Quinta-feira, 22 de Outubro de 2020
comunidade três unidos

Ribeirinhos fazem ação para retirada de lixo em área de proteção ambiental

Indígenas reciclam lixo coletados ao longo de um ano em 11 comunidades de área de proteção ambiental



zCID0118-z01_p01_B624FAC9-4194-491C-B1F0-6A887044F1F7.jpg Foto: Junio Matos
18/10/2020 às 02:03

A equipe de reportagem de A CRÍTICA viajou cerca de um hora, do porto da Marina do Davi, localizado na Zona Oeste de Manaus, até a Comunidade Três Unidos, distante 64 quilômetros da capital, para conversar com indígenas locais e acompanhar o procedimento de prensagem de 919 quilos de resíduos e lixo coletados ao longo de um ano em 11 comunidades ribeirinhas localizadas em uma área de proteção ambiental do Rio Negro. 

O líder da comunidade de 102 indígenas, Waldemir da Silva, 61, da etnia Ticuna, falou um pouco sobre o impacto da conscientização ambiental no local, que vive tradições indígenas milenares ao lado de problemas da cidade grande, como descarte incorreto de lixo.



A prensagem ocorreu no decorrer da manhã da última sexta-feira (16). A ação faz parte do trabalho exercido pela Organização Não Governamental (ONG) Fundação Amazonas Sustentável (FAS), cuja meta é educar os moradores locais a reciclarem resíduos e não descartarem lixo de maneira danosa. A ONG realiza a coleta dos detritos, reunidos na comunidade Três Unidos, e os leva a Manaus, retirando o acúmulo de lixo dos locais de morada dos ribeirinhos.

Conhecimento ecológico

Waldemir da Silva, que também é casamenteiro e benzedeiro, afirmou que o projeto conseguiu atingir o objetivo: transmitir conhecimento ecológico aos moradores locais, principalmente às crianças, com relação aos cuidados necessários à remoção do lixo, tanto para a saúde da comunidade quanto à preservação da natureza. “Antes do projeto, a gente não sabia o que fazer com o lixo. Muitos tocavam fogo ou deixavam [jogado] por aí, mesmo sabendo que queimar era prejudicial à gente, devido à fumaça”, disse.

Waldemir afirmou, também, que a comunidade Três Unidos é turística, além de receber visita de pesquisadores do território nacional. A ação da ONG trouxe a construção de um galpão para coleta de lixo, na comunidade, além de consciência ambiental aos moradores, conforme o pajé.

 “As crianças, hoje, são ensinadas a respeito dos prejuízos do lixo à saúde. Com essa conscientização, os pequenos daqui sabem como organizar adequadamente os papeis de bombons, biscoitos e salgados, além de garrafas PETs. Demorou, porque nada é fácil. Mas graças às palestras e do trabalho dos professores da FAS, todo mundo daqui se tornou consciente disso”, relatou.

O pajé mencionou que o acúmulo de animais como moscas, baratas e ratos, gerados pela má disposição do lixo, chegou a gerar infecções intestinais e diarréias em alguns moradores da localidade. “O ambiente, agora, é limpo. É bom saber que o lixo não permanece mais aqui, afinal, uma comunidade limpa tem saúde, harmonia e paz, além de ser mais bonita aos turistas”.

Duas vezes por ano, os membros da FAS retiram o lixo recolhido nas onze comunidades sob monitoramento do projeto.

Transportado em balsa

Da Três Unidos, os resíduos coletados nas 11 comunidades foram transportados, de balsa, para Manaus e entregues à Associação de Reciclagem e Preservação Ambiental (ARPA), localizada na Av. Flamboyant, no Distrito Industrial II, Zona Leste da capital.

Em 2019, foram coletados 1,15 toneladas de resíduos, destinadas à reciclagem, conforme a ONG. O financiamento do projeto é feito pelas Lojas Americanas.

Trabalho de consciência ambiental

Segundo o gestor do núcleo de resíduos sólidos, Rafael Sales, 30, os resíduos tratados pela ação são aqueles utilizados pelas comunidades no decorrer do ano, como: papelão, plástico mole e duro, metais e vidro. “A diferença entre resíduos e lixo é que o primeiro é reciclável. Buscamos promover a conscientização de que é possível reutilizar resíduos e usá-los como fonte de renda, por meio do artesanato”, afirmou.

O gestor informou, ainda, que o objetivo da FAS é gerar a redução de dez por cento de produção de resíduos pelos moradores, anualmente. A meta é fundamental para renovação do financiamento do projeto, efetuada a cada dois anos, segundo Sales.

Os habitantes das comunidades sob ação do projeto vivem de artesanato, e produção oriunda do setor primário, como pesca e agricultura, além de turismo. No total, são 1.100 moradores, nas 11 localidades.

Artesanato e caça

As oficinas do projeto ensinam reciclagem de resíduos, conforme Rafael Sales. A indígena Diamantina Cruz, 58, conhecida como “Babá”, da etnia Kambeba, relatou que ensina artesanato aos moradores da comunidade Três Unidos como forma de geração de renda. “Alguns pequenos pegam o jeito rápido. Outros já são mais tímidos”, disse, entre risos.

Waldemir, casado com Diamantina, contou que chegou à comunidade, habitada por indígenas da etnia Kambeba, aos 12 anos de idade. O pajé do local, pai de Babá, transmitiu a ele as tradições e conhecimentos do posto, pelo fato de Waldemir ser da etnia Ticuna. “Eu e ela somos bem casados. Ela é sangue puro, da etnia dela”, contou.

A caça é feita por meio de lança ou arco e flecha. “Caçamos antas, caititu, cutias e pacas”, relatou Gomes. Os caçadores também evitam o bote de cobras e onças, encontráveis nas florestas da comunidade.

Coleta de resíduos e lixo

Conforme o coordenador de projetos Amandio Oliveira, 33, a ação é, acima de tudo, voltada à educação ambiental. “Com a falta de conhecimento, a tendência era que os moradores queimassem os resíduos ou jogassem no chão – o que acaba sendo a realidade de habitantes de certas idades. A meta é que eles vejam que é preciso gerar menos resíduos, e, com eles, recriar utensílios, como: vasos, vassouras feitas com garrafa PET, etc. Ao longo do tempo, a educação fica com as crianças e permanece com todos os comunitários”, afirmou. 

A coleta dos resíduos e lixo foi realizada nas comunidades: São Sebastião do Cuieiras, Nova Esperança, Nova Canaã, Boa Esperança, São Francisco do Chita, Terra Preta, Solimõezinho, São Tomé, Pagodão, Santa Maria e Três Unidos.


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