Publicidade
Manaus
PROJETO

Questão do Enem cita dissertação de professor do AM sobre gírias LGBTs

Professor que atua em curso preparatório de Manaus apresentou dissertação de mestrado em 2017 sobre o "Pajubá" por meio de Programa de Pós-Graduação da UEA 05/11/2018 às 16:19 - Atualizado em 05/11/2018 às 18:08
Show 45424880 2234299293299984 4167159931243331584 o 0ada9fdc 49c3 4da1 8e60 2b42c9aacf04
Foto: Reprodução
Oswaldo Neto Manaus (AM)

O professor amazonense Renato Régis Barroso apresentou uma questão baseada em sua dissertação de mestrado sobre o “Pajubá” de forma desprentesiosa para seus alunos em um curso preparatório de Manaus. Os famosos “viradões” mobilizam centenas de pessoas que desejam pegar as últimas dicas para realizar o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), que teve a primeira parte aplicada nesse domingo (4) em todo o País. Entretanto, nem Régis ou os alunos imaginavam é que o assunto seria de fato citado na prova. “Foi uma honra muito grande”, disse ele.

O assunto ganhou repercussão nas redes sociais após ser divulgado pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA) que a pesquisa “Pajubá: O Código Linguístico da Comunidade LGBT” foi executada por Régis enquanto mestrando da instituição. Nela, Régis analisa os termos e expressões comumente usados neste grupo, bem como a origem dessas gírias e os impactos dentro dessa minoria.

Professor de curso preparatório formulou questão sobre o Pajubá sem imaginar que seria questão de prova no Enem (Foto: Reprodução/Facebook)

Segundo ele, o projeto começou a ser pensado em 2011, porém foi necessário um tempo maior de pesquisa devido à carência de material teórico.

“Ainda não tinha muito referencial. Eu pensava em como materializar isso tudo se não tinha suficiente. Havia algumas dissertações falando de código lingüístico, mas não era o que eu procurava ainda. As coisas ganharam forma quando busquei entrevistas com algumas figuras conhecidas de Manaus como a Brenda Lamask, Andréa Brasil e outras pra compor esse universo de pesquisa. Também tive outros nomes que me ajudaram como Vitor Ângelo, que escreveu o dicionário ‘Aurélia’, o Peter Fry que já tratava sobre a homossexualidade nos grupos afrobrasileiros e a Margarida Petter com a introdução à linguística africana. Bebi em várias fontes da antropologia, psicologia e sociologia”, contou.

O projeto foi apresentado no final do ano passado com o aval da Programa de Pós-Graduação em Letras e Artes da UEA (PPGLA/UEA) e, segundo Régis, um livro deve ser lançado em 2019. A dissertação já serve de parâmetro para outros trabalhos dentro da universidade. “É uma dissertação que acabou virando uma tese. Fiquei muito feliz com o resultado”, disse.

Pajubá

Você já deve ter ouvido ou lido por aí as palavras “tombar”, “gongar” e “acué”, não é mesmo? Engana-se quem pensa que tais termos nasceram entre um grupo fechado de LGBTs ou nas redes sociais.

Régis provoca em sua dissertação as origens do Pajubá e sua mistura entre o povo africano e os LGBTs. “A partir da década de 80 que travestis começaram a fazer o uso das expressões. Eles fazem essa linha de frente. Muito se deve à religião afro-brasileira, à umbanda, que consegue acolher a comunidade LGBT. Daí nasce e se espalha esse tipo de gíria, chegando até mesmo a quem não faz parte do meio”, disse ele.

A popularização das gírias, principalmente por meio de personagens de TV, transforma as palavras em um símbolo da comunidade. Para ele, a questão no Enem mostra uma mudança de postura da prova. “Eu parabenizei o Inep por isso. Acho que a gente está começando a sair da nossa gaiola epistemológica. A prova mostra para a sociedade o linguajar das tribos urbanas. Não entendi como afronta, mas sim ousadia, e principalmente dando visibilidade para comunidades marginalizadas”, declarou.

Ele afirma que o avanço deve continuar incomodando grupos intolerantes. “Se nós estamos incomodando é sinal que estamos indo pelo caminho certo. Se incomoda é porque está mexendo com pessoas”, afirma ele.

Publicidade
Publicidade