Domingo, 26 de Maio de 2019
Manaus

Seis anos após tragédia, haitianos que elegeram Manaus como novo lar não querem mais sair daqui

Conheça as histórias de haitianos que são apaixonados pela capital amazonense; centenas imigraram para o Amazonas desde 2010, ano do terremoto que deixou milhares de mortos na ilha caribenha



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Depois de trabalhar por quase dois anos em um restaurante da capital, o haitiano Theranor Ogiris juntou dinheiro e abriu o próprio negócio. Hoje ele é dono de um mercadinho no bairro São Jorge
12/01/2016 às 14:09

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Há exatos seis anos, depois do terremoto que matou pelo menos 250 mil pessoas no Haiti, centenas de haitianos deixaram o País em busca de uma vida melhor e, principalmente, de emprego. Entre eles, o mestre de obras Theranor Ogiris, 37, que pisou pela primeira vez em solo brasileiro, no município de Tabatinga (distante 1.105 quilômetros de Manaus), no dia 8 de novembro de 2011.

Na bagagem, poucas roupas e muita vontade de trabalhar. As dificuldades foram muitas. Nem tudo no Brasil era como ele e seus companheiros ouviam falar e a viagem de muitos chegou a durar até dois meses. Partindo do Haiti, passavam por El Salvador, Equador, e Peru, onde de Lima cortavam caminho por Iquitos até Tabatinga, no Amazonas.

A longa viagem de barco até Manaus ficou ainda mais difícil para Ogiris, que sofria de hérnia de disco e precisava de uma cirurgia de urgência. “A polícia conseguiu agilizar minha vinda e quando cheguei aqui contei com a ajuda dos padres Gelmino e Valdecir, da Paróquia de São Geraldo. Eles foram como pais para mim”. conta, agradecido.

Depois de trabalhar por quase dois anos em um restaurante da capital, o haitiano juntou dinheiro e abriu o próprio negócio. Hoje ele é dono de um mercadinho no bairro São Jorge e, apesar das vendas estarem em baixa, ele se considera um homem de sorte. A pouco mais de um ano ele conseguiu trazer a esposa e os cinco filhos para Manaus. 

“A maioria dos meus amigos estão desempregados ou foram embora porque não tem mais trabalho. Está muito difícil. Se um estrangeiro e um brasileiro disputam pela mesma vaga e cobram o mesmo preço pela mão de obra, os contratantes  optam pelo brasileiro e descartam os haitianos”.   

No entanto, o mais novo empreendedor admite que não sente vontade de sair de Manaus. “Não saio daqui para ir para outra cidade. Apesar de todos os problemas, o povo daqui é hospitaleiro e encontrei pessoas que são minha segunda família. Como os padres, por exemplo. Se um dia, por um  acaso, eles chegarem a precisar de alguma coisa, sou capaz de vender tudo que tenho para dar à eles”. 

Desemprego

Mesmo desempregado há quase 10 meses, o estoquista Paulo Venson, 35, não desanima e, com um sorriso no rosto, conta que vai continuar procurando emprego na cidade. “Vou ficar aqui em Manaus porque não existe outro lugar no Brasil que nos receba tão bem. Meus amigos e primos já foram embora porque aqui começou a ficar difícil, mas eu não vou desistir até encontrar um novo emprego”.

O amigo dele, Gabriel Anitoine, 42, chegou em Manaus há um mês e trouxe na bagagem os mesmos sonhos de Theranor Ogiris e Paulo Venson. “Quero arrumar um emprego para juntar dinheiro para mandar para minha família”, conta.

Aumento na emissão de vistos

Pata evitar que mais imigrantes fossem submetidos  as ações de organizações criminosas e dos chamados “coiotes”, em 2015, quando o houve  um aumento da emissão de vistos, na embaixada brasileira em Porto Príncipe (capital haitiana), para entrada legal de cidadãos do Haiti no Brasil.

Ainda no final do ano passado, o Governo concedeu visto de permanência  a 43.781 haitianos. Só na Polícia Federal do Amazonas, foram registrados 1.268 mil pedidos de refúgio de 2010 até janeiro deste ano.

Em 2010, foram registrados cinco pedidos. Em 2011 foram 19, seguido de 105 pedidos em 2012. Em 2013 e 2014 foram os anos que os imigrantes mais chegaram ao Amazonas, sendo 246 e 632 pedidos, respectivamente.  No ano passado, mais 259 fizeram pedidos de permanência no Estado.

Este ano, dois imigrantes já deram entrada na documentação.  De acordo com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), o Brasil emitiu até julho de 2015, aproximadamente 26 mil vistos humanitários para imigrantes haitianos, sendo 20 mil em Porto Príncipe e outros 6 mil em Quito.

Três perguntas para Valdeci Mayer, pároco da Igreja de São Geraldo

1. Como a igreja lidou com a chegada de tantos imigrantes ao mesmo tempo?

Foi um momento crítico. A polícia não estava preparada e apenas um funcionário em Tabatinga  fazia essa documentação. Tinha dias que chegavam 60 pessoas. Em 2012, quando o Governo facilitou a entrada, houve um momento em que chegavam  mais de mil haitianos em menos de 20 dias. Eles achavam que aqui conseguiriam casa e emprego facilmente. Muitos vinham com o sonho de receber um auxílio do Governo, inclusive. Teve dias em que ficávamos desesperados pois não sabíamos onde íamos hospedar tantas pessoas. Foi um sufoco, mas graças a Deus tudo ia dando certo.

2. E por que escolheram Manaus?

Na verdade, eles vinham mais de passagem ou para trabalhar, juntar dinheiro e sair do País. A vontade da maioria era subir até a Guiana Francesa e entrar na França ou nos Estados Unidos. Mas não era a melhor  opção para eles. Tanto é que a maioria deles já estão nos Estados Unidos.

3. E como está a situação dos que continuaram na cidade?

A situação mais preocupante hoje é a falta de emprego. Antes, quando chegava aquela multidão de gente, era impressionante como de repente todos iam embora. Mas agora está muito difícil.


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