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Manaus
5º pior do Brasil

Saneamento básico de Manaus é vergonha nacional

Milhares de moradores de todas as zonas da capital são obrigados a viver em condições subumanas, expostos a uma série de doenças e estão cansados do descaso do poder público e das promessas de melhorias não concretizadas 21/02/2017 às 05:00
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Becos da Comunidade da Sharp viraram verdadeiros lixões. Fotos: Aguilar Abecassis
Lídia Ferreira Manaus (AM)

Manaus ocupa o quinto lugar entre os piores municípios em coleta de esgoto, de acordo com uma pesquisa divulgada pelo Instituto Trata Brasil. O ranking do saneamento básico das 100 maiores cidades do País revela que 50,3% da população têm acesso à coleta dos esgotos, mas somente 42% dos esgotos são tratados. Nas diferentes zonas da capital amazonense, moradores usam do improviso para driblar a situação.

Mau cheiro, muito entulho, lixo, lama e um córrego de água suja com dejetos é o que os moradores do beco Greenville, no Bairro da União, Zona Centro-Sul, encontram na porta de suas casas. Há 12 anos, a autônoma Roseli Nunes e seus vizinhos se unem para colocar canos, retirar parte do lixo e construir barragens de cimento. É  o que a gente pode e tem condições fazer, mas nem faz tanto efeito. Está precário, a gente vive com doença de pele, principalmente as crianças. É muito lixo e água suja, que vem das privadas”.

Córrego contaminado passa entre as casas. Fotos: Aguilar Abecassis

 Na União, canos de água e esgotamento são improvisados debaixos das casas

O odor é tão forte que prejudica atividades simples do dia, como o almoço e jantar. “Tem dias que a gente não consegue nem comer porque fede mais. É de passar mal dentro da sua própria casa. Não tem quem se acostume com esse cheiro. Você perder a fome, não tem vontade de comer”, ressalta a diarista Maria José Ferreira Gomes. 

Moradora da comunidade da Sharp, Zona Leste de Manaus, a dona de casa Vanessa da Silva Lopes convive com mau cheiro, lixo, falta de água encanada e rede de esgoto há 18 anos. As crianças, dois filhos dela e vizinhos, brincam em um terreno baldio próximo  à sujeira e o esgoto a céu aberto. “Quando chove, a gente nem consegue sair de casa. Fica tudo alagado. É uma imundice, fede demais, é muita sujeira. Essas crianças têm nem lugar para brincar", conta. "Há uns quatro anos, uma vizinha ali perdeu o filho que caiu numa vala em dia de  chuva", completa.       

 Crianças estão entre os mais vulneráveis à falta de saneamento adequado na cidade         

Segundo o pedreiro Márcio Ferreira Cardoso, desde 2012 a comunidade recebe promessas de obras no local. "Vários políticos vieram aqui, pessoal das secretarias e... nada. Há anos a gente espera e nada acontece", diz. A dona de casa Isamar da Silva enfatiza as recorrentes doenças causadas pela falta de saneamento. "Quase todo mês alguém daqui está com diarréia ou vômito. Já é normal para gente aqui passar por isso. Na época de chuvas é uma epidemia, todo mundo fica doente, não só aqui de casa, nos vizinhos também”.

As tubulações de esgoto foram abandonadas na rua Inanbu, no bairro Cidade de Deus, Zona Leste, dando inícios de uma obra iniciada, mas longe da etapa de conclusão. “Tem mais de três anos que isso está assim, todo esse entulho jogado. Os moradores se uniram para tirar mais do meio da rua, pois estava atrapalhando o trânsito”, conta o técnico de Informática Welinton Carvalho da Silva. A rua Inanbu é uma das poucas do bairro que está com pavimentação, meio-feio, calçadas e sarjetas.

 Tubulações de esgoto foram abandonadas e a população teve que tirá-las do meio da rua

“As outras ruas estão muito esburacadas, mas essa aqui ficou esquecida. Não tem nada. Quando chove, alaga tudo, ninguém passa. Tem gente que nem consegue sair de casa”, diz o auxiliar de construção Manoel Carlos.

De acordo com ele, já foram feitas várias reclamações nos órgãos competentes, mas nada foi feito. “Entra ano e sai ano, vamos lá formalizar, e nada, não somos ouvidos. É só promessa de melhoria e nada”, finaliza. 

Sem acesso à agua encanada e potável

Outro problema apontado pelos moradores é a falta de água tratada. Diariamente, os moradores da Comunidade da Sharp precisam carregar água de um poço artesiano, localizado no bairro ao lado. "É uma forma de a gente ficar menos doente porque tem criança, tem bebê e idoso aqui. Não tem condições de usar essa água", comenta a dona de casa Isamar da Silva.

A autônoma Naila Pantoja, moradora do bairro Cidade de Deus, estoca água em camburões e tenta realizar um tratamento caseiro para melhorar a qualidade. “Não temos água tratada, então procuro ferver tudo antes de usar pelo menos no que vou cozinhar. Não tem condições de utilizar. Isso quando há água, pois falta muito aqui para essa área”, relata. 

 A comerciante Francisca de Souza Santos, moradora há 15 anos do beco Greenvile  no Bairro da União, improvisa canos para ter acesso à água em casa. “Tudo aqui é a gente que faz numa tentativa de ter uma vida melhor. Dá muito trabalho tudo isso e não temos condições de construir, fazemos o que dá pra fazer, pensando também na nossa saúde”, explica.

Norte abaixo da média

As principais cidades do Norte, incluindo Manaus, ocupam o as últimas colocações do Ranking do Saneamento com números bem abaixo da média nacional na maioria dos indicadores. No total, 24 capitais não tratam mais de 80% dos seus esgotos.

Concessionária rebate pesquisa

Em nota, a concessionária  Manaus Ambiental diz que há uma “distorção da realidade” na pesquisa, pois é “sem   avaliação total de habitações que possuem a  infraestrutura de coleta e tratamento”. A nota diz ainda que “hoje a cidade já se encontra com infraestrutura de coleta e tratamento na ordem de 35%, o que se aproxima da média nacional, sendo que desse total 20% são operados pela concessionária”. A empresa ressalta ainda que “das 100 mil habitações com serviço disponível, apenas 50 mil utilizam os mesmos”. Confira a nota na íntegra:

A Manaus Ambiental informa que em relação as notícias que foram veiculadas recentemente na mídia nacional sobre a universalização do esgotamento sanitário no Brasil  e o ranque de 100 cidades brasileiras, onde classifica Manaus de forma equivocada, em uma posição inexpressiva, temos a esclarecer que a pesquisa realizada pelo Instituto Trata Brasil, apenas leva em conta as habitações que se encontram ligadas na sistema de coleta da cidade,  sem avaliação total de habitações que possuem a  infraestrutura de coleta e tratamento disponível na cidade, isso induz uma distorção da realidade de Manaus. .Hoje  a cidade  já se encontra com infraestrutura de coleta e tratamento na ordem de 35%, o que se aproxima da média nacional, sendo que desse total 20% são operados pela concessionaria.

Infelizmente uma triste constatação  em Manaus é que apenas 50% das habitações que dispõem dos serviços de coleta e tratamento, estão interligadas na rede coletora, ou seja, das 100 mil habitações com serviço disponível, apenas 50 mil utilizam os mesmos.

E necessário um esforço institucional coletivo para promover a consciência da importância da utilização dos serviços de coleta na cidade, visando a utilização dos mesmo e garantir a melhoria da qualidade de vida da população.

Manaus Ambiental vem atendendo a meta de universalização estabelecida pelo município, onde só esse ano serão investidos aproximadamente 70 milhões de reais na construção de mais de 40 km de novas redes  coletoras e na construção e ampliação de estações de tratamento de esgoto. A maior obra em andamento está sendo realizada na  Cidade Nova II – zona Norte da Cidade com a duplicação da Estação de Tratamento de Esgoto Timbiras - ETE Timbiras, onde serão coletados e tratados  220 litros de esgoto por segundo, uma das maiores estações de tratamento da região.

É importante também falar, da parceria com a prefeitura de Manaus e do Governo do Estado onde os mesmos  trabalham em dois programas que visam elevar esses indicadores de saneamento com a implantação do Programa de Desenvolvimento Urbano e Inclusão Socioambiental de Manaus – PROURBS - na zona Leste ( Jorge Teixeira III) e do Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus - PROSAMIM - na zona Centro Sul da cidade.

Outro grande avanço para a cidade foi a divulgação da Lei Proágua, em que obriga desde 2007 que nenhuma construção e/ou empreendimento público ou privado construa sem o sistema de coleta e tratamento de esgoto, portanto, Manaus a respeito  do comentado na matéria divulgada, vem continuamente evoluindo na universalização dos serviços de coleta e tratamento de esgoto, com planejamento e investimentos contínuos.

Arlindo Sales, diretor de Regulação e Meio Ambiente diz “Com relação ao abastecimento de água, Manaus já fez seu dever de casa, hoje nós temos o parque de produção de água, a Manaus Ambiental tem duas estações de tratamento localizado na Ponta do Ismael e uma estação de tratamento na Ponta das Lajes que já atende 95%  da população com abastecimento de água tratada. O trabalho da Manaus Ambiental agora é fortalecer o combate ao desperdício de água que ainda existe em nossa cidade, para que essa universalização se perpetue ao longo dos anos. Então, agora estamos fazendo uma remodelação da rede de distribuição, trabalhando na conscientização da população no sentido de evitar o desperdício ou cometer fraude e furto no sistema de abastecimento de água”.

A empresa também reforça a importância da população de compreender e ter o sentimento de que o saneamento, é saúde pública, então o cliente que tiver o serviço disponível pode solicitar a interligação e contribua para que o esgoto gerado na sua residência, vá para uma estação de tratamento e com isso, deixe de poluir os corpos receptores e toda a parte ambiental de uma cidade, diminuído o índice de doenças contraídas por veiculação hídrica e melhorando os indicadores de saúde pública.

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