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Manaus
EDUCANDOS

Sem alternativas, desabrigados já pensam em voltar à área incendiada do Educandos

Um mês após a tragédia, ainda há famílias morando em abrigo e sem receber o auxílio aluguel, que não cobre 100% os preços cobrados pelos locadores 17/01/2019 às 02:45 - Atualizado em 17/01/2019 às 09:09
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Sem receber benefícios, Sheila quer retornar ao local (Foto: Márcio Silva)
Silane Souza Manaus (AM)

Enquanto as famílias que, por pouco, não tiveram suas casas totalmente destruídas pelo incêndio no bairro Educados, na Zona Sul de Manaus, em dezembro de 2018, tentam voltar a rotina, embora ainda não tenham concluído as obras de emergência que tiveram que fazer, aquelas que perderam tudo continuam praticamente sem nada. Algumas seguem em abrigos, outras moram de aluguel, tendo que completar o valor pago ao locador, visto que o auxílio dado pela prefeitura não é suficiente. Diante isso, a vontade que elas têm é a de poder retornar e reconstruir suas moradias, devastadas pelo fogo há exatamente um mês. 

“Se liberasse o lugar, eu ia construir minha casa. Tenho um amigo que trabalha com construção e ele já disse que me ajuda. Não ia esperar pelo governo ou prefeitura. Não ia mesmo”, afirmou o técnico em eletrônica de alto-falantes Valdeci Ferreira de Souza, 57. Ele integra uma das cercas de 735 famílias, de acordo com dados da prefeitura, vítimas do incêndio, que foi considerado um dos maiores do Amazonas. 


Prefeitura só limpará a área após conclusão da perícia no local, que nem foi interditado. (Foto: Márcio Silva)

A dona de casa Sheila Menezes, 49, também quer retonar para o lugar onde morava com a família. Os motivos vão desde a dificuldade de pagar aluguel à importância que a área tem em sua vida. “Faz um mês que a gente está sofrendo. Só nós sabemos o que estamos passando. Eu quero voltar. Toda a minha história está aqui. Vivi a vida toda nesse local”, afirmou nesta quarta-feira (16) ao A Crítica, ao visitar a região incendiada. 

Sheila conta que a casa onde vivia tinha dois andares. Em cima morava sua mãe, uma irmã e os sobrinhos. Embaixo, ela com o marido, a filha e os netos. Até o momento, apenas a mãe dela recebeu o “Auxílio Aluguel”, no valor de R$ 300, concedido pela prefeitura. Ela não recebeu nada ainda. “Moramos 20 dias na casa de parentes. Agora, como as aulas das crianças estão para começar, voltamos e estamos pagando aluguel com dinheiro do nosso próprio bolso”, comentou.


Em meio aos escombros, recordações de uma vida inteira ali (Foto: Márcio Silva)

O eletricista Adaiton de Souza, 48, já recebeu o “Auxílio Aluguel”, mas relata que tem que completar com R$ 200 o valor pago pela casa onde está com a família. “Eles dão R$ 300, mas aqui nem um quartinho na beira do igarapé é desse valor. Só há promessas. Tem donativos. Mas não dar para viver só de rancho, a gente precisa de moradia”, declarou. 

Enquanto as famílias que perderam tudo no incêndio esperam por uma solução definitiva, as que tiveram parte de suas casas destruídas, mas não interditadas pela Defesa Civil de Manaus, estão fazendo os últimos reparos. É o caso do comerciante Jones Dourado, 44. “Só gasto. Já gastamos mais de R$ 5 mil na reforma. Queremos terminar até sábado. A mamãe não aguenta mais. Quer vir logo”, contou, destacando que ele ficou sozinho na residência nesse período.

E a limpeza?

A Prefeitura de Manaus informou que o prazo final para conclusão do laudo sobre as causas do incêndio é até o fim deste mês. Apenas após essa conclusão é que as ações de limpeza na área serão programadas. Com a subida do rio Negro, a tendência é que a área fique alagada nas próximas semanas.

E o auxílio?

Quanto aos benefícios concedidos às vítimas do incêndio, conforme a prefeitura, das 841 famílias que se apresentaram para cadastramento, 74 tiveram seus cadastros invalidados, por apresentarem inconsistência nas informações fornecidas, e 735 famílias foram consideradas aptas e 546 já receberam a ordem de pagamento do “Auxílio Aluguel”.

Outros 32 cadastros ainda estão em análise. Os contemplados têm até o dia 23 deste mês para irem até o Banco do Brasil para receber o benefício. 
O Município informou ainda que, após o recebimento do “Auxílio Aluguel”, as famílias, já em novo endereço, além dos mantimentos básicos, como alimentos e itens de higiene e limpeza, receberão também camas e outros utensílios domésticos.

“Toda a ajuda da prefeitura será mantida até que essas famílias restabeleçam suas vidas. No que se refere a casas definitivas, a prefeitura possui uma lista de espera para o Residencial Manauara 2, que atende à demanda reprimida por moradia, e a Subsecretaria Municipal de Habitação e Assuntos Fundiários (Subhaf) trabalha no levantamento do percentual a ser disponibilizado para essas pessoas do Educandos”, destacou em nota. 

Atualmente, informou prefeitura, recebem apoio os seguintes abrigos: Abrigo Tubinambá;  Abrigo ICDSAM;  Abrigo IDPB;  Abrigo Centro Comunitário;  Abrigo Vila olímpica. Tendo 27 famílias em abrigos e um total de aproximadamente 120 pessoas. “Esse número muda diariamente, tendo em vista que todo dia temos famílias saindo dos abrigos. Vale destacar que mais de mil voluntários se envolveram nas ações da prefeitura em atendimento às vítimas do incêndio e mais de 100 toneladas de itens já foram doados”, finalizou. 

Sem ações de curto prazo

Quanto ao que será feito na área incendiada, a prefeitura informou que essas medidas serão definidas a médio e longo prazo e que neste momento os esforços se concentram em dar o devido atendimento às necessidades emergenciais das vítimas, bem como o correto direcionamento para elas.

Benfício estadual: só 73 pagos até agora

Ainda em dezembro, o Governo do Amazonas anunciou a liberação de um auxílio no valor de R$ 900 para as famílias vítimas do incêndio, em parcela única, mas a maioria das famílias diz que não recebeu esse recurso e reclama por não ter informação se ainda será beneficiada.  

A Defesa Civil do Estado, responsável pela triagem das famílias, informou que vem adotando medidas rigorosas no processo de identificação para garantir que o auxílio seja repassado.  Até o momento, 73 famílias receberam o benefício e outras 170 já foram identificadas como aptas ao recebimento do benefício, que continuará sendo pago nos próximos dias. 

A Defesa Civil esclareceu que as famílias são chamadas de forma gradativa, por meio de contato telefônico.

Arnaldo Rocha, voluntário

"As doações diminuíram bastante, a presença de voluntário também. Mas não tem a mesma demanda de antes. No Educandos, por exemplo, só tem dois abrigos (Abrigo ICDSAM e Abrigo Centro Comunitário). Quem está neles são pessoas que estão esperando algum tipo de acordo ou que ainda não encontraram um espaço para alugar por R$ 300 que dê para toda a família. Quem quiser ajudar essas pessoas de alguma forma recomendo ir visitar esses locais para saber a demanda específica. Mas, no geral, itens de higiene pessoal, especialmente pasta de dente e desodorante, e alimento ainda são importantes porque muitas famílias que estão alocadas em casa de parente ou nas proximidades ainda vão coletar esse tipo de doação". 

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