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Prosamim: mudança na vida de pessoas é notada após programa

Apesar de ser taxado de ‘tragédia ambiental’, iniciativa chega ao 10° ano mudando a vida de quem morava nas palafitas na margem dos igarapés 17/11/2013 às 14:03
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Marlene Costa de Souza, com suas filhas, lembra o drama das alagações
MÔNICA PRESTES Manaus (AM)

Se do ponto de vista ambiental o Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim) é considerado uma “tragédia” por especialistas, pelo fato de não ter recuperado nenhum dos 150 igarapés da capital ao aterrar os cursos de água poluídos, do ponto de vista paisagístico e social as obras do programa, que completa dez anos, mudaram a vida de muita gente. E de boa parte delas para melhor.

Essa é a opinião de quem trocou o cenário de palafitas, lixo e tráfico de drogas por um aglomerado de apartamentos ou casas com quintais, calçadas e ruas, mesmo que nos bairros mais longínquos, isolados e desestruturados de Manaus,

Problemas à parte, quem morava às margens de um igarapé poluído, hoje, respira aliviado por não ter mais que se preocupar com o lixo acumulado sob as casas, tiroteios e as alagações, rotineiras nesta época do ano. Seja quem recebeu uma casa nos conjuntos construídos pelo Estado na Zona Norte ou aqueles que optaram pelos apartamentos erguidos sobre os mesmos igarapés poluídos, na Zona Sul, agora aterrados.

Ao todo, o Prosamim, que já custa mais de R$ 930 milhões aos cofres públicos, beneficiou mais de 63 mil pessoas desde 2006, com a entrega de 2.001 apartamentos nos parques do Prosamim na Zona Sul e mais de 1,5 mil casas em, pelo menos, sete conjuntos habitacionais.

Um desses apartamentos foi entregue à família do comerciante Joel Cardoso, 43, que morava em uma palafita às margens do igarapé de Manaus, na rua Major Gabriel, Centro. A casa de madeira, de dois cômodos, era quase do mesmo tamanho que a sala do apartamento onde ele vive hoje com a mulher e as duas filhas, no Parque Residencial Manaus, também no Centro.

Vida nova

E as mudanças, segundo ele, vão muito além do conforto do “novo” lar, que tem dois quartos, sala, cozinha, banheiro e duas áreas, que viraram um comércio e um depósito de mercadorias. “Quem já viveu em um igarapé sabe como é aquele fedor no almoço e na janta e o lixo e os bichos que a água traz. Sem falar no desespero das alagações, que alcançavam mais de meio metro dentro de casa. Quando começava a chover forte a gente já subia o assoalho e pedia a Deus, que era a única coisa que nos restava. Já perdi muita coisa para a água”, lembrou.

Vizinho dele, o feirante Carlos Nicácio, 31, também não tem saudades do tempo em que vivia às margens do igarapé do Mestre Chico, no Centro. Ele foi cadastrado pelo Prosamim e há seis anos trocou a palafita de um cômodo na beira do igarapé por um apartamento no Parque Residencial Manaus, bem pertinho de onde morava. “A vida lá não era boa, o igarapé fedia, a casa alagava, as crianças sofriam”, disse ele, que morou por 20 anos às margens do igarapé Mestre Chico.

Para eles, mais do que um teto - e um chão sem água pelos joelhos - a mudança trouxe dignidade.

Criminalidade obrigou mudança

Quem não quis esperar pela entrega dos apartamentos nos parques do Prosamim, que ficam mais perto dos locais de onde a maioria foi retirada, optou por uma casa nos conjuntos habitacionais construídos em bairros distantes do Centro e com infraestrutura precária.

É o caso da autônoma Marlene Costa de Souza, 34, que há três anos trocou a casa às margens do igarapé do 40, no Japiim, Zona Sul, por uma residência no conjunto habitacional Cidadão 12, no bairro Santa Etelvina, Zona Norte, onde mora com os quatro filhos.

Ela, que viveu nove anos na beira do igarapé conta que optou pela casa por pressa de sair do local, dominado pelo lixo e pelo tráfico. “Quando o igarapé alagava, tudo transbordava e o lixo batia na porta das casas. Além disso, as pessoas usavam drogas à luz do dia e os tiroteios eram frequentes. Tinha noite que a gente tinha que ficar deitado no chão. Não queria que meus filhos crescessem naquela realidade”, justificou.

Apesar do isolamento imposto aos moradores do Cidadão 12 pela carência de serviços públicos - de saúde e educação a lazer e transporte - ter custado o emprego em uma fábrica, ela não se arrepende da mudança. “Perdi o emprego porque o transporte é ruim e sempre chegava atrasada. Mas ganhei minha casa, um quintal, privacidade e a tranquilidade de ver meus filhos brincando na rua sem medo dos traficantes. A vida aqui é melhor, mas o isolamento é o preço que a gente paga por isso. Fomos esquecidos”, relatou.

A construção dos parques do Prosamim mudou o aspecto dos igarapés do Centro que agora, em parte dos casos, sequer podem ser vistos, pois estão debaixo da terra. Entre os conjuntos de apartamentos, pracinhas, playgrounds e quadras esportivas servem ao lazer dos moradores, mas em muitos deles a manutenção deixa a desejar, reclamam moradores.

Arrependimento

Mas nem todo mundo que trocou a vida nas palafitas está “feliz da vida”. Muita gente não se adaptou ao novo endereço e decidiu vender os imóveis, mesmo a prática sendo vetada nos primeiros dez anos de moradia. Um deles é o vendedor João Neto (nome fictício), 58, que não se acostumou à vida no conjunto João Paulo II, no bairro Santa Etelvina, Zona Norte, e decidiu voltar à Zona Sul, de onde saiu há mais de quatro anos.

“Nasci e cresci no Centro, não tem como me acostumar em um lugar que não tem nada, que parece ter sido esquecido pelo poder público”, justificou ele, que usou o dinheiro da venda do imóvel para comprar outra casa, bem menor, mas mais perto do Centro.

O mesmo aconteceu em parques do Prosamim na Zona Sul, onde moradores venderam ou alugaram os apartamentos. Seja para mudar para um lugar maior, fugir do caos do Centro ou aumentar a renda familiar, a prática se tornou comum. “O maior defeito do programa não é nenhuma dessas falhas técnicas, é a corrupção, que permitiu que pessoas que não precisam recebessem as casas para depois vender. Quem precisa mesmo não faz isso”, declarou um morador, que pediu para não ser identificado.

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