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Manaus
engenharia das fugas

Presos usam técnicas sofisticadas para escavar túneis nos presídios de Manaus

Escavações de detentos para escapar de presídios de Manaus, neste ano, em sete túneis, somam100 metros 29/10/2016 às 05:00
Joana Queiroz Manaus (AM)

Presos do sistema penitenciário de Manaus cavaram aproximadamente 100 metros de vias subterrâneas que seriam usadas em fugas em massa, somente neste ano.  Foram sete túneis abertos por eles, dos quais, em apenas um obtiveram sucesso, quando 39 presos conseguiram escapar, na calada da noite de 2 de maio, do Centro de  Detenção Provisória (CDP).

Nos demais túneis, os agentes penitenciários chegaram antes e conseguiram frustrar o intento dos encarcerados. “Perdemos, perdemos, mas da próxima vez vai dar certo”, reagiu um dos presos do regime fechado Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj).

O que chama a atenção não é a persistência dos presos, uma vez que liberdade é sentimento inerente à condição do homem e um direito individual garantido na Constituição da Federal, mas a engenharia do crime. Os equipamentos usados para a escavação e a forma como se desfazem do barro que é retirado, sem chamar a atenção dos agentes penitenciários, impressionam.

Para  o coordenador do sistema prisional, Enderson Passos Navegante, que tem acompanhado diariamente a movimentação da massa carcerária, há uma aparente orientação de alguém com conhecimento de engenharia na abertura dos túneis. Conforme Navegante, os túneis são abertos, geralmente, de dentro das celas. Na maioria das vezes, debaixo das camas ou dentro do banheiro, de onde aproveitam a encanação hidráulica. Para fazer a escavação, os presos usam o que tem em mãos, como hastes de ferro (caneletas) que compõem a estrutura do prédio, pedaços de telha, hélice de ventiladores, baldes, entre outros materiais.

A medida que a escavação avança, a quantidade de barro retirado consequentemente aumenta. O barro é colocado em sacos feito com lençóis, toalhas, camisetas,  que depois são  costurados e colocados dentro do próprio túnel. Algumas vezes parte do barro é diluído no sanitário. “Eles colocam em locais de difícil visualização para dificultar o trabalho da fiscalização”, disse Navegante.

Segundo coordenador, dependendo do plano de fuga, a escavação de um túnel pode levar de dias até meses. As escavações são feitas sempre à noite ou pela parte do  dia quando a maioria dos presos está fora da cela. Os detentos trabalham em revezamento: enquanto uns dormem, outros estão cavando e, geralmente, o trabalho não pára.

Iluminação e ventilação

Os túneis possuem rede elétrica para a iluminação e o sistema de ventilação. A profundidade é suficiente para não ocorrer desabamento na hora da fuga. De acordo com Enderson Navegante, o terreno da área escavada é compacto, o que facilita a estabilidade das paredes dos túneis. “O que mais me chama atenção é o senso de direção que os detentos possuem quando fazem a escavação”, disse o coordenador.

No mês de junho, a direção da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) frustrou um plano de fuga no Compaj. Os presos usariam  um túnel de aproximadamente 18 metros, que foi aberto na cela 8, ala 1 do pavilhão 3. Foram apreendidss duas escadas de pau de escora e mais de 40 discos de máquinas de corte usadas na construção civil.

Em janeiro, um túnel de mais de 20 metros de extensão que seria utilizado por pelo menos 300 detentos do Compaj foi encontrado antes da fuga. O túnel estava sendo cavado em uma das celas do pavilhão 3 há pelo menos seis meses e seria uma “ordem” dos líderes da facção criminosa “Família do Norte” (FDN). O secretário da Seap, Pedro Florêncio, afirmou que, um  mês antes, o Departamento de Inteligência da pasta recebeu informações de que os internos estavam planejando a fuga e agiu para impedir.

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