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Sabores tradicionais das ruas, como rala-rala e o açaí, ganham novas apresentações

As principais delícias das ruas de Manaus deixam a tradição de lado e dando lugar a modernidade  05/09/2015 às 10:13
Show 1
O peruano Alex aprendeu com o pai a fazer o rala-rala tradicional
Isabelle Valois ---

Uma embalagem diferente, um “trato” na higienização, receitas aprimoradas e uma apresentação mais sofisticada. Foi o que aconteceu com coisas que são tradicionais de Manaus, como o rala-rala e o açaí, que nos últimos anos sofreram uma supervalorização no mercado local. Enquanto pagávamos em média de R$ 7 por um litro do açaí que era batido na máquina, hoje pagamos o mesmo valor ou até mais por um copo de 300 ml. Tudo isso porque o que era vendido em forma de suco se misturou a uma pasta de sorvete e recebeu a adição de leite condensado, granola, amendoim e outros complementos, de acordo com o gosto do cliente.

Com o rala-rala não foi diferente: se antes o vendedor retirava o gelo de uma bacia de alumínio, enrolado em uma sacola plástica, para ralar na hora de servir e, depois, colocava o suco da preferência do freguês para “dar o gosto”, hoje vendedores “desfilam” pelas ruas em um pequeno carro adaptado com um reservatório de gelo ralado e máquina de envasamento, que permitem que o suco, já ralado, vá direto para o copo, protegido por uma película protetora, sem contato com as mãos do vendedor, o que aumenta a higiene.

‘Importado’

Quem conheceu o método tradicional e passa pelo centro histórico se surpreende com os vendedores de rala-rala. Assim como o antigo método, que foi trazido por um peruano, o novo modelo de produção chegou com os hatianos, que trouxeram o próprio estilo para produção de um produto similar em seu país. É o caso do vendedor José Pierre Darlevil, 38. Ele tem um carrinho portátil com um freezer ligado a um motor de luz, que conserva mais de seis recipientes com gelo ralado.

Conforme o gosto do freguês, Pierre pega o copo descartável, coloca uma boa porção de leite condensado e, em seguida, o suco ralado dentro do copo. Mas o processo não termina aí: ele tem uma máquina apropriada para que o líquido saia envasado com uma película de plástico com o desenho da Hello Kitty. Diferente do tradicional, em nenhum momento ele toca no produto que será consumido.

O vendedor contou que o processo se inicia antes de sair de casa. “Na noite anterior preparo o suco e coloco em um freezer ou no congelador. No dia seguinte, retiro e bato no liquidificador para ficar ralado e o povo aqui tem aprovado”, contou.

A vendedora Vanda Lopes, 45, disse que, todos os dias, aguarda, após o almoço, o momento em que Pierre irá passar com o rala-rala. “Este rala-rala é mais concentrado e diferente do nosso tradicional. E pelo fato de ser mais higiênico, tem feito muito sucesso aqui pelo Centro”, relatou.

Tradição

Pierre vende um copo de rala-rala, em média, por R$ 4 ou R$ 5. Diferente do haitiano, o peruano Alex dos Santos Rengifo, 51, continua com a tradição do pai dele, Frain Peper, 82, que desde 1977 sempre sustentou a família com o tradicional rala-rala vendido em frente às escolas e praças de Manaus.

Seguindo os passos do pai, ele vende, em média, 200 rala-rala por dia, a maioria nos sabores groselha e menta, desde a década de 1970 as favoritas dos estudantes. E dos pais deles também. Entre os clientes de Alex tem muita gente que já está acostumada a se refrescar com o rala-rala na saída da escola desde os tempos do ‘seu’ Frain, pai de Alex. É o caso da dona de casa Suely Figueira, 38, que, todos os dias, quando vai buscar o filho na escola, leva dinheiro trocado para comprar dois copos de rala-rala. “Para aliviar o calor de meio-dia, é uma das melhores opções”.

São costumes como o de Suely que fazem com que Alex repita, diariamente, a rotina do pai dele, de levantar cedo, sair para comprar sacas de gelo, batê-las no liquidificador e guardar em uma bacia de alumínio para fazer as pedras, que depois serão raladas na rua. Por dia são aproximadamente 60 pedras de gelo produzidas.

Alex contou que a tradição já está na terceira geração da família: um dos netos do pai dele - sobrinho de Alex - perambula pelas ruas da capital vendendo o rala-rala que aprendeu a fazer com o avô. E eles não se sentem ameaçados pelo “estilo haitiano” de fazer rala-rala. “Trabalho desde meus 8 anos e sempre consegui sustentar a minha família com o rala-rala. Além disso, com o calor de Manaus, tem espaço para todos”, disse.

Açaí frozen virou moda pelas ruas

Com o açaí não é diferente. Antigamente era fácil avistarmos um vizinho ou alguém no quintal de uma casa batendo os caroços dentro de um balde junto com a água para fazer o suco, que normalmente era misturado à farinha de tapioca ou ao açúcar. Hoje essa prática se tornou mais rara e quem está por todas as esquinas é o açaí industrializado, batido em uma máquina, com “jeito” de sorvete e direito a caldas, granola, castanha e até leite condensado, e até um novo “apelido”: frozen.

O empresário Jean Carlos da Silva Rebelo, 38, que trabalha há 9 anos com açaí, explicou que a “repaginada” do produto não diminuiu as vendas do suco de açaí, uma vez que ele é utilizado para a fabricação do frozen. “Aqui batemos em média de 300 litros por hora e a única dificuldade que temos é de conseguir o caroço em bom estado para consumo”, explicou.

Por revender o suco da fruta com uma nova apresentação, Jean conseguiu um bom número de fregueses. “Quando começamos a bater o açaí, quem está passando sempre para e toma um copo. Mas tentamos manter a tradição nas misturas, mantendo o açúcar e a farinha de tapioca”.


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