Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2019
EM DEBATE

Religiosos e ambientalistas refletem sobre o que é o "Pecado Ecológico"

Violação do preceito religioso é uma mudança na Igreja Católica que foi discutida durante o Sínodo Pan-Amazônico realizado em Roma e que está nas mãos do papa Francisco



papafrancisco1_1DA3C62B-9AB8-4FDE-87B1-8A37A8B66DBA.JPG “O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazônia, não é o do Evangelho", disse o papa Francisco/Foto: Juanca Guzman Negrini/Fotospublicas.com
02/11/2019 às 19:13

Para os cristãos, segundo as escrituras da Bíblia Sagrada, em Gênesis, Deus criou primeiro a natureza e depois o ser humano, Adão e Eva, para procriarem e habitarem o solo do planeta Terra. E depois o homem colocou tudo a perder degradando, desmatando e literalmente matando a vida verde.

O problema ambiental levou a Igreja Católica a discutir a questão da instituição do “pecado ecológico” onde o desrespeito à natureza deve ser visto como pecado por ser “afronta a Deus e uma agressão à sua criação”, durante o Sínodo dos Bispos para a Região Pan Amazônica realizado de 6 a 27 de outubro em Roma. A ideia não vem de agora: em 2015, o próprio papa Francisco publicou a encíclica Laudato Si’, na qual criticava o consumismo e o desenvolvimento irresponsável e fazia um apelo à mudança e à unificação global para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas.



As mudanças estão nas mãos do papa e há possibilidade que ele a publique, em forma de exortação apostólica pós-sinodal, até o final do ano. Enquanto isso, geou-se um interessante debate sobre o assunto entre religiosos e ambientalistas.

O padre jesuíta Paulo Tadeu Barausse, religioso formado em Filosofia e Teologia e coordenador do Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (SARES), que esteve em Roma para eventos complementares do Sínodo, lembra da escritura contida em Gênesis 1:28, na qual “E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra”.


O padre jesuíta Paulo Tadeu Barausse, que esteve no Sínodo Pan-Amazônico no mês passado / Foto: Divulgação

“Sobre a interpretação do ‘crescei e multiplicai-vos’, infelizmente, ao longo da história, predominou na cultura Ocidental o dominai”, disse o religioso, que falou sobre a importância do Sínodo.
“O que o Laudato Si’ fala é que está muito ligado o ‘grito da Terra’ com o ‘grito dos pobres’. A lição e aprendizado que nós tivemos no Sínodo é que ele marcou a Igreja universal e outras que vão olhar com bons olhos essa questão do pecado ecológico e para mudar o estilo de vida. O que vamos deixar para as futuras gerações”.

Também presente no Sínodo, o diácono Francisco Pontes, Presidente da Comissão Nacional dos Diáconos do Brasil, explica que o processo de escuta às comunidades que norteou a dinâmica e o método de elaboração do Sínodo para a Amazônia, coloca na ordem do dia aquilo que as comunidades já vinham percebendo e apontando como pecado ecológico.


O diácono Francisco Pontes e o papa Francisco, durante o Sínodo / Foto: Divulgação

“Estamos falando da grande obra de Deus, o cuidado e o zelo de forma consciente, responsável pela Casa Comum. Quando transgredimos, nos omitimos diante das ameaças ao próximo, às comunidades, do meio ambiente, os povos originários, dos mais vulneráveis, dos projetos e ações predatórias que visam apenas o lucro de poucos. Quando isso acontece, quando não promovemos uma Ecologia Integral, estamos diante de cometer pecado contra a criação. É um pecado que vai de encontro às gerações futuras. É dever de todos, indistintamente, batizados ou não, o cuidado com o meio ambiente”, salienta o religioso.

Mais assuntos

O Sínodo também tratou de outros dois assuntos que interessam e muito a região amazônica e que geram polêmica: a ordenação de homens casados para regiões remotas da Amazônia e o diaconato para mulheres.

Frase

"A lição e aprendizado que nós tivemos no Sínodo é que ele marcou a igreja universal e outras que vão olhar com bons olhos essa questão do pecado ecológico e para mudar o estilo de vida”

Padre Paulo Tadeu Barausse

Ambientalistas falam da relevância

Ambientalistas   ouvidos por A CRÍTICA falaram positivamente sobre a reflexão que a temática do “pecado ecológico” traz. 

“Entendemos que o conceito de ‘Pecado Ecológico’ é uma decorrência natural do processo de reflexão dentro da Igreja Católica que já havia culminado com a encíclica Laudato Si’, sobre o meio ambiente. É extremamente interessante ver como a questão ambiental interliga um conceito estrutural da religião – o respeito à criação divina – à ciência e à sobrevivência das espécies, incluindo a humana.  Ao trazer responsabilização para um tema tão sensível como a preservação do meio ambiente, a Igreja abre o caminho para a reflexão e a avaliação dentro do sistema de crença do povo católico”, comentou Gabriela Yamaguchi, diretora de Sociedade Engajada do WWF-Brasil.

Já para a gestora ambiental Rita Taniguchi, “é preciso que nós cristãos chamemos para nossa responsabilidade as questões ambientais”. Segundo ela, “o que é chamado de pecado ecológico ou ambiental são características de vários fatores que envolvem o social. E porque não assumir o papel de defensores da natureza?”.

Três perguntas para Gabriela Yamaguchi, diretora de Sociedade Engajada do WWF-Brasil

1 - Qual o opinião da WWF-Brasil sobre o "Pecado Ecológico"?

Entendemos que o conceito de “Pecado Ecológico” é uma decorrência natural do processo de reflexão dentro da Igreja Católica que já havia culminado com a encíclica Laudato Si, sobre o meio ambiente. É extremamente interessante ver como a questão ambiental interliga um conceito estrutural da religião – o respeito à criação divina – à ciência e à sobrevivência das espécies, incluindo a humana.  Ao trazer responsabilização para um tema tão sensível como a preservação do meio ambiente, a Igreja abre o caminho para a reflexão e a avaliação dentro do sistema de crença do povo católico.

2 - A discussão é oportuna principalmente tendo em vista a situação de desmatamento na Amazônia?

Sem dúvida, a discussão é oportuna, pois o bioma é um dos que mais sofrem com ações predatórias e ilegais. Para termos ideia do tamanho da destruição, basta lembrar que o ano de 2019 já é o pior desde 2016 na comparação da área com alertas de desmatamento na Amazônia. Nos primeiros nove meses deste ano, a área com alertas de desmatamento praticamente dobrou em relação ao ano passado, chegando a 7.853,91 km². Em comparação com o mesmo período de 2018, o aumento foi de 92,7%.  A taxa de aumento é quase idêntica na comparação apenas entre os meses de setembro de 2019 e setembro de 2018: 96%.  Estudos já mostraram que os municípios com maior índice de desmatamento são também os que têm menor IDH, portanto a destruição da floresta não insere socialmente os povos da floresta. Pelo contrário: a ameaça à floresta é a mesma que ameaça e mata povos tradicionais. Este ano, esse risco foi agravado pelas queimadas, que alcançaram números alarmantes. Um em cada três focos de queimadas registrados até agosto deste ano localizavam-se em áreas que eram floresta até julho de 2018. Até o final de setembro, a Amazônia tinha registrado quase o mesmo número de focos de queimadas ocorridos no bioma durante todo o ano passado. Foram 66.750 focos de queimadas entre 1. de janeiro e 30 de setembro de 2019. No mesmo período de 2018, esse número foi de 46.968 focos. Ou seja, vimos uma alta de 42,11%. Em todo o ano de 2018, foram 68.345.

3 - Trazer à tona assuntos como o "Pecado Ecológico" podem fortalecer a conscientização ambiental da população?

A conscientização ambiental pode soar como um assunto abstrato e distante da realidade de muitos brasileiros, porém dependemos da natureza para tudo. A Igreja abriu um importante espaço de reflexão e conscientização, que começou com a Encíclica Laudato Si.  Agora, com o Sínodo, pôs em evidência a cultura e desafios dos povos amazônicos e indígenas e a premente necessidade de respeitarmos as características específicas da Amazônia. Estamos bastante otimistas que esse olhar amoroso e empático gerará importantes frutos no futuro.

Fogo que não é do Evangelho

“O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazônia, não é o do Evangelho. O fogo de Deus é calor que atrai e congrega em unidade. Alimenta-se com a partilha, não com os lucros”. As palavras são do papa Francisco, e foram ditas na missa de abertura do Sínodo dos Bispos para a Região Pan Amazônica, no último dia 6, no Vaticano, em Roma.

O evento, que foi realizado até o dia 27, trouxe o tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. No encerramento, o sumo pontífice declarou que a região amazônica sofre “todo tipo de injustiça” e cobrou da Igreja maior sintonia com a juventude. “A consciência ecológica vai em frente e hoje nos denuncia um caminho de exploração compulsiva e corrupção. A Amazônia é um dos pontos mais importantes disso. Um símbolo, eu diria”, declarou Francisco em comentário postado pelo site “Terra”.

Foto: Foto Andres Valle/Fotospublicas.com

Ele avaliou que a maior importância do Sínodo dos Bispos são os diagnósticos que foram feitos de questões culturais, ecológicas, sociais e pastorais da região amazônica. Dentro do conceito de ecologia integral, o papa Francisco frisou que os problemas ambientais precisam ser vistos dentro de seus contextos sociais, “não só o que se explora selvagemente a criação, mas também as pessoas”.

Segundo ele, a ecologia não pode ser separada das questões sociais. “Na Amazônia há todo tipo de injustiça, destruição de pessoas, exploração de pessoas, em todos os níveis e destruição da identidade cultural”, pontuou Francisco, no encerramento, lembrando de nomes como a ativista sueca Greta Thunberg, empenhada em uma cruzada global para alertar sobre a atual crise climática.

 

Repórter de A Crítica

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