Sábado, 30 de Maio de 2020
NOVA MORADA

Recomeço: famílias retiradas de invasão falam sobre vida após Monte Horebe

Alguns em casas de familiares, outros em quitinetes ou casas alugadas, eles agora iniciam uma nova etapa da vida, vivendo um dia de cada vez e sonham com uma moradia própria no futuro



capa_4C5400E1-D771-4AF1-8366-E6531F60BE7B.JPG Foto: Aguilar Abecassis
16/03/2020 às 07:28

Esperança, fé e recomeço. É isso que muitos moradores que saíram do Monte Horebe, Zona Norte de Manaus, têm vivido nos últimos dias, desde que saíram da ocupação irregular. Alguns em casas de familiares, outros em quitinetes ou casas alugadas, eles agora iniciam uma nova etapa da vida, vivendo um dia de cada vez e sonham com uma moradia própria no futuro.

Sonho da maioria dos brasileiros, ter uma casa própria foi o que motivou as pessoas a viver no Monte Horebe mesmo a invasão não tendo infraestrutura adequada e ser considerado a uma área de risco. Segundo o Governo do Amazonas, mais de duas mil famílias moravam no local antes da reintegração. O Estado está dando um auxílio aluguel para essas famílias e prometeu dar uma solução de moradia definitiva para elas.



A família do Simão era uma delas. Eles moravam em uma pequena residência de alvenaria que foi derrubada por trator durante a reintegração de posse. A família morou por aproximadamente cinco anos na invasão. Os três primeiros meses foram os mais difíceis, quando eles tiveram que viver em um barraco feito de TNT, até conseguirem levantar a casa de tijolos.

Agora, longe do monte, a família faz planos para o futuro. Com os R$ 600 do aluguel social pago pelo governo, eles conseguiram alugar uma casa no conjunto João Paulo 2, que também fica na Zona Norte da capital.

“A gente procurou um local que fosse mais amplo que um quitinete e desse para a gente ficar com as crianças e os cachorros que trouxemos junto. Têm muitos lugares que não aceitavam os animais e eles eram pequenos para ficar a gente e as crianças. Então, após muita procura, achamos esse lugar aqui e esperamos que em breve a gente possa ter um lugar nosso mesmo”, conta Simão Lopes, 41.

Além do choque por ter que deixar o lugar por onde viveu meia década, Simão hoje está desempregado porque o seu chefe não aceitou que ele faltasse no trabalho para arrumar as coisas e fazer a mudança da invasão.

Simão é casado com a dona de casa Andrea Lacerda, 37; eles são pais de cinco crianças, que têm entre 13 e quatro anos de idade.  Os filhos do casal ainda estão sem ir para a escola por conta da nova rotina. Antes, dois deles estudavam em uma escola no conjunto Viver Melhor, que fica no limite do Monte Horebe, e devem voltar para à sala de aula em breve, assim como as demais crianças, que iriam começas a estudar no próximo dia 18, após a inauguração de uma escola municipal no residencial.

“A gente vai precisar buscar uma escola aqui por perto de onde a gente está, para eles voltarem a estudar”, diz Andrea.

“Lá no Monte Horebe era tranquilo para morar. Eu tinha um brechó lá e trabalhava com artesanato também. Tenho esperança de conseguir uma casa própria no futuro e poder recomeçar tudo de novo. Recomeçar”, afirma a mulher.

Para Simão, o valor do aluguel social vai ajudar por um tempo, mas ele diz que não tem como confiar apenas nisso e por isso ele já está em busca de um emprego. “A gente espera que tudo aconteça como foi falado. Não podemos só ficar esperando o aluguel e a casa. A gente vai em busca de outro emprego, conseguir uma renda para manter a vida, as contas em dia e o alimento da família. Para mim, foi difícil sair de lá porque não tínhamos  que pagar aluguel. Hoje temos essa preocupação, mas temos que ter esperança que tudo vai melhorar”, afirma.

‘Fui para  construir coisas boas’

A autônoma Leila Moreira, 46, também ex-moradora do Monte Horebe, tem dividido o espaço com o casal na casa alugada até que ela encontre um local. Ela conheceu a família durante o processo de desocupação, quando dividiram a mesma aflição. “A gente se ajudou”, diz Leila.


Leila Moreira foi acolhida por Andrea e Simão; ela também teve a casa demolida

“Estou aqui com eles até encontrar um local para alugar também. Eu morava sozinha lá [no Monte Horebe] fazia um ano e meio. Eu fui para lá com intenção de construir coisas boas. Minha casa era toda de alvenaria, era pequena e tudo foi por água abaixo. Minhas coisas quebraram na mudança devido à situação, mas conseguir tirar. Eu gostava de lá, mas tenho esperança que tudo vai melhorar. Eu acho que a esperança é a ultima que morre e creio que Deus vai ajudar, vai trabalhar para a gente ter tudo de volta”, disse ela, emocionada.

Mais de duas mil famílias saíram

A desocupação no Monte Horebe iniciou no dia 2 deste mês e encerrou na última sexta-feira. Mais de duas mil famílias saíram do local, segundo informações do Governo do Estado. As famílias foram cadastradas para receber o aluguel social, no valor de R$ 600, e começaram a receber o pagamento no início da semana passada.

A reintegração de posse contou com ações de todos os órgãos do Estado. Futuramente, no local deve ser construída uma escola de tempo integraL, com obras previstas para iniciar no próximo mês e um complexo de segurança pública, com projeto ainda em andamento, que inclui, entre outras coisas, um Distrito Integrado de Polícia e um batalhão policial. A área que não for utilizada pelo Estado na construção dessas obras será reflorestada, segundo informou o governo.

De acordo com a Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM), que mediou um acordo homologado pela Justiça   para a retirada das famílias, um levantamento realizado pela força-tarefa do Estado apontou que mais de dois mil imóveis possuíam famílias. Essas famílias, em cumprimento ao acordo individual firmado com 2.204 moradores, serão acompanhadas pelo órgão  e contempladas com o auxílio aluguel até que seja definida uma solução de moradia adequada e em definitivo.


Foto: Euzivaldo Queiroz

As ações no local foram utilizadas como forma de conter o crime organizado, que, segundo o governador Wilson Lima, usavam o Monte Horebe como fonte de renda para o tráfico de drogas. “O Monte Horebe havia se tornado uma fonte de renda para o tráfico de drogas e o Governo do Estado entrou e acabou com essa história. Os lideres da invasão identificados também vão responder pelo crime ambiental”, afirmou, durante coletiva de imprensa feita no início da semana passada.

No decorrer da semana, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) fez uma visita técnica no local para levantar os impactos ambientais na região. A intenção era identificar a área total afetada e avaliar a quantidade de resíduos sólidos deixados no local após a desocupação. As informações vão ajudar nas ações de recuperação ambiental do espaço. A área onde está localizada a ocupação Monte Horebe fica a cerca de 260 metros em linha reta da Área de Proteção Ambiental (APA) Adolpho Ducke.

O último levantamento o órgão, feito em 2019, mostrou que em setembro a área total do Monte Horebe ocupava cerca de 140 hectares, o equivalente a 200 campos de futebol.

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Repórter de Cidades
Formada em 2010 pela Uninorte, é pós-graduada em Assessoria de Imprensa e Mídias Digitais pela Faculdade Boas Novas. Repórter de Cidades em A Crítica desde 2018.

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