Terça-feira, 19 de Janeiro de 2021
SAUDADE AGRAVADA

Saudade agravada: pandemia força adiamento de reencontros de fim de ano

Amazonenses adiam viagens, festas e grandes reuniões em família para readaptar a festa natalina ao contexto de isolamento social



18elvis_DFCF4932-94B0-46A9-85FD-60BF22E753A8.jpg A família do jornalista Elvis Chaves é uma das que enfrentam o desafio de fazer o melhor Natal possível com segurança biológica. Foto: Arquivo Pessoal/Elvis Chaves
28/11/2020 às 07:00

Faltando pouco menos de um mês para o Natal, um dos períodos do ano mais esperados por muitos, por ser sinônimo de viagens, reencontros e festas, esse ano ganha novas configurações relacionadas à pandemia de Covid-19. A CRÍTICA conversou com famílias que, acostumadas com a data, agora reavaliam as condições de biossegurança dos transportes, aeroportos e rodoviárias antes de pensar em viajar, e perguntou sobre como eles farão para estar juntos neste natal, mesmo estando longe fisicamente.

Mayanne Bader, que trabalha com a técnica de terapia Reiki e também é jornalista e assessora de imprensa, está desde fevereiro desse ano sem ver a família em razão da pandemia. Vivendo em Curitiba, ela precisou cancelar a viagem de fim de ano para ver a família, que vive em Manaus. Ela conta que os familiares já dominam as ferramentas digitais e isso alivia a saudade.




Mayanne com a família. Esse ano, o Natal será via videoconferência. Foto: Arquivo Pessoal/Mayanne Bader

“Fico triste por passar o Natal sozinha com meus cachorros. Mas vamos fazer uma videoconferência na ceia, pois já é um momento aguardado e tradicional na nossa família. No último aniversário cantamos parabéns pelo Zoom”, contou. O Zoom é uma das inúmeras ferramentas de videoconferência online que ganharam fama durante o isolamento social e que permite aos usuários que possuem internet conversar em grupo, por meio de smartphones, notebooks e computadores.

Reencontro adiado

A pedagoga Maíra Venzo explica que não poderá visitar parte da família que vive no Rio Grande do Sul. Segundo ela, para reencontrar a família do marido seria preciso atravessar o país entre escalas de avião e trocas de ônibus, o que exporia a família ao perigo do contágio com a doença.

"Moro em Manaus e meu marido é gaúcho. Meus sogros são idosos e vivem em um pequeno município chamado Braga, no Rio Grande do Sul. Para ir até lá, pegamos o avião de Manaus, fazemos escalas, pegamos um ônibus na rodoviária de Porto Alegre para chegar depois de uma viagem de 6 horas. Ponderamos passar por essa exposição, pois é uma cidade com 3 mil habitantes”, conta.


O tradicional reencontro de fim de ano com os sogros de Maíra Venzo também teve de ser adiado. Foto: Arquivo Pessoal/Maíra Venzo

“Meu marido sentiu bastante, mas temos que pensar no coletivo e na proteção de todos. O Natal deste ano vai ser em casa mesmo, pois gerou-se uma falsa sensação de segurança, de que tudo está bem, quando não está", alertou Maíra.

Alto risco

O caso de Maíra é similar ao da também manauara Adriana Chaves que, por sua vez, mora há 15 anos em São Paulo, onde trabalha como editora. Ela destaca que o perigo de matar a saudade presencialmente pode ser um preço bastante caro a pagar, na hora de decidir não viajar para a capital amazonense dessa vez.


A ceia de Natal de Adriana será com amigos, longe dos familiares. Foto: Arquivo Pessoal/Adriana Chaves

"Tradicionalmente passo o Natal em Manaus. Dessa vez é muito estranho, pois não encontrei motivo para enfeitar a minha casa. Talvez aconteça uma ceia com amigos. Essa minha saudade pode ter um preço caro demais. Vimos uma segunda onda na Europa e minha mãe está isolada desde março em Manaus. Ela tem 74 anos" completou.

Já a jornalista Alessandra Leite, que é de Maués, conta que "Todos os anos meus tios fazem uma grande ceia reunindo toda a família. Neste ano meu padrinho faz 90 anos e o plano era um festão em Maués reunindo a família toda, mas meus tios são todos idosos. As viagens de barco são inseguras, com lotações de até 200 pessoas, e sem distanciamento entre as redes. Parte da família vive em Boa Vista, Itacoatiara, Manaus, e todos nós íamos à Maués!" Lamentou.


