Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
Manaus

'Senti muita dor, mas assumo que a justiça foi feita', diz mãe de condenado no 'Caso Belota'

Márcia Andréa Moraes é mãe de Rodrigo de Moraes Alves, 20, condenado a 94 anos e oito meses de prisão pelos crimes cometidos contra a família Belota em janeiro deste ano. Em entrevista exclusiva ao A Crítica, ela fala, entre outros assuntos, da educação que o filho recebia em casa, seu envolvimento com as drogas e o caso que ele supostamente tinha com Jimmy Robert, a mente por trás do triplo homicídio



1.jpg Rodrigo é condenado a 94 anos e oito meses de prisão e chora ao se despedir de família
26/11/2013 às 17:39

Dor, perda e recomeço. Essas são as três principais palavras que pairam na mente de Márcia Andréa Moraes, 42, mãe de Rodrigo de Moraes Alves, 20, condenado a 94 anos e oito meses de prisão pelos crimes cometidos contra Gabriela Belota, 26, Maria Gracilene Belota, 59, e Roberval Roberto Brito, 60.

Ao receber a equipe de reportagem de A CRÍTICA em sua residência, Márcia busca forças para relembrar detalhes do caso – que ficou conhecido como ‘Caso Belota’ –, e expor, por meio do seu sentimento de mãe, como foi a vida de Rodrigo até o desfecho recebido no último sábado, a entrada de Jimmy Robert na sua história e mais detalhes sobre um dos crimes de maior repercussão no Estado do Amazonas.

A entrevista retrata muito mais do que a sensação de “fim da linha” para Rodrigo, mas a fé de uma pessoa que enxerga nele alguém além daquilo que ele mesmo imagina.

Qual o sentimento que prevaleceu após a notícia da condenação do Rodrigo?

A sensação é a de que eu enterrei o meu filho, que eu o perdi totalmente para o mundo das drogas. Ele confessou em juízo que fazia uso de entorpecentes desde os 14 anos, só que nós não sabíamos. Descobrimos isso quando ele já tinha 18 anos, ou seja, já tinha um histórico de vício difícil de ser interrompido. Antes de tudo acontecer, procuramos meios para tirar ele daquela situação, mas infelizmente não deu tempo. Nós sentimos muita dor por saber que ele vai passar vários anos na cadeia, mas sentimos muito mais pelas vidas que foram tiradas, pessoas que não eram tão próximas de nós, mas que eram nossos conhecidos. É difícil aceitar que meu filho cometeu esses crimes, mas infelizmente, ou felizmente, ele é meu filho e eu não vou abandoná-lo.

O vício foi o único motivo que impulsionou o Rodrigo a cometer os crimes?

Em partes sim. O Rodrigo teve a oportunidade de sair disso, de fugir, só que o Jimmy o perseguia muito. Ele fez uma lavagem cerebral tanto na vida do meu filho quanto na do Ruan. As coisas podiam ter sido diferentes para os dois se o Jimmy não tivesse aparecido. Ele comprava drogas para o Rodrigo, pois nós não dávamos dinheiro a ele porque já sabíamos que se déssemos ele iria comprar mais. Como ele disse em julgamento, ele começou a consumir primeiro a maconha, daí ela já não produzia o efeito desejado e ele passou a usar a cocaína. Apesar disso, ele foi capaz de confessar tudo o que fez na frente da juíza, já o Jimmy não.

Como o Rodrigo era como filho?

Ele é um homem muito amável, muito doce. Isso pode até parecer mentira e soar como: “fez o que fez e agora ele é o coitadinho, bonzinho, um filho decente”, pois é isso que as pessoas falam. Ele é sim uma pessoa prestativa. Desde pequeno ele sempre foi um menino inteligente, tirava boas notas na escola, porém as drogas o fizeram diminuir totalmente o rendimento e foi a partir desse momento que passamos a prestar mais atenção. Os amigos que conhecem não conseguem acreditar que o Rodrigo tenha sido capaz de fazer isso. Por mais que ele estivesse drogado ou alcoolizado, ele nunca me respondeu nem levantou a voz. Sempre que precisei ele esteve do meu lado, pois não sou uma pessoa de boa saúde. Sou educadora e pedagoga, e é engraçado porque eu sempre lidei com vidas, com esse resgate do mundo das drogas, e de repente isso aconteceu dentro do meu convívio familiar.

