, como aconteceu com Daniela Araújo, moradora da Betânia, alertam especialistas. Todas são doenças de veiculação hídrica, ou seja, que podem ser contraídas pela água.

Somente nos três primeiros meses deste ano foram registrados 124 casos de doenças relacionadas à cheia. Em 2009, foram 389 casos e, em 2012, ano da maior cheia em 110 anos, foram 355 casos em Manaus. Os homens são os principais afetados. Em cada três pessoas do sexo masculino com doenças provenientes da cheia, apenas uma mulher apresenta o mesmo problema, de acordo com dados da Fundação de Medicina Tropical (FMT).

Casos aumentam em junho

Segundo o infectologista Marcos Guerra, diretor de assistência médica da Fundação de Medicina Tropical (FMT), junho é, comprovadamente, o mês em que é registrado o maior número de casos de doenças relacionadas à subida dos rios, de acordo com levantamentos feitos pela FMT.

O contado com a água contaminada, fonte de transmissão das doenças, pode se dar tanto com os igarapés que inundam as casas, quanto por meio da que chega à torneira, pelo do encanamento, alerta o especialista. Na maioria dos casos, segundo ele, a tubulação de água fica submersa na área alagada, sendo comprometida por bactérias e coliformes fecais.

Guerra alerta que, além das doenças de veiculação hídrica, a cheia traz um risco alto de acidentes com animais peçonhentos, tais como cobras e escorpiões. Nessa lista também entram ratos e aranhas.

Casos de doenças diarréicas também são frequentes em função do contato com água contaminada. Eles correspondem pelo principal problema em áreas alagadas, na maioria dos bairros da cidade.

“Esse período é de alerta porque índices de doenças ligadas à cheia aumentam muito. Há o transbordamento dos esgotos, as casas são inundadas por água contaminadas e as pessoas podem contrair inúmeras doenças. É durante a cheia que as doenças se proliferam, e reduzem no período da descida do rio”, disse o médico infectologista.

Cal para descontaminar a água na rua dos Barés

No centro da cidade, a Defesa Civil realizou ontem a descontaminação das águas que invadiram a rua do Barés, em parceria com a Manaus Ambiental e a Secretaria Estadual de Infraestrutura (Seinfra), por meio da Unidade Gestora do Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim).

O objetivo da ação, que vai ser realizada a cada três dias, é descontaminar a água e eliminar o odor com produtos químicos. Na rua dos Barés foram despejados, por caminhões, mil litros de cal para diminuir o ph da água, matar as bactérias e eliminar o mau cheiro.

Para o comerciante Pedro Souza, que possui uma loja na rua atingida, esse trabalho contribui para que as pessoas não parem de caminhar por essas ruas e, assim, o comércio continue a funcionar. “Colocar esses produtos na água nos ajuda a trabalhar e ter clientes”, afirmou o comerciante.

De acordo com Altaci, com a subida do rio Negro, a água entra na tubulação do esgoto, provocando a contaminação.

Além da rua dos Barés, a Defesa Civil já constatou, na rua Lourenço da Silva Braga, em frente à feira da Manaus Moderna, outro ponto de alagamento que também vai receber as ações de descontaminação.

A Operação Enchente realizada pela Prefeitura de Manaus prevê, além da descontaminação das áreas afetadas, a construção de pontes nos lugares de risco.

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