Domingo, 08 de Dezembro de 2019
PROJETO

Questão do Enem cita dissertação de professor do AM sobre gírias LGBTs

Professor que atua em curso preparatório de Manaus apresentou dissertação de mestrado em 2017 sobre o "Pajubá" por meio de Programa de Pós-Graduação da UEA



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05/11/2018 às 16:19

O professor amazonense Renato Régis Barroso apresentou uma questão baseada em sua dissertação de mestrado sobre o “Pajubá” de forma desprentesiosa para seus alunos em um curso preparatório de Manaus. Os famosos “viradões” mobilizam centenas de pessoas que desejam pegar as últimas dicas para realizar o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), que teve a primeira parte aplicada nesse domingo (4) em todo o País. Entretanto, nem Régis ou os alunos imaginavam é que o assunto seria de fato citado na prova. “Foi uma honra muito grande”, disse ele.

O assunto ganhou repercussão nas redes sociais após ser divulgado pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA) que a pesquisa “Pajubá: O Código Linguístico da Comunidade LGBT” foi executada por Régis enquanto mestrando da instituição. Nela, Régis analisa os termos e expressões comumente usados neste grupo, bem como a origem dessas gírias e os impactos dentro dessa minoria.



Professor de curso preparatório formulou questão sobre o Pajubá sem imaginar que seria questão de prova no Enem (Foto: Reprodução/Facebook)

Segundo ele, o projeto começou a ser pensado em 2011, porém foi necessário um tempo maior de pesquisa devido à carência de material teórico.

“Ainda não tinha muito referencial. Eu pensava em como materializar isso tudo se não tinha suficiente. Havia algumas dissertações falando de código lingüístico, mas não era o que eu procurava ainda. As coisas ganharam forma quando busquei entrevistas com algumas figuras conhecidas de Manaus como a Brenda Lamask, Andréa Brasil e outras pra compor esse universo de pesquisa. Também tive outros nomes que me ajudaram como Vitor Ângelo, que escreveu o dicionário ‘Aurélia’, o Peter Fry que já tratava sobre a homossexualidade nos grupos afrobrasileiros e a Margarida Petter com a introdução à linguística africana. Bebi em várias fontes da antropologia, psicologia e sociologia”, contou.

O projeto foi apresentado no final do ano passado com o aval da Programa de Pós-Graduação em Letras e Artes da UEA (PPGLA/UEA) e, segundo Régis, um livro deve ser lançado em 2019. A dissertação já serve de parâmetro para outros trabalhos dentro da universidade. “É uma dissertação que acabou virando uma tese. Fiquei muito feliz com o resultado”, disse.

Pajubá

Você já deve ter ouvido ou lido por aí as palavras “tombar”, “gongar” e “acué”, não é mesmo? Engana-se quem pensa que tais termos nasceram entre um grupo fechado de LGBTs ou nas redes sociais.

Régis provoca em sua dissertação as origens do Pajubá e sua mistura entre o povo africano e os LGBTs. “A partir da década de 80 que travestis começaram a fazer o uso das expressões. Eles fazem essa linha de frente. Muito se deve à religião afro-brasileira, à umbanda, que consegue acolher a comunidade LGBT. Daí nasce e se espalha esse tipo de gíria, chegando até mesmo a quem não faz parte do meio”, disse ele.

A popularização das gírias, principalmente por meio de personagens de TV, transforma as palavras em um símbolo da comunidade. Para ele, a questão no Enem mostra uma mudança de postura da prova. “Eu parabenizei o Inep por isso. Acho que a gente está começando a sair da nossa gaiola epistemológica. A prova mostra para a sociedade o linguajar das tribos urbanas. Não entendi como afronta, mas sim ousadia, e principalmente dando visibilidade para comunidades marginalizadas”, declarou.

Ele afirma que o avanço deve continuar incomodando grupos intolerantes. “Se nós estamos incomodando é sinal que estamos indo pelo caminho certo. Se incomoda é porque está mexendo com pessoas”, afirma ele.


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