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Rock do bem: baixista se dedica a ensinar matemática e física a crianças da periferia de Manaus

Movido pelo hardcore e pela satisfação em ver o sorriso da criançada, o baixista Magno Corrêa dá lições diárias de amor 29/03/2015 às 11:29
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Além de dar aulas de reforço de matemática e física a estudantes carentes da Zona Leste, Magno e os amigos ainda distribuem cachorro-quente e brinquedos
Luana Carvalho Manaus (AM)

“Comecei a ouvir rock e nesse mundo novo conheci o movimento punk/hardcore, onde aprendi sobre anarquismo e a lutar pelas pessoas menos favorecidas”. A declaração é de Magno Corrêa, 30, o “Cego”, que se dedica há pelo menos dez anos a uma ideologia: ajudar o próximo. 

Aos sábados, ele ensina física e matemática, voluntariamente, para aproximadamente 35 crianças e adolescentes de uma comunidade carente da Zona Norte. Com a ajuda de parentes e amigos, ele também distribui cachorro-quente para moradores de rua e brinquedos em algumas periferias de Manaus. 

O sentimento de “dever cumprido” o impulsiona a ‘fazer o bem sem olhar a quem’ em todas as épocas do ano. “Distribuo brinquedos no dia das crianças e cachorro-quente quando o bolso e o tempo me ajudam. E esse ano, pela primeira vez, vou ser Papai Noel”, contou, empolgado.

Fantasiar-se de “bom velhinho”, um dos maiores símbolos do capitalismo,  pode até ser contraditório à filosofia punk, mas Magno não acha justo “acabar com os sonhos das crianças” e resolveu encarar o desafio. “Venho de uma família simples onde vizinhos se ajudavam. Isso alimentou minha alma. Tive uma boa educação graças aos esforços dos meus pais e conheço muito bem o que são pessoas necessitadas”, contou o jovem, que é técnico eletrônico e baixista de uma banda de rock.

O hardcore e o sorriso nos rostos das crianças movem o baixista. “No dia das crianças, fomos em um fusca do João Jarmi (amigo), mas o carro não estava muito bem de ‘saúde’. Tínhamos que parar para o motor esfriar. Em uma certa pausa, paramos em um lugar onde só tinha muros e mato. Quando dei por mim estávamos justamente em um lugar com muitas crianças. Percebemos que era um sinal e lá mesmo começamos a distribuir os brinquedos. Nunca vi tantos sorrisos verdadeiros ao mesmo tempo”, relatou. 

Filosofia do 'faça você mesmo'

“Fui punk, não sou mais, mas ainda carrego resquícios anarquistas em mim. Ajudar as pessoas tem muito a ver com minha ideologia. Tocar em lugares precários da cidade, conhecer histórias e pessoas pelas periferias me impulsionou a, ao menos, tentar fazer algo relevante. Por que esperar pelo governo se eu posso fazer algo pelo meu irmão?”.

Magno é um dos manauaras que compartilha boas ações e propaga o espírito de Natal o ano inteiro. “Vivemos em mundo mesquinho e egoísta. A boa ação, por menor que seja, vai resultar positivamente na vida de alguém. Nunca fui de ficar sentado esperando por mudança. A mudança está dentro de você e é preciso externar isso. Minha filosofia é totalmente do Hardcore, D.I.Y. - do it yourself (faça você mesmo)”.

Logo que começou a dar aulas em comunidades carentes, Cego sofreu com a falta de confiança dos pais dos alunos por causa das tatuagens e alargadores. Mas, com o passar do tempo, conquistou o amor da comunidade.

“Era tudo uma grande novidade para eles. Uma cena que eu jamais esquecerei foi um dia que fui para o ponto de ônibus e a mãe de um aluno me agradeceu pela dedicação e disse que eu havia salvado o filho dela. Fiquei meses com aquilo na cabeça. Minha força de vontade só aumentou”, contou. 

O baixista coleciona muitas histórias de gratidão e dever cumprido. “Teve uma aluna que nunca tinha soprado velas em seu próprio aniversário. Chamei alguns amigos e fizemos o bolo pra ela comemorar com outros alunos. Foi um dia de festa e, como sou um cara muito emotivo, aquilo me tocou profundamente”, relembra.

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