Em algum momento vocês conversaram sobre como o crime foi pensado?

Ele disse que o Jimmy pensou em tudo e está mentindo em relação a culpar a Olga. Essa mulher nunca existiu e o Rodrigo não conhece. O Jimmy quer passar a responsabilidade de ter pensado em tudo sozinho para outra pessoa. Entre eu e meu filho, sinceramente nós nunca entramos em detalhes sobre o caso. O que eu soube veio pelas informações da mídia, das investigações e do que o Rodrigo disse em julgamento. No dia do crime ele chegou a me ligar, perguntando como eu estava, se eu estava sentindo dores e tinha remédios. Pedi que ele tivesse juízo, como todos pais fazem. Antes de tudo acontecer, eles estavam bebendo e consumindo drogas. O Rodrigo disse que antes de cometer o crime, o Jimmy lhe deu dinheiro para comprar 25 gramas de cocaína, maconha e whisky.

Você acha que se o Rodrigo não estivesse sob o efeito de entorpecentes ele seria capaz de cometer os crimes?

Jamais. Ele usou tudo aquilo para conseguir coragem. Nenhum dos três seriam capazes de fazer aquilo se não tivessem usado drogas. Depois que ele cometeu o crime contra a Gabriela ele passou mal. Eu acho que ele sentiu isso pela situação e pelo uso abusivo das drogas.

O Rodrigo tem 20 anos hoje e é réu primário. O que ele sentiu após ser preso?

No início ele ficou muito assustado e chorou muito. Ele esperava que fosse condenado, uma vez que ele confessou tudo o que fez. Mas ele também esperava que fosse absolvido pelo crime de estupro. Eu acredito que ele está pensando na perda de toda a sua juventude, no arrependimento de ter matado aquelas pessoas.

O que deixaria você mais feliz como mãe hoje?

Acredito que seria ele nunca ter colocado um cigarro de maconha na boca. Foi a partir desse momento que ele começou a se autodestruir e declinar a sua vida. Como mãe, eu tenho sonhos para os meus filhos, de que eles estudem, se formem, tenham um bom futuro, mas eu não perco a esperança e jamais perderei. Peço forças a Deus todos os dias para continuar caminhando com o meu filho. Tenho esperanças de que esses sonhos ainda possam se realizar em relação ao Rodrigo e que no momento eles somente foram adiados.

Você sentiu ter falhado?

As pessoas me criticam dizendo que eu não fui uma boa mãe, que eu não soube educar o meu filho. Eu já vejo de outro ângulo, pois o Rodrigo tem um irmão que está se formando em Direito. Eu eduquei os dois da mesma forma, mas as pessoas não são iguais. Com ele, eu sempre deixei bem claro de que não iria abandoná-lo, mas que também não iria apoiá-lo no que ele tinha feito. Ele fez uma coisa absurda e ele vai pagar pelo que fez. Eu senti muita dor como mãe, mas assumo que a justiça foi feita. Eu tenho certeza que depois que ele for solto ele será outro homem. Também creio que pela justiça divina ele será perdoado.

Quais eram os sonhos dele?

O Rodrigo tem duas filhas e é apaixonado por elas, então ele sempre dizia que seria muito feliz se tivesse uma casa, um carro e um local pra receber elas. Ele também falava que tinha o sonho de ter um bom emprego com um salário razoável pra comprar o que quisesse, como todo jovem. Porém, ele foi buscar isso de uma maneira fácil, que é também a mais errada. Ele nunca teve isso como exemplo, pois ele via a minha luta pra ter o que eu tenho hoje. Na época, foi como se as coisas fossem escapando das nossas mãos sem que pudéssemos controlar. Tudo isso resultou num caminho sem volta pra ele.

