Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
TRANSPORTE COLETIVO

Roubos em paradas e terminais de Manaus chegam a 4.938 casos em 10 meses

Apesar da redução de 30,6% em roubos dentro de coletivos, usuários revelam perigo enquanto aguardam as linhas. Motoristas e passageiros contam histórias das chamadas 'rotas do medo'



zCID0130_100_p02_72E8D620-BFE1-4F87-85BD-70C19A21D384.jpg Foto: Jander Robson/Freelancer
29/12/2018 às 16:23

Apesar da anunciada redução de 30,6% nos registros de roubos em ônibus coletivos de Manaus entre os meses de janeiro e outubro deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado, ainda é alta a exposição de usuários e trabalhadores do sistema de transporte coletivo aos criminosos. O balanço desconsidera o risco aos passageiros enquanto eles ainda aguardam a chegada dos ônibus nas paradas e terminais.

Há duas semanas, a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP-AM) comemorou o fato de que a capital registrou 2.082 notificações de roubos em veículos do transporte coletivo em 2018 contra 3.000 ocorrências no mesmo período em 2017.

Mas, quando os casos de assaltos dentro dos ônibus são somados aos de notificações de furtos e roubos em paradas e terminais, o número de registros chega a 4.938. A quantidade de casos registrados fora dos ônibus é, inclusive, maior do que os que ocorrem dentro dos coletivos: foram 2.856 registros entre janeiro e outubro deste ano.

Dentro ou fora dos veículos, os dados refletem no medo que trabalhadores do sistema  e milhares de passageiros têm. 

Moradora do bairro Nova Esperança, na Zona Oeste, a vendedora Adriana Almeida diz que não há hora para os assaltos acontecerem nas paradas. Usar os ônibus convencionais não é uma escolha, mas sua úniva opção para se locomover. “De noite fica um deserto (as paradas). E de dia, mesmo lotadas de gente, têm assaltos. Já teve até arrastão aqui”, relata ela, que todos os dias precisa pegar ônibus para ir e voltar do trabalho, no Centro.

A servidora pública Darilândia Mafra conta ter sido assaltada neste ano em ônibus da linha 321. Ela lembra que os homens estavam bem vestidos quando anunciaram o roubo. “Eles estavam como passageiros, normalmente. A gente nem desconfiava que eram assaltantes. Como esse ônibus pega a barreira, nós já estávamos entrando na estrada quando os dois anunciaram o assalto. Eles estavam de revólver”, descreve. “Eu fico com medo, mas a gente não pode fazer nada. Foi o primeiro assalto que sofro dentro de ônibus, mas na rua, eu já perdi a conta de quantas vezes fui assaltada”, revela.

A reportagem de A CRÍTICA também visitou pontos como o Terminal da Matriz, no Centro, e o T4, no Jorge Teixeira, Zona Leste.

No Centro, entre as pessoas que estavam nas paradas aguardando o transporte coletivo, um morador do conjunto Viver Melhor, na Zona Norte, que ainda não havia se recuperado do abalo psicológico após sofrer um assalto dentro de um ônibus da linha 356 no início do mês.  “Esse assalto foi às 20 horas. Os caras pararam na estrada do aeroporto, fizeram a limpa dentro do ônibus e desceram pelo mato que existe por ali. Eles levaram tudo meu, todos os meus documentos, celular”, disse.

No T4, a estudante Juliana Rodrigues, 21, disse que também presenciou roubo neste ano, mas nesse caso os assaltantes não conseguiram fugir. “Isso foi no início do ano na linha 640. Os caras entraram com extrema violência. Levando muitas coisas, celular, relógios, bolsas. Graças a Deus teve ação de policiais”, afirmou. “Acredito que o trabalho dos policiais dentro dos coletivos poderia ser uma alternativa para diminuir os assaltos, isso tem que ser intensificado”, defendeu.

Histórias das ‘rotas do medo’

A linha 560, que atende bairros da Zona Norte, percorrendo o Terminal 4 e o Centro, é considerada por motoristas a mais perigosa de Manaus. Depois dela, a segunda mais temida é a 550. 

Erick Rodrigues, motorista há 12 anos, dirige nas duas linhas e conhece bem os piores trechos. Ele disse que um deles está no bairro Santa Etelvina e outro na Cidade Nova.

Motorista das linhas mais temidas, Erick diz que os ladrões são sempre os mesmos (Foto: Jair Araújo)

No início do mês, um colega de trabalho teve o ônibus assaltado por seis bandidos no local. “Assaltaram o ônibus do meu colega por volta das 14h. Os seis homens entraram no Centro. Dois estavam com armas e outros com faca. O assalto foi anunciado na Cidade Nova, num rip-rap  por ali. Fizeram a limpa dentro do ônibus e ainda deram um tiro para cima quando eles desceram”, contou ele, enquanto iniciava a viagem saindo do T4.

Erick explicou que na maioria das vezes são os mesmos bandidos. “Não adianta boletim de ocorrências porque a polícia não faz nada. Temos câmeras, mas infelizmente nada é feito. São as mesmas caras. Às vezes eles dão um tempinho de uma semana, mas depois voltam a assaltar”, reclamou o motorista.  Ele diz que recorre à proteção divina, todos os dias, antes de sair de casa. “A gente trabalha pela misericórdia de Deus. Eu peço proteção todo o santo dia. Tem que trabalhar, né? Todos nós temos família”, completou.

O operador de produção Freides Ramires, 40, prefere não andar no 560, mas às vezes a necessidade o força a pegar o coletivo. “Já presenciei um roubo nesse ônibus, graças a Deus não levaram nada meu. Eram quatro pessoas, dois ficaram na frente e dois ficaram atrás. Os de trás passaram recolhendo os objetos. Dois estavam com um facão e outros dois com revólver”, descreveu ele, que prefere utilizar os alternativos.

A linha 604 é outras das mais temidas por rodoviários e passageiros. O motorista Sérgio Albuquerque ficou sob a mira de uma arma durante um assalto, quando bandidos levaram toda a renda da viagem, além dos pertences de passageiros.

“Foi seis horas da tarde, quando os bandidos entraram no ônibus, me chamaram de vagabundo, colocaram a escopeta na minha cabeça e mandaram eu ficar quietinho, ameaçando que iriam atirar se eu olhasse para trás”, relatou. “A gente trabalha desconfiado. Muitas das vezes a gente olha para o passageiro principalmente à noite, quando vemos as características suspeitas, eu não paro”, contou.

Operações diárias

O comandante do Policiamento Metropolitano da PM, Disney de Lima, destacou a queda no número de roubos aos coletivos em Manaus. Ele atribui a queda às operações policiais como Catraca e Águia, executadas com o objetivo de melhorar o patrulhamento. “Com a redução, a sensação de segurança dos usuários do transporte coletivo é perceptível”, disse Lima.

A Operação Catraca, disse ele, é realizada todos os dias, em todas as Companhias Interativas Comunitárias (Cicoms), em horários pré-determinados pelos relatórios de manchas criminais disponíveis. O trabalho é feito em locais de maior incidência de roubos aos coletivos.

Nos fins de semana, a Operação Águia é feita com um efetivo diferenciado de policiais  em pontos estratégicos e locais de altos índices criminais.

Botão do pânico

Uma das novidades lançadas neste ano para enfrentar os roubos a ônibus foi o aplicativo “Aviso Polícia”, que possui uma espécie de botão do pânico e aciona a viatura da PM mais próxima do registro da ocorrência. Desde que foi lançado, o sistema cadastrou mais de 16,8 mil usuários.

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