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Saxofonista vai a Belém tocar canções nos ônibus para sustentar família que mora em Manaus

Proibido de tocar nos ônibus da capital amazonense, devido uma Lei Municipal, músico viaja a Belém para ganhar a vida, onde trabalha sem impedimentos 10/08/2015 às 12:35
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O saxofonista atua há 7 anos, destes, dois dedilhando acordes em Manaus. Atualmente exerce a atividade em Belém
naférson cruz Manaus

No ônibus, ele é passageiro e saxofonista. “Músico que toca com a alma”, assim cometam os ocupantes dos transportes coletivos por onde passou, mas acima de tudo é um “bom pai”, como descrito pela mulher e filha, mesmo tendo maior parte de seu tempo distante da família.

Estas são as peculiaridades do peruano Israel Braiehwaiee, 42, que sem poder trabalhar tocando músicas dentro dos ônibus em Manaus, em razão da Lei Municipal que proíbe manifestações culturais nos transportes coletivos, empreende uma viagem por mês até a capital paraense, Belém, onde exerce a atividade sem a tal proibição.

O instrumento é companheiro inseparável. As notas musicais que tira do saxofone garantem o sustento da família e com as despesas dos estudos da filha, uma adolescente de 15 anos. As apresentações não duram pouco mais que quatro pontos ou estações, tempo máximo para que o artista gasta na tentativa de conquistar plateia.

Não havendo aplausos, é hora de troca de coletivo ou de composição. Uma jornada nesse vai e vêm pode levar até cinco horas ininterruptas, com o sax nas mãos. A recompensa geralmente é mantida em segredo, mas alguns músicos que atuam no ramo não tão específico que o de Israel, contam que num dia muito inspirado a renda pode chegar a R$ 200.

São 45 dias consecutivos e exaustivos tocando canções dentro dos coletivos. Após obter a renda, Israel, enfrenta quatro dias de viagem no regresso a capital amazonense. O saxofonista atua como músico há 7 anos, destes, dois dedilhando acordes em Manaus. Ele conta que morou em várias cidades na região Sudeste do País, mas que escolheu a capital amazonense para viver com a família.

‘Um bom pai’

A mulher, Janete Rodrigues, prefere não comentar sobre a presteza do marido, disse apenas que apesar dos percalços, ele se dedica bastante a atividade e não deixa faltar nada em casa, além de ser um bom pai.

Um dos maiores estorvos enfrentados por Israel, é a distância que o separa da mulher e da filha. “É bastante complicado se ausentar da família para trabalhar em outra cidade porque aquilo que você gosta de fazer não poder exercer na cidade escolhida para morar. A saudade é constante”, declarou o músico.

Em busca de oportunidade

“Ainda hoje, os seres humanos são levados a migrar, as razões podem ser diferentes, mas as questões sociais continuam as mesmas e debatidas como um fenômeno histórico que assola essa porção do território brasileiro, como aconteceu no período do Ciclo da Borracha. Geralmente, diversas famílias pressionadas pela falta de oportunidade de emprego e a ausência de qualquer outro meio de vida se deslocam de seu local de origem para tentar uma vida melhor em outras partes do País, sendo um fenômeno comum em nossa história. Os problemas rotineiros e as ações políticas que trouxeram um desencantamento por parte da população e logo as esperanças são desfeitas e esses pessoas partem em busca de outros meios para sobreviver”, afirma Paulo Soares Almeida, Sociólogo.

História

Natural de Lima, no Peru, Braiehwaiee, conta que chegou a participar de um grupo de músico e que faziam pequenos shows nas cidades por onda passavam. Mas depois de alguns anos decidiu migrar para os coletivos por ter passado dificuldades durante as apresentações a céu aberto.

Lei imposta

A resolução do “silêncio excepcional” (025/2012), do Conselho Municipal de Desenvolvimento e Meio Ambiente (Comdema), definiu como zonas sensíveis de ruídos os postos de combustíveis, terminais de ônibus, além do interior dos veículos de transporte coletivo em geral.

A mensagem que ressoa na vida dos passageiros

Quanto a atividade exercida dentro dos coletivos, Israel, descreve que se sente como responsável, mesmo que por alguns instantes, pela vida das pessoas. “A única proposta que tenho é me sentir feliz e alegrar que está no ônibus junto comigo”, disse o saxofonista.

Segundo ele, nos singelos minutos em que permanecem nos coletivos, os passageiros costumam lembrar dos momentos que marcaram suas vidas ao ouvirem os acordes do sax. “Isso alimenta o coração de qualquer um, é essa a mensagem de conforto e lembrança que quero passar as pessoas através do poder universal da música”, comentou Israel.

O saxofonista lembra que a dificuldade é constante e muitas vezes a matemática é ingrata. Segundo ele, não há como saber se aquele dia vai render algum trocado. “Isso depende só do meu esforço, pode não render, mas também posso receber em dobro, como as ofertas que de vez em quando aparecem para tocar em bares, restaurantes e feiras”, disse Israel, ressaltando que apesar dos dias que sobra pouco dinheiro, o “palco dos ônibus” é indispensável.

Inspiração para tocarComo uma verdadeira plateia de um show, os passageiros o aplaudem, traçam elogios e até aumentam a oferta contribuída, mas nada deixa Israel tão feliz da vida, quando ouve a quilômetros de distância a voz da filha. Para o músico, o encontro mesmo que através do contato telefônico lhe dá força e o inspira ainda mais, a levar as canções que tocam a alma das pessoas.

Nos dias que passa em Manaus, sem poder tocar no interior dos ônibus, por força da lei, Israel realiza pequenas apresentações não muito rentáveis, nos palcos da vida.

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