Terça-feira, 20 de Agosto de 2019
Manaus

Profissionais que lidam com cadáveres revelam motivos de estarem ao lado da morte

Veja aqui histórias de quem lida com a morte diariamente no IML e nos cemitérios de Manaus



1.jpg Ulisses de Souza Xavier pediu para sair da área administrativa do cemitério Nossa Senhora Aparecida, no Tarumã, para se dedicar à função de agente de inumação, o conhecido ‘coveiro’
02/11/2014 às 11:55

Pedalando por 63 quadras do cemitério Nossa Senhora Aparecida (Tarumã), o agente de inumação, ou popularmente conhecido como “coveiro”, Ulisses de Souza Xavier, 45, leva suas ferramentas (pá, enxada e ferro de cova) para mais um dia de trabalho. Há dez anos, ele trocou o serviço de agente administrativo para trabalhar cavando, em média, dez covas por semana.

“Eu pedi para ser coveiro, trabalhar com os companheiros no sol, cavando, tirando defunto, colocando defunto, não fiquei surpreso porque eu já gostava”, declarou Ulisses, ao destacar que, apesar de lidar com a morte diariamente, o que mais lhe comove são os enterros de crianças. “A gente vê a mãe e o pai chorando... eu tenho filhos, cinco netos”, ressaltou.

De pai para filhos

Há 23 anos trabalhando no Instituto Médico Legal (IML) e tendo contato direto com os cadáveres, o técnico de necropsia Carlos Procópio Reis, 41, o “Cacá”, herdou o interesse em remover e mexer em cadáveres do pai, na época da polícia, em que trabalhava no IML, quando a necropsia era feita no cemitério São João Batista.


O tanatopraxista Cláudio Reis, o filho dele, Claudison, especialista em reconstrução facial e Marcelo Gomes
FOTO:EVANDRO SEIXAS

Além de Cacá, o irmão dele, Cláudio Procópio Reis, também é técnico em necropsia e atualmente tem uma clínica de tanatopraxia (técnica que permite a conservação do cadáver) e conservação do rosto. Uma irmã e dois primos dele também atuam na área.

Cacá afirma que o contato com os parentes do morto é sempre com ética e respeito, porque o trabalho que presta à sociedade não é só de remoção e auxílio aos peritos. “Tem sempre uma família que está sofrendo a perda do ente querido. Procuramos dar toda a atenção, como se fosse familiar nosso”, enfatizou.

O início da carreira dele foi apreensivo. Quando o legista saía da sala e Cacá ficava sozinho com três ou quatro cadáveres, batia uma aflição e qualquer barulho o assustava. No começo, ele tentava agir normal em casa, mas mesmo assim tinha pesadelos, sonhava com a sala de necropsia e acordava pensando que estava no IML. Passados 23 anos e depois de muitas remoções e reconstituições de corpos, ele se sente mais seguro.

Um dos momentos de maior tensão foi quando ele teve que auxiliar o legista na necropsia de quatro colegas em situações distintas, de acidente de trânsito a brigas. “Meus colegas de infância diziam: ‘Olha, tu tá trabalhando no IML. Vê se quando eu chegar lá não vai me cortar senão vou puxar teu pé’. Um belo dia um amigo meu estava lá. Morreu após uma briga no Educandos”, lembrou.

Conforto para todos que precisam

Um grupo de aproximadamente 150 voluntários espíritas participam de uma campanha com o objetivo de levar conforto aos familiares que perderam seus entes queridos. Chamada de “A Vida Continua”, a campanha é realizada em todo o Brasil pelos espíritas, neste domingo. Em Manaus, os voluntários visitam quatro cemitérios: Nossa Senhora Aparecida (Tarumã), São João Batista (Adrianópolis), Santa Helena (São Raimundo) e São Francisco (Morro da Liberdade) .

“Vamos levar mensagens de conforto e falar sobre a vida após a morte. O que move a gente não é convencer as pessoas ao espiritismo, mas é mostrar a ideia de que a alma é imortal. Queremos levar, também, o entendimento sobre a morte a partir da dor do ente querido, uma forma de ajudar”, explicou o coordenador da campanha, Marcelo Fernandes.

Em números

20.000 Cadáveres é o valor aproximado que o técnico de necropsia do IML, Carlos Procópio, o “Cacá”, teve contato nos últimos 23 anos de profissão. Até a última quarta-feira, 2.511 cadáveres deram entrada no IML neste ano, 90% deles passaram por Cacá.

Preparo

O atendente funeral Sorrelle Brito, 22, ressalta que, além de ter contato com cadáver na parte de ornamentação no caixão, também tem que passar segurança para a família do morto, pois ela chega abalada e ele tem que preparar toda a documentação para o enterro. “Quem trabalha aqui está preparado para qualquer tipo de situação”, disse.

Blog: Ulisses Xavier,  Agente de inumação,(coveiro)

“Apesar de eu não acreditar em assombrações, mesmo porque eu nunca vi, têm casos que aconteceram comigo, mas eu não liguei muito pra isso. Ouvia pessoas chamando o meu nome, assobiando, mas não sentia medo. Outra situação aconteceu com meu colega, e comigo também. A gente descia a ladeira para outra quadra de bicicleta e sentia um peso como se alguém tivesse sentado na garupa. Quando a gente chegava lá embaixo sentia outra sensação, como se alguém tivesse descido da bicicleta. Ao retornar era a mesma coisa. Mesmo assim eu não sentia medo, mas o meu colega nunca mais desceu depois das seis horas da noite. Eu costumo chegar no cemitério, às vezes, às 4h sem nenhum problema e graças a Deus nada aconteceu até hoje”.

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