O que ele alega sobre ter fugido do Ipat? Como você se sentiu?

Ele fugiu para não morrer. Outras pessoas que gostavam dele lá dentro armaram pra ele fugir, pois segundo eles, se ele continuasse lá ia servir de isca e acabar morrendo. Eu fiquei muito desesperada. Após ele ser recapturado, ele disse pra mim na delegacia que se não tivesse fugido já teria morrido, pois lá é a lei da sobrevivência e ele tinha que obedecer as regras. Por isso, estamos buscando a permanência dele no CDP, onde lá ele já foi aceito pelas pessoas. No CDP ele tem a oportunidade de estudar e terminar o ensino médio. Dentro do Ipat, o Rodrigo não teve chance pra nada. Lá, nunca vi um culto, uma missa, nem ninguém que pudesse levar alguma palavra de conforto para os internos e para as pessoas.

Em relação à dúvida que surgiu em torno do estupro da Gabriela, o que você pensa sobre isso?

Ele não fez isso. Nesse sentido, eu acho que a justiça falhou um pouco. Ele assumiu todos os crimes que cometeu e disse que se tivesse praticado o estupro, ele também iria assumir nem que tivesse que pagar com a própria vida. A moça estava vestida, como ele iria praticar o ato e depois vesti-la novamente? Na primeira análise feita no IML, não encontraram vestígios de espermatozoide na Gabriela. Depois disso, outros exames foram feitos e acusaram que existia, como assim? O Rodrigo falou que não realizaram nenhum tipo de coleta de sêmen ou sangue para provar o DNA. Essa situação indefinida foi criada pra que ele também fosse condenado por estupro, tanto é que no julgamento ele teve três votos a favor. Na delegacia, ele infelizmente assinou várias coisas e sofreu diversos tipos de agressão. No caso do estupro, ele vai pagar por uma coisa que não cometeu. Eu temo pela vida dele caso ele seja transferido do CDP (Centro de Detenção Provisória) para um complexo com o regime fechado.

Como começou o envolvimento do Rodrigo com o Jimmy?

Antes de tudo isso acontecer, eu não sabia do envolvimento dele com o Jimmy, muito menos que eles tinham um caso. Para mim, ele disse que conheceu o Jimmy em uma festa de amigos, mas não se falaram mais depois disso. Um tempo se passou e os dois se encontraram novamente no sambódromo. Lá, o Jimmy ofereceu uma carona ao Rodrigo e eles mantiveram contato por um longo tempo. A partir daí, com o Rodrigo já viciado e precisando de alguém que pudesse suprir essa necessidade, o Jimmy começou a dar coisas a ele que eu não tinha condições de oferecer e nem daria, como roupas caras e vários tipos de luxo.

Quais as promessas feitas pelo Jimmy ao Rodrigo?

Ele tinha prometido parte da herança. Disse que dividiria o dinheiro com ele e com o Bruno e isso mudaria a sua vida. Porém isso jamais iria acontecer, ele não iria conseguir deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz.

No tribunal, muito se foi falado em relação à sexualidade do Rodrigo e qual era a sua verdadeira orientação. Como se explica isso e o fato dele ter negado ter mantido um relacionamento amoroso com o Jimmy?

Eu nunca tive contato nenhum com o Jimmy e nem sabia da sua homossexualidade. Quem via o Jimmy era o pai do Rodrigo e ele contou que sempre que o mesmo ia buscá-lo, havia outra pessoa no carro, ou seja, não podíamos tirar conclusão nenhuma. Mas se o Rodrigo se envolveu com ele, foi pelo dinheiro, pelas drogas, pelos sonhos de consumismