Sábado, 25 de Maio de 2019
Manaus

Resistência: moradores das mais de duas mil vielas de Manaus não deixam seus lares

2.173 é o número de becos e vielas que existiam em Manaus,  segundo dados do setor de Gerência de Mobilidade Urbana (GMU), do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb). Destes, 120 foram transformados em ruas e, 89 em travessas



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Mesmo com a invasão do tráfico de drogas, por serem lugares de difícil acesso aos repressores do crime, a maioria ainda consegue levar uma vida pacata.
04/07/2015 às 14:49

Não se assuste porque Beco da Bomba, no bairro Educandos, Zona Sul, não tem nada a ver com material explosivo, e o Beco dos Pretos, na mesma área, há muitos anos não é mais um reduto de negros.

Os dois, como centenas de outros, espalhados pela cidade, continuam herdando traços de uma história de décadas, quando moradores ou vizinhos “batizaram” essas pequenas vias. E não adianta vereador sugerir e prefeito aprovar, colocar placa com novos nomes porque os originais continuam na cabeça e nas correspondências dos resistentes moradores dessas vielas.

Mesmo com a invasão do tráfico de drogas, por serem lugares de difícil acesso aos repressores do crime, a maioria ainda consegue levar uma vida pacata.

Só num beco é possível encontrar dois amigos, no meio da manhã de uma quinta-feira normal, sem camisas, conversando, sentados na calçada. Eles moram no Beco da Bomba, no bairro Educandos, com acesso para a avenida Leopoldo Peres.

O batismo da via foi porque o local era passagem de tubos que transportavam água para a extinta Fitejuta, empresa de fiação e tecelagem de juta, na época, principal produto de exportação do Amazonas.

José Paulo Cintra Maia, 60, mora no beco há 48 anos. “Isso aqui era só uma vala, horrível, só barro. Continua sendo um lugar tranquilo. Não troco por nenhum outro”, garante. Seu amigo e vizinho é Milton Rodrigues, 72, outro que tem muitas histórias para contar.

A casa que ele comprou ficava entre duas vilas de 10 quartos, todos ocupados por prostitutas que “ganhavam a vida” à noite nos bares de Educandos, na época, uma marca registrada do bairro.

“Naquela época havia mais respeito. A gente chamava de ‘mulher solteira’. Elas tinham a vida delas, mas não havia bagunça, essas coisas de drogas. Me orgulho em dizer que a primeira casa de alvenaria (Sic) foi a minha e o primeiro carro do beco foi o meu. Tive que mandar fazer várias pranchas de madeira para poder conseguir trazer o carro”, revela Milton.

Para a dupla de amigos, uma das vantagens de morar no Beco da Bomba é que não há vizinho do lado oposto, apenas um extenso muro de uma agência bancária, onde antes era a tradicional Serraria Moraes.


Antônia Oliveira de Matos, 75, que mora há mais de 40 anos no Beco Joana D’Arc, no Morro da Liberdade, Zona Sul, mesmo reclamando da presença de intrusos de atividade suspeita, não admite mudar de endereço. Curioso é que ela acha que a vida no beco é mais tranquila que antes.

“Depois que a polícia começou a passar por aqui, melhorou muito. Nessa primeira parte, é tudo de bom. Ainda dá para colocar a cadeira na frente de casa, conversar. Aqui não tem esse negócio de briga de vizinho, e quem muda pra cá que não for legal, não fica”, determina Antônia. O beco já recebeu placa com o nome de rua Generosa. A única lamentação é que no final de todas as centenas de becos sempre tem pontos de venda de drogas.

Sem nada de preconceito

Quando preconceito era apenas uma palavra do dicionário, imigrantes nordestinos não tiveram nenhum constrangimento em “batizar” o local onde se concentraram, no bairro Educandos, de Beco dos Pretos.

Hoje, embora seja difícil encontrar no local um afrodescendente, ninguém admite o nome oficial de Beco São Benedito.

Maria da Glória, 55, lembra que sua falecida mãe morou por várias décadas no beco. “Todo tempo a gente se reunia lá e nunca houve esse negócio de preconceito, era só brincadeira e muita festa. Hoje, ainda tem a ‘Festa do Mingau’”, relata Maria, que mora ao lado da entrada da via.

Um dos primeiros moradores, o piauiense Manoel Ferreira Lima, 86, mesmo que não queira trocar de endereço, vive protegido por grades. Para ser recebida, a reportagem teve que apresentar mais de uma identificação. “Já fui assaltado várias vezes, por isso cerquei a casa”. Ele acha que o Prosamim, embora tenha trazido vantagens, acabou escondendo a entrada do beco e facilitando a ação de bandidos.

Em números

 2.173 é o número de becos e vielas que existiam em Manaus,  segundo dados do setor de Gerência de Mobilidade Urbana (GMU), do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb). Destes, 120 foram transformados em ruas e, 89 em travessas. As mudanças são baseadas na Lei nº 266, de 30 de novembro de 1994, que regula a identificação dos logradouros de Município de Manaus.

E pode?

De acordo com a Lei nº 266/94 a denominação de logradouros públicos obedece às seguintes regras: os nomes não devem ser extensos, repetidos, de pessoa viva, de pessoas falecidas há menos de um ano, exceto quando se tratar de Presidente da República, governador, ministro, prefeito, senador, deputado federal ou estadual e vereador.

E a avenida Amazonino Mendes, no bairro Santa Etelvina (Zona Norte)? E as ruas Eduardo Braga, no bairro Jorge Teixeira (Zona Leste), e Omar Aziz, no bairro Alfredo Nascimento (Zona Norte), respectivamente?

Virou bairro, mas ainda é beco

Poucos os becos no Brasil têm história tão diferente como o “do Macêdo”, na Zona Centro-Sul. Nasceu beco, virou um conglomerado deles (com o mesmo nome), depois, transformou-se no bairro Nossa Senhora das Graças, mas até hoje pouca gente conhece por esse nome.

É só pedir a um taxista para lhe levar no Beco do Macedo, que ele não tem a menor dúvida. Curioso é que a viela onde tudo começou, oficialmente é a rua Libertador.

A história da área começou em 1947 com a invasão de nordestinos que vieram para a Amazônia trabalhar nos seringais e, após o ciclo da borracha, foram para as cidades. O nome foi uma homenagem a um dos primeiros moradores do local, Alfredo Macedo.

O beco já foi endereço de importantes pontos de referência da cidade. Primeiro, um jóquei que recebia a alta sociedade em disputadas corridas de cavalos. Adequada como campo de futebol, a área foi transformada no Parque Amazonense, primeiro grande estádio de Manaus (espaço para 12 mil espectadores).

Nos arredores ficam o cemitério São João Batista e o reservatório do Mocó, que já foi o único distribuidor de água para a cidade.



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