Domingo, 19 de Maio de 2019
CRISE

Ruas de Manaus 'abrigam' imigrantes e refletem caos venezuelano

Espalhados pela cidade, refugiados contam com a solidariedade de quem mora em Manaus para sobreviver



venezuelana_54017EFB-4A61-4DC7-A2B9-05710C042035.JPG
Karina ganha R$ 50 por dia; ela e os filhos passam boa parte do dia na rua (Foto: Euzivaldo Queiroz)
04/05/2019 às 18:10

A face mais cruel da crise venezuelana talvez seja a dos pequenos expatriados espalhados pelas ruas brasileiras. Em Manaus, onde o fluxo migratório é intenso desde o acirramento da situação na Venezuela, a cena começa a dominar a paisagem urbana, com a chegada de imigrantes praticamente todos os dias.

É o caso de Karina Febres. Após um longo itinerário de caronas que começou em Puerto La Cruz (a cerca de 250 km de Caracas em linha reta), passando por Pacaraima e Boa Vista, ela e os quatro filhos enfim chegaram a Manaus. “Não há comida, médicos, trabalho ou educação na Venezuela”, diz Karina, que está na cidade desde fevereiro deste ano.

Acompanhada dos filhos, a enfermeira e paramédica hoje divide sua rotina entre a mendicância num meio-fio próximo ao cruzamento entre a rua Ramos Ferreira e avenida Getúlio Vargas, no Centro, e compras de alimentos e fraldas para a filha bebê. A solidariedade rende cerca de R$ 50 por dia à mulher, que mora com os filhos num pequeno apartamento perto dali, na avenida Joaquim Nabuco, também no Centro.

“Estou tentando conseguir dinheiro para pagar os R$ 500 de aluguel, mas a situação está difícil. Preciso de trabalho”, lamenta Karina.

Seu marido, Gerson Salazar, que trabalhava como policial e técnico de refrigeração na Venezuela, contribui na renda com os parcos lucros que obtém com a venda de garrafas de água na rua.

O único direito que conseguiu garantir aos rebentos até agora foi o acesso à educação. Seus filhos Vitória e Gerson frequentam a quarta e primeira série do ensino fundamental e outro, de doze anos, cursa o primeiro ano do ensino médio.  Ainda assim, eles passam parte do dia na rua.

Nascido no estado de Anzoátegui, distante a 370 km da capital venezuelana, o soldador e auxiliar de pedreiro Jorge Félix Bruco mora em Manaus com os cinco filhos e a esposa há cerca de quatro meses. Fugido da crise social, política e econômica, Bruco é um dos vários imigrantes que disputam a atenção dos motoristas que circulam pela avenida José Lindoso, no Aleixo, para ganhar alguns trocados e, dessa forma, garantir a sobrevivência. “Com a presença das crianças, é mais fácil conseguir dinheiro”, ele não hesita em dizer.

A faixa etária das crianças varia entre dois e cinco anos. Diferentemente das crianças de Karina, as de Bruco não estão frequentando a escola. “Eles estudavam (na Venezuela), tinham boas notas. Aqui, infelizmente, não podemos deixá-los sozinhos”, diz o pai. Os rendimentos variam – a média é de R$ 20 por dia. A esposa também se dedica a pedir dinheiro nas proximidades da avenida.

O poder público ainda não tem o número total de crianças venezuelanas nas ruas, mas as secretarias, após uma série de ações sociais (ver abaixo), vão fazer um mapeamento da situação das famílias e, dependendo do caso, as crianças poderão ser encaminhadas ao Conselho Tutelar. Nesta etapa, o trabalho terá como base as orientações da legislação brasileira.

“O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) deixa claro que é necessário combater a permanência desse público nas ruas, e esclarece qual a função dos pais, da sociedade e do Estado na garantia dos direitos dessas crianças”, observa Mirella Lauschner, diretora do Departamento de Proteção Social e Especial da Secretaria da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc).

‘Faltam iniciativas’

A brasileira Jucicarla diz que faltam iniciativas para ajudar os venezuelanos (Foto: Euzivaldo Queiroz)

Na opinião de Jucicarla Ribeiro, faltam iniciativas tanto do governo brasileiro como do venezuelano para diminuir o sofrimento da população do país ao norte. “Percebo que prestam assistência para alguns venezuelanos e esquecem de outros”. Ela, no entanto, não sabe explicar a razão dessa preferência (ou da falta dela).

“Morei seis meses em Boa Vista e também percebi um movimento grande por lá, pois a cidade é utilizada como rota de acesso a Manaus, e também em Humaitá”. Jucicarla diz que evita contribuir com dinheiro, mas garante que, sempre que possível, oferece comida aos pedintes. “Já passei fome e sei como é difícil”.

Caos econômico e social

Venezuela faz fronteira com o Brasil e enfrenta uma forte crise política, econômica e social. Seu território possui grandes reservas petrolíferas, o que tornou o país um forte dependente da exportação do produto.

Nos últimos anos, houve uma sucessiva queda no preço dos barris. A desaceleração na entrada de dinheiro do país, somada à falta de infraestrutura e dependência de produtos importados e a crise cambial causou um desgaste vertiginoso no governo Maduro, que já sofreu seguidas tentativas de derrubada por grupos internos com apoio externo.

Enquanto isso, a população padece com a escassez de produtos básicos, medicamentos inclusive, e uma parcela grande tem deixado a nação. Mais de 240 mil venezuelanos entraram no Brasil desde 2017 e que quase a metade deles já saiu do País.

Ações e mapeamento de famílias

Secretaria da Mulher, Assistência Social e Cidadania fazendo trabalho de apoio e mapeamento​ (Foto: Euzivaldo Queiroz)

Na última sexta-feira, uma ação social promovida por órgãos estaduais, municipais e entes da sociedade civil ofereceu serviços aos  venezuelanos nas proximidades da avenida  Governador José Lindoso .

A ação beneficiou Jorge Bruco, que se inscreveu no sistema de cadastro do Sistema Nacional do Emprego (Sine). A iniciativa, que será realizada ao longo dos próximos três meses, tem como objetivo promover a abordagem e a sensibilização de venezuelanos  em vários pontos de Manaus.

O foco da atividade são, principalmente, adolescentes e crianças que vivem em situação de mendicância e trabalho infantil.

Após o contato prévio, na sexta,  os imigrantes foram conduzidos ao Centro de Apoio e Referência a Refugiados e Migrantes (Care), no bairro Cachoeirinha, Zona Centro-Sul. Ali, as equipes coletaram dados e informações para avaliação do perfil das famílias. “Verificamos se já estão inseridos em programas e serviços da prefeitura ou recebem o auxílio do Bolsa Família, por exemplo, e as direcionamos para a rede de proteção”, explicou a assistente social Márcia Matos, que atua na gerência de erradicação de trabalho infantil da Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc).

Entre os serviços oferecidos no Care, estão orientações sobre emissão de documentos como carteira de trabalho, direitos da mulher, proteção social básica e consulta ao Cadastro Único, base de dados de todos os beneficiários de programas do governo federal. Foi disponibilizado ainda o cadastramento na base de dados do Sine, por meio do qual os interessados terão a oportunidade de colocação no mercado de trabalho, além de participar de cursos de qualificação.

Repórter freelancer de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.