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Manaus
CENÁRIO DE GUERRA

Sem ônibus, população de Manaus vive noite de caos, terror e descontrole geral

Ônibus incendiados, rodoviários decretando paralisação repentina, estudantes e trabalhadores deixados para trás e abandonados nas paradas e terminais 24/02/2017 às 04:29 - Atualizado em 24/02/2017 às 12:46
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Foto: Antônio Lima
Vinicius Leal Manaus (AM)

Uma noite para ficar marcada na memória dos moradores de Manaus: a quinta-feira de 23 de fevereiro de 2017. Uma noite que se encerrava como qualquer outra, o fim de um dia comum, o retorno para casa... mas que acabou como a mais assustadora paralisação de ônibus da história da cidade. Quem viu e viveu o que aconteceu nas ruas da capital amazonense na noite de ontem dificilmente vai esquecer o que se passou diante dos olhos.

Ônibus incendiados, rodoviários decretando paralisação repentina, estudantes e trabalhadores deixados para trás e abandonados nas paradas e terminais, e até um princípio de motim com “bateção de grades” na centenária cadeia pública. O resultado disso? Um cenário de guerra. Medo, tensão, desespero, correria, revolta e descontrole geral. Recado claro de como a cidade de Manaus está abandonada. Sem dono, sem ordem e sem lei.


Foto: Evandro Seixas

Às 19h, tudo parecia correr normalmente, mas logo a noite se mostraria a que veio. Quatro ocorrências de ônibus incendiados parcial ou completamente foram registradas uma após outra em várias zonas da cidade. Suspeitos armados com galões de combustível aterrorizaram e incendiaram, coincidentemente ao mesmo tempo, coletivos de várias empresas de ônibus, na Zona Oeste e Norte. Era dado o início do toque de recolher.

Rapidamente rodoviários se recusaram a continuar trabalhando e decidiram parar, de forma repentina e desavisada. “Eles estão se recusando a voltar ao tranalho. É difícil a empresa obrigar o funcionário a trabalhar numa situação dessa”, disse Fernando Borges, assessor jurídico do Sindicato das Empresas de Transporte Rodoviário  de Manaus (Sinetram).


Foto: Antônio Lima

Em pouco tempo, os operadores dos ônibus abandonaram seus postos, deixaram as ruas e se recolheram às garagens. O horário até então estipulado e divulgado para início da paralisação, 22h, não foi cumprido e já às 20h30 se via pelas principais ruas da capital coletivos circulando com letreiros apagados, alterando rotas e trajetos pela metade e deixando o usuário do transporte, desavisado, ao relento.

Era cada um por si, e ninguém por todos. Milhares de trabalhadores e estudantes do período noturno lotaram as paradas de ônibus e terminais na tentativa de pegar a última linha e, assim, conseguir chegar em casa a salvo, mas em vão... Uma multidão se formou nos pontos de ônibus e o medo de não retornar para casa – e acabar tendo que dormir na rua –, foi se transformando em desespero.


Foto: Antônio Lima

A raiva pelo descaso com a precariedade do transporte – às vésperas de uma nova tarifa a R$ 3,80 – resultou em revolta geral, e aqueles abandonados foram às ruas protestar. “Estamos aqui por falta de ônibus, contra o aumento da passagem e pela falta de respeito com os estudantes da noite. Tem gente que fica até mais tarde. Como vamos retornar para casa?”, questionou Ketllen Silva, 21, universitária que participou da interdição do cruzamento entre as avenidas Getúlio Vargas e Leonardo Malcher, no Centro de Manaus.

Em diversas outras avenidas, como Djalma Batista e Constantino Nery, estudantes universitários e de Ensino Médio montaram barricadas, queimaram pedaços de madeira e papéis, e impediram a circulação de veículos. “Estamos aqui fazendo manifestação contra a Prefeitura de Manaus, que parou o transporte público, que não supre as necessidades dos estudantes. Simplesmente estamos querendo adquirir o nosso direito de andar no transporte com segurança e de voltar para casa”, pedia Jonatas Marinho, de 20 anos, em frente ao Posto 700.


Foto: Antônio Lima

Do lado oposto dessa guerra, os motoristas impedidos de circular, moradores que também tentavam retornar para casa ou resgatar amigos ou parentes ilhados em algum ponto cidade. “Por que não pode passar? Sou um homem de 80 anos. Não tenho culpa dá falta de ônibus”, reclamou o aposentado Sebastião Ferreira, 80. Troca de insultos, agressões físicas e verbais, ânimos à flor da pele... um caos geral.

E quantas pessoas não voltaram para casa, que não conseguiram carona ou não tinham dinheiro suficiente para custear táxi, mototáxi ou até uma passagem nos Alternativos e Executivos? “Estou esperando uma carona, só tenho dinheiro da vinda e da volta. Não posso pegar nenhum Executivo ou micro-ônibus porque eu não tenho dinheiro. Estou esperando uma carona aqui, porque se não eu não iria nem para casa hoje”, disse a manicure Hortência Lira, no Terminal de ônibus 2, na Cachoeirinha.

A crise no sistema de transporte público em Manaus vem ganhando formas nunca antes vistas. Uma noite que com certeza vai ser difícil de esquecer, e que ninguém quer que se repita.

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