Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019
Superação no Educandos

Quadrilha junina que quase acabou por conta de incêndio renasce das cinzas

Agremiação cultural renomada perdeu 70% dos seus integrantes, que deixaram o bairro após ficarem desalojados



euziv2_2283CD90-FF93-4B2F-A3E8-EF6A0429C2F4.JPG Brincantes da Funk na Roça: ressurgindo em meio aos escombros. Foto: Euzivaldo Queiroz
22/06/2019 às 15:02

Algumas histórias de superação são forjadas a suor e fogo. É o caso da dança folclórica “Quadrilha Alternativa Funk na Roça”, existente há mais de 24 anos em Educandos, Zona Sul. Uma das mais tradicionais da cidade, ela passou por um drama por conta de 70% dos seus brincantes terem sido afetados diretamente pelo incêndio ocorrido em 18 de dezembro do ano passado, que desalojou várias famílias.

Abalados psicologicamente e alguns saindo apenas com a roupa do corpo, vários brincantes deixaram Educandos para morar em outros bairros e recomeçar a vida com suas famílias. Um duro baque para a brincadeira, que virou projeto e que ajudou cerca de cinco mil jovens da “Cidade Alta”, como é chamado Educandos.



“Nossa dança já existe já 24 anos e é uma das mais conceituadas do folclore amazonense, mas 70% dos nossos brincantes moravam no famoso ‘Bodozal’ de Educandos, onde aconteceu o incêndio em dezembro do ano passado. A dificuldade maior foi porque quase a dança não iria se apresentar esse ano. Nós nos concentrávamos lá embaixo no Bodozal, que tinha vida, os ensaios debaixo das palafitas e no barro duro, os b-boys do bairro.  As dificuldades eram muitas, mas a alegria era superior a tudo isso.

perdemos tudo: a dignidade, a autoestima, os valores. É o que eles tinham, além de estudantes e grandes profissionais que são. E, tirando a parte ruim que havia, a parte boa era a Funk na Roça”, conta o coreógrafo e operador de áudio Michael Costa, 48, proprietário da Funk na Roça, associação folclórica que possui 19 títulos do Festival Folclórico do Amazonas e que está na categoria Ouro, considerada o maior patamar.

Reestruturar a dança foi a pior parte, diz ele. Após a dispersão, alguns brincantes conversaram com Michael para retornar. Além disso, mais jovens foram recrutados de bairros como Colônia Antônio Aleixo e Águas Claras, entre outros. “As consequências não atingiram apenas a dança, mas toda a comunidade e o bairro. Muitos saíram só com a roupa do corpo. A dificuldade maior foi reestruturar novamente a Funk na Roça, pois quando olhávamos para a área atingida nós nos entristecíamos novamente”, afirma Michael.

Apostando na ressurreição, a dança traz para este ano o tema “Educandos, Nossa História não Acaba em Cinzas”, contando a história da vida no Bodozal de Educandos desde a época das cacimbas, passando pelos Soldados da Borracha, o folclore do bairro até chegar aos dias atuais com a Funk na Roça. “Trazemos em nossas camisas deste ano a Fênix, que simboliza o pássaro de fogo que ressurge das cinzas. Representamos uma nova vida, a vitória, um novo momento. A Funk na Roça se renovou”, frisa Michael Costa, emocionado.

Brincante há 19 anos, a operadora de caixa Adriana Nogueira, 33, morava na área atingida e foi uma das prejudicadas. Ela teve que ir morar no bairro de São Francisco, mas sempre está em Educandos por conta da mãe e da Funk na Roça. “Gosto da dança e sem ela eu não sei viver”, comenta.

Outro sobrevivente é o barbeiro Jobert da Silva Lobato, 26, conhecido como “B-Boy Jobinha”, foi um dos brincantes atingidos no sinistro que perderam tudo para o fogo. Também na base do recomeço, ele ressalta o apoio da diretoria da dança e o amor pela Funk na Roça. “Foi muito difícil para nós recomeçarmos após tudo que aconteceu. Perdemos tudo, saímos com a roupa do corpo, mas tivemos ajuda da dança por meio do Michael, que nos deu alimentos e roupas, além da força de familiares e amigos do bairro”, conta ele, que morava com a esposa e mais duas filhas de 11 meses e 4 anos de idade. Hoje, ele e a família recomeçam a vida na casa do pai, na rua Manoel Urbano, no próprio bairro. “A dança é tudo pra mim”, reforça o brincante.

Da década de 1990

Ex-brincantes como a dona de casa Ingrid Aparecida lamentam e comemoram duplamente em relação à Funk na Roça. Ela se apresentou em 1998 ainda quando o Festival Folclórico era realizado no antigo e famoso tabladão da “Bola da Suframa”, o apelido dado à Praça Francisco Pereira da Silva. Nesta temporada, ela iria se apresentar novamente desta vez junto com seu filho Anderson, de 14 anos, que iria estrear na Funk. No entanto, a família, no total de 10 pessoas,  teve a casa atingida pelo incêndio, perderam tudo o que tinham e, ao final das contas, tiveram que adiar a participação.

“Nós perdemos tudo no incêndio. Antes nós não pagávamos aluguel. Hoje, pago R$ 600 para morar numa casa lá na rua Nova, aqui em Educandos”, lamenta ela. Por outro lado, a dona de casa frisa a garra dos brincantes em não deixar a dança morrer. “A Funk na Roça não é nem nota 10 ou 100, mas sim nota 1000. Sempre foi lá pra cima mesmo com problemas como esse, e estando ao lado de pessoas como nós. Não é à toa que é falada em todo Estado”, comenta educandense.
 

Repórter de A Crítica

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