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Manaus
Consciência Negra

Quilombolas da Praça 14 celebraram identidade negra e pedem mais respeito

O presidente da Associação do Movimento Orgulho Negro do Amazonas (Amonam), Cassius Fonseca, lembrou que muitos dizem que no Estado não tem negro, o que não é verdade, pois 4% da população local se autodeclara preta 20/11/2016 às 18:56 - Atualizado em 20/11/2016 às 18:57
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Quilombo do Barranco de São Benedito, no bairro Praça 14, é considerado o segundo maior quilombo urbano do Brasil. Foto: Antônio Menezes
Silane Souza Manaus

Eles representam mais da metade da população brasileira (53,6%), porém, ainda padecem muito para serem inseridos na sociedade. Estamos falando dos negros que, cotidianamente, são vítimas de racismo, desigualdade social, entre outros tipos de preconceitos que por mais que sejam constantemente combatidos ainda são bastante evidentes no nosso País. É o que foi observado ontem, data em que se comemora o Dia da Consciência Negra.

O presidente da Associação do Movimento Orgulho Negro do Amazonas (Amonam), Cassius Fonseca, lembrou que muitos dizem que no Estado não tem negro, o que não é verdade, pois 4% da população local se autodeclara preta. O problema é que esta população não é reconhecida. “Ninguém vê o nosso valor, a nossa importância. Temos o segundo quilombo urbano do Brasil – Quilombo do Barranco de São Benedito –, mas não há reconhecimento dessa certificação que nos foi dada”.

Além disso, ele destaca que as culturas de matriz africana também não têm seu valor reconhecido. Para ele, é necessário aliar políticas públicas efetivas de preservação da cultura e da memória das comunidades negras, senão, elas podem desaparecer. “A cultura hoje na nossa região está agonizando. Dependemos da Lei de Incentivo Municipal de Cultura para manter nossa cultura viva, mas ela está engavetada há quatro anos esperando a assinatura do Prefeito de Manaus, Arthur Neto”.

“De pele branca, mas alma negra” é como se define a aposentada Zildene Akel, 63, cuja família é toda descendente de brancos espanhóis e portugueses. Mesmo não tendo a cor preta, ela garante que 100% do seu coração é afro. “Eu sou louca em vida pela África. Eu não sabia por que era louca pela África, mas descobri que na minha encarnação passada nasci no Sul da África. Agora, nesta encarnação, vim resgatar minha origem do passado”, revelou.

Zildene contou que tem um Terreiro de Umbanda. Ela disse que se encantou pela região ainda nova. “Minha família era muito religiosa, cheguei a estudar para ser freira, mas por falta de dinheiro meu pai me tirou do convento. Aos 16 anos, vivia doente e meu pai me levou a um Santo e não sai mais de lá. Eu me achei. Hoje, vejo que a população negra ainda sofre muito preconceito. As pessoas têm que entender que negro é gente, é humano, cor de pele não vale nada”, afirmou.

Jamyle Souza, uma das líderes do Quilombo do Barranco de São Benedito, enfatizou a importância do Dia da Consciência Negra. Conforme ela, a data serve para conscientizar e refletir sobre a cultura e o povo africano que muito contribuiu com o desenvolvimento do Brasil.

Música, capoeira, samba e celebração
Para comemorar o Dia da Consciência Negra, o Quilombo do Barranco de São Benedito, localizado na rua Japurá, bairro Praça 14 de Janeiro, na Zona Sul, promoveu uma grande festa no local. O evento gratuito começou às 10h, com roda de capoeira, e foi até as 22h, com apresentação de diversos grupos de pagode, samba, maracatu, baterias de escolas de samba, entre outros, além de muita comida tradicional.

O vilarejo, que abriga 25 famílias descendentes de quilombolas, existe há 126 anos e foi o segundo quilombo urbano do Brasil a receber a certidão de autodefinição fornecida pela Fundação Cultura Palmares. Ano passado, o local se tornou Patrimônio Cultural Imaterial do Amazonas. São Benedito, protetor dos negros, é visto como um dos elementos responsáveis pela preservação da tradição dos fundadores da comunidade.

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