Alessandra, em família, na cidade de Maués. Reencontro terá que ser adiado, segundo ela. Foto: Arquivo Pessoal/Alessandra Leite

Ressignificar como alternativa

Segundo a neuropsicóloga Eliana Monteiro, a ansiedade vivida por todos durante o período de pandemia acaba somando com o fato de as pessoas não poderem realizar atividades tradicionais, como os esperados reencontros em família.

"Estamos levando a ansiedade adquirida por conta da Covid-19 para as festas de fim de ano. Convivemos com a ansiedade na pandemia durante o ano todo e isso, é claro, interfere nas festas natalinas”, explica.


Para a neuropsicóloga Eliana Monteiro, a ansiedade pela pandemia é o maior desafio das famílias. Foto: Arquivo Pessoal/Eliana Monteiro

Para contornar esses problemas, a neuropsicóloga explica que a readaptação e a procura por alternativas para minimizar o sofrimento precisam ser prioridade para as pessoas.

“Eu recomendo, bom humor, solidariedade. Nós podemos ‘ressignificar’ os nossos sentimentos e emoções. O encontro com os familiares é um momento para se fazer presente, interagir, contar histórias. Isso irá minimizar o distanciamento”, diz, ao dar destaque para que as pessoas tenham pensamento positivo, lembrando que esse momento difícil irá, quem sabe, acabar em breve.

“Fazer novos planos ajuda a equilibrar aquele sentimento de saudade e tentar compensar. Não estou aí nesse ano, mas estarei no ano que vem! Vou estar mais presente! Vivemos um sentimento de incerteza, podemos tirar proveito do hoje, para nos fortalecer e receber um amanhã positivo", completou

Cuidado com crianças

Não são apenas os mais velhos que precisam lidar com a distância. A falta que faz os reencontros e festinhas afeta também as crianças, o que tem tornado a realização de uma ceia de Natal em casa um grande desafio para os pais. Eliana Monteiro conta inclusive que o período de pandemia ocasionou em um aumento no atendimento a crianças com ataques de pânico, ansiedade e alto nível de agressividade.

“O convívio de adultos e crianças às vezes acontece sem diálogo, a criança é afastada da escola e não sabe porque saiu, sabe que não vão haver aulas, mas não participou dessa decisão então também não compreende bem a gravidade da situação. São diversos os contextos de conflito que não são conversados com as crianças. Mas eles são como um radar, podem não saber o que está acontecendo, mas sabem que alguma coisa está errada, captam a alteração de conduta e o stress familiar”, explicou Eliana.

A família do jornalista Elvis Chaves lida com esse desafio, já que para eles, o Natal possui valor especial. “Sempre gostei de celebrar o Natal e quando me casei com a Jeane Gley, passamos a decorar nossa casa juntos, é um passatempo que nós dois gostamos. Já são 15 anos, começamos em 2005! Este ano trouxe muitos desafios, fomos infectados com a Covid-19 e foi complicado, mas a vontade de celebrar e agradecer em família só aumentou”.


O reencontro com o Papai Noel e a família de Elvis Chaves será feito em 2020 com mais cuidado do que nos anteriores. Foto: Arquivo Pessoal/Elvis Chaves

Maria Izabel, filha de Elvis, de 6 anos, acompanhou a movimentação da pandemia. “Ela ainda é muito pequena para compreender tudo que tem acontecido, mas felizmente não apresentou nenhum sintoma de ansiedade ou distorções psicológicas. Nós conversamos muito em casa”, disse.

É o que tem feito o pequeno Lucas, de 11 anos. Ele conta que a mudança de rotina da pandemia faz com que ele passe os dias em casa com o irmão fazendo atividades recomendadas pela escola. “Ah, agora preciso lembrar sempre da máscara, até já acostumei, mas não gostava. Ficamos tristes porque esse ano não vamos passar o natal com todos os primos na minha avó, mas nos falamos pelo Meet (plataforma de videochamada online)”, comentou.

Sobre a convivência em família, Eliana recomenda: “É importante partilhar os nossos mundos, assistir tv para fazer companhia a alguém da família mesmo que você não goste da programação. Também é necessário confortar, lamentar a morte de alguém é uma forma de se sensibilizar com o outro. Quando se partilha o medo, minimizamos o peso que carregamos dentro de nós”, destacou.


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