Quinta-feira, 26 de Novembro de 2020
EDUCAÇÃO INCLUSIVA

Projeto da Ufam leva aulas de português para crianças venezuelanas em Manaus

As crianças participam das aulas de forma virtual, com tablets e auxílio de monitores direto dos abrigos localizados no bairro Tarumã e no Centro de Manaus



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09/11/2020 às 11:56

A vida em um país novo completamente diferente de onde você nasceu, já na sua infância, não deve ser fácil para ninguém. Entre as maiores dificuldades, sem dúvidas a diferença na língua é a que causa mais empecilhos. Com o objetivo de amenizar essa realidade, o projeto “Língua, cultura e tecnologia na promoção da cidadania e no combate ao Covid-19” realiza atividades virtuais com aulas de Língua Portuguesa para inúmeras crianças e adolescentes venezuelanos em Manaus.

Desenvolvido pela Faculdade de Letras (Flet) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o projeto é coordenado pelos professores Cacio José Ferreira e Wagner Barros Teixeira, e acontece em parceria com a Secretaria Municipal de Educação (Semed), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Organização Não Governamental Aldeias Infantis.



Segundo Cácio Ferreira, nos últimos anos, a capital amazonense tem recebido um intenso fluxo de venezuelanos, muitos destes em situação de refúgio ou já como refugiados, dado ao contexto de crise sócio-político e econômico na Venezuela.

“Diante desse crescimento, foram implantadas salas de aula de transição em abrigos que acolhem esses imigrantes, com vistas a ir ao encontro de demandas dessa população em fase de adaptação escolar, a fim de poder ser acolhida, inserida e integrada às escolas públicas municipais em 2020”, comentou Ferreira.


Aulas acontecem em abrigos de Manaus no Centro e no bairro Tarumã. Foto: Arquivo Pessoal/Cacio Ferreira

De acordo com dados da Secretaria Municipal de Educação (Semed), em pouco mais de um semestre, o número de venezuelanos matriculados nas escolas da rede municipal manauara mais do que quadruplicou, passando de 469 em outubro de 2018 para 1886 em julho de 2019.

Em virtude a este contexto de desamparo, conforme Ferreira, nasceu a concepção do projeto em setembro deste ano.

“Em setembro, a Pró-Reitoria de Extensão da Ufam abriu o edital para projetos de extensão (Projeto Emergencial devido à Pandemia). Assim, o projeto em comento foi submetido e aprovado. Em parceria com a Unicef, Aldeias Infantis e Semed Manaus, começaram as discussões em relação à aplicação do projeto e temas. Dia 3/11 começou a aplicação do projeto via ‘Google Meet’. A ONG Aldeias Infantis levou internet e tablets para os abrigos. Assim, alunos bolsistas da Ufam e monitores dos abrigos junto com a tecnologia permitem a participação online de todos e a constante interação nas aulas”, destacou o professor.

Ainda conforme o coordenador, o projeto foi constituído para atender os abrigos. O único critério de seleção foi se o aluno tinha conhecimento de língua espanhola.

“A seleção levou em conta se o aluno poderia ler pelo menos em espanhol, pois há atividades após as aulas temáticas. Não são todos da mesma escola. Vivem nos abrigos no Centro de Manaus e no Tarumã. Muitos ainda não estão matriculados, mas é preciso a interação com o português. Nos abrigos, todos acompanham, com o auxílio dos monitores, tablets e internet, os temas. Opinam sobre as aulas, tentam dialogar em português com o auxílio do professor bolsista”, ressaltou.


Plataformas de videochamada também auxiliam no aprendizado. Foto: Arquivo Pessoal/Cacio Ferreira

Aulas temáticas

Apesar do foco principal ser o aprendizado à língua portuguesa, o projeto também busca fomentar no aluno, o pensamento crítico utilizando diversos temas como os cuidados do coronavírus.

“As aulas são preparadas de forma temática. Por exemplo: a primeira aula foi sobre os cuidados em relação ao Covid-19, a segunda sobre os esportes no Brasil e Venezuela, o terceiro sobre ritmos musicais. O tema ajuda no enfoque do português. A interação é muito boa e os alunos sempre querem mais. Sempre ao início de cada aula, há uma revisão da aula anterior e os alunos são capazes de falar sobre o dia anterior com bastante clareza”, contou o coordenador Ferreira.


Aulas não focam apenas no aprendizado da gramática. Foto: Arquivo Pessoal/Cacio Ferreira

Futuros projetos

O projeto de extensão se encerra no fim do mês de dezembro. Porém, segundo o professor Cacio Ferreira, a ação foi tão bem recebida pela população que as instituições parceiras darão continuidade ao projeto.

“Não é um projeto itinerante. Todo projeto de extensão tem uma data de início e fim. O projeto em destaque acabará em dezembro, mas foi tão bem recebido e abraçado que a UNICEF e as Aldeias Infantis continuarão com o projeto. Seguirão com os mesmos bolsistas e novos temas. A estrutura será a mesma. Seguirão por mais três meses. Mais uma vez, percebe-se a função da universidade de aproximar-se da comunidade”, detalhou o coordenador.

Além do ensino do português, Ferreira informou que a Ufam deseja realizar outros projetos com os abrigos venezuelanos.

“Esse é o primeiro projeto. A demanda já havia, mas só foi possível começar após a aprovação do projeto pela Pró-Reitoria de Extensão. O interesse é que outros projetos sejam aplicados. Talvez mude apenas a forma, passando a ser presencial quando a pandemia passar. A UFAM e a Faculdade de Letras veem a política linguística como essencial no universo plurilíngue do Amazonas –ainda mais no contexto de imigração nos últimos anos”, finalizou o professor.


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