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DST

Sem remédio contra a Sífilis, Manaus pode registrar surto da doença

Há quase um ano o principal e mais eficaz medicamento para o tratamento da doença, a penicilina benzatina, está em falta em todo o País. Sem a medicação, muitos casos diagnosticados estão sem tratamento 17/12/2015 às 13:15 - Atualizado em 17/12/2015 às 13:16
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O diretor-presidente da Fundação Alfredo da Matta, Helder Cavalcante, alerta que os pacientes com sífilis, no Amazonas, estão sem qualquer tipo de tratamento, especialmente público ‘não-gestante’ (Antonio Menezes )
LUANA CARVALHO

Manaus é o segundo município do Brasil em detecção de casos de sífilis, com 2.162 novos registros só de janeiro a novembro deste ano, perdendo apenas para o Rio de Janeiro (RJ). Para piorar, há quase um ano o principal e mais eficaz medicamento para o tratamento da doença, a penicilina benzatina, está em falta em todo o País. Sem a medicação, muitos casos diagnosticados estão sem tratamento.

O diretor-presidente da Fundação Alfredo da Matta (Fuam), Helder Cavalcante, explica que o caso é grave. “Nós estamos preocupados, pois enfrentamos dificuldades pra tratar da maneira correta os pacientes com sífilis. Nenhuma unidade de saúde está disponibilizando a medicação. Na Fundação, nós dispomos de um estoque mínimo para tratar as gestantes. Mas e os adolescentes e adultos? Vamos tratar de que modo?”, argumenta.

O médico explica que a justificativa do Ministério da Saúde é a falta de matéria prima no mercado nacional. No entanto, especialistas acreditam que há um descaso do governo em relação ao problema. “Estamos vivendo essa agonia há aproximadamente um ano. O Ministério da Saúde tem total responsabilidade em solucionar este problema. Trata-se de uma decisão de política de saúde”, comenta Cavalcante.

Detectados

Somente na Fuam, 692 novos casos de sífilis em adultos foram detectados em 2015, um aumento de 38,7% em relação ao ano passado. Os números preocupam os médicos, que temem que o número de pessoas infectadas pela doença aumente ainda mais. “Se há escassez na matéria prima, é preciso acionar os laboratórios estatais, tomar uma providência, pois é uma questão de saúde pública e os pacientes não podem ficar sem o tratamento”, pontua.

Especialista em dermatologia infecciosa, Sinésio Talhari explica que a penicilina é o único medicamento totalmente seguro para o tratamendo de sífilis, além de ser o mais barato. “Não existe nenhuma outra doença infecciosa que você tenha um remédio com uma eficácia tão grande quanto a penicilina tem para a sífilis. Só existe registro de um caso, em todo o mundo, em que o remédio não fez efeito”.

Segundo ele, a Sociedade Brasileira de Doença Sexualmente Transmissível (SBDST) discute outras alternativas para tratar a sífilis, porém nenhuma foi considerada segura até agora. “Existem remédios que são indicados quando o paciente tem alergia a penicilina benzatina. Mas, para se ter uma ideia, a primeira opção, depois da penicilina, não pode ser usada em gestantes, pois pode causar graves danos ao bebê”.

O médico faz um alerta e ressalta que a sífilis, se não tratada, pode levar a consequências graves, como neurosífilis, problemas cardíacos, úlceras na pele e no organismo e aneurismas. “É uma doença de transmissão sexual, que na fase inicial é muito mais contagiosa. Há uma série de consequências ruins para quem não trata precocemente, que podem, inclusive, acometer o sistema nervoso central. No caso de gestantes, é ainda pior, pois sem tratamento o bebê pode nascer sem vida ou com um acometimento cerebral”, alerta.

‘Produção normalizada’, segundo MS

Em junho deste ano, quando o A CRÍTICA publicou a primeira reportagem sobre a falta do medicamento no Brasil, o Ministério da Saúde informou que havia escassez no suprimento de matéria-prima utilizada para a produção do produto. Ontem, o órgão disse que a que a indústria nacional já está produzindo a penicilina para atender a demanda no país. “Como solução do problema a curto prazo, o Ministério da Saúde realizou uma compra emergencial de 700 mil unidades de penicilina, até que os estados realizem suas licitações”, dizia a nota. Porém, o órgão ressaltou que a medida foi excepcional, uma vez que “a penicilina é um medicamento do Componente Básico da Assistência Farmacêutica, em que o Ministério da Saúde repassa recurso, mas cabe aos estados e municípios a aquisição”. A Secretaria de Estado de Saúde (Susam) e a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) não responderam até o fechamento desta edição.

Em números

2.661é o número de novos casos diagnosticados no Amazonas, de janeiro a novembro deste ano. Na Fundação Alfredo da Matta, no mesmo período, foram 692 novos vasos diagnosticados, o que representa 32% dos casos notificados em Manaus.

Transmissão e sintomas

A sífilis é uma doença sexualmente transmissível; O primeiro sintoma é um ferimento na genitália;O ferimento pode desaparecer, mas, sem tratamento, a bactéria continua no organismo;Nas mulheres, pode ser imperceptível, pois a ferida pode surgir na parede da vagina ou no colo do útero; O período mais recente da doença se estende por até um ano, com maior facilidade para transmissão;Depois deste período, começam a surgir problemas mais graves, caso a doença não seja tratada.

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