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Manaus
NOVA CHANCE

Projeto capacita detentos do regime fechado de penitenciária em Manaus para o Enem

Projeto dá nova oportunidade para pessoas condenadas pela Justiça e pela sociedade, detentos do Compaj 27/10/2015 às 11:54 - Atualizado em 28/10/2015 às 17:05
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Presos do regime fechado estudam no Compaj (Euzivaldo Queiroz)
Anônimo redator

Nathália Andrade, Manaus (AM)

A luta para se reintegrar à sociedade com as mesmas oportunidades de quem não possui antecedentes criminais é um desafio nem sempre superado por ex-detentos.

Uma das principais dificuldades de quem volta ao convívio social e busca recomeçar é conseguir uma oportunidade no mercado de trabalho, já que a maioria das empresas fecha as portas para quem passou por uma unidade prisional.

Em Manaus, 40 internos do regime fechado do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), são beneficiados pelo Projeto Bambu, uma iniciativa que visa tornar bem-sucedido o processo de ressocialização, apostando na educação.

É na biblioteca do Compaj, localizado no quilômetro 8 da rodovia BR-174, que os detentos se preparam para as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), bem como do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja).

Dois professores e um monitor fazem o acompanhamento da turma que, pela primeira vez, vai fazer as provas após um período intenso de preparo e estudos.

“A disputa não é só entre eles, mas é principalmente com quem está do lado de fora e tem todas as ferramentas e auxílio à disposição. Ao perceber que eles não tinham estrutura nenhuma para enfrentar essas provas, conversamos com a gerência e surgiu a oportunidade de montar o projeto. Estamos na expectativa de que, ao tornar a disputa mais igual, o índice de aprovação entre a população carcerária aumente”, considerou o psicólogo Walter Sales, 41, que é coordenador pedagógico do Projeto Bambu, viabilizado por meio de uma parceria entre a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) e a Umanizzare Gestão Prisional Privada.

Preso por assalto, Marinaldo da Silva Moreira, 36, vê o sonho de estudar Direito mais perto de se tornar realidade ao participar do projeto.

“Quero muito poder me formar um dia, para ajudar quem não tem condições de pagar advogado. Lá fora eu não pensava em estudar, tinha más influências e nenhum incentivo. Aqui, estou agarrando a oportunidade de ganhar conhecimento. Ex-detento, mesmo quando cumpre a pena, é visto na sociedade como bandido. Acredito que o estudo é uma ferramenta para driblar esse pensamento e uma maneira de diminuir o preconceito”, frisou o detento, que conta os dias para deixar a penitenciária. “Saio no final desse mês, se Deus quiser”.

A pontuação dos detentos no Enem pode gerar um certificado de redução de pena de 1200 horas, equivalente a 50 dias. Os presidiários que estudam e trabalham nas unidades prisionais são garantidos pela Lei Federal 12.433 a terem sua pena reduzida.

Projeto continua em expansão

Inicialmente com 10 internos estudando para o Enem e outros 10 para o Encceja, o projeto  “Bambu” dobrou o número de beneficiados, contando com um total de 40 participantes. E os planos incluem ampliar ainda mais o alcance.

“Hoje são 20 para o Enem e 20 para o Encceja, com turmas no período da manhã e da tarde, dois professores voluntários e um monitor. Todos recebem apostilas com conteúdo atualizado. Devido a aceitação, estão sendo contratados dois estagiários, um da área de humanas e outro de exatas, para também dar suporte ao grupo. Estamos reformulando o projeto”, afirmou Walter Sales, que também atua como coordenador pedagógico do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pela aplicação do Enem.

Para Evandro Souza Medeiros, 42, condenado por homicídio e que se tornou professor do projeto, a iniciativa possibilita muito mais do que cursar uma faculdade.

“É preciso lutar por aquilo que se sonha. A oportunidade de ter um acompanhamento educacional é única, porque o processo é muito concorrido. Falo por experiência própria, pois já fui aprovado no Enem em 2011 e não é tarefa fácil”, alertou Evandro, que veio para o Amazonas transferido do Mato Grosso, em dezembro do ano passado.

Primeiro aprovado

Aos 33 anos, Edvaldo Barros Caetano, é visto como um exemplo a ser seguido pelos outros internos. Mas nem sempre foi assim. “Já tentei fugir três vezes. Em 2009, em uma dessas tentativas de fuga, fui baleado e fiquei no isolamento. Naquele momento decidi que não queria mais aquilo para mim. Resolvi mudar. Mergulhei nos estudos e me tornei o primeiro interno do Compaj a ser aprovado no Enem, em 2013”, relatou ele, que é monitor das turmas do Projeto Bambu, além de ser responsável pela biblioteca.

Em números

Foram 500 inscrições de detentos do Amazonas são esperados para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano.  A quantia é superior a 2014, que foram de 473 inscritos e de 2013 que somaram 340 detentos inscritos. No primeiro ano da participação de detentos do Amazonas no exame, 234 presos de inscreveram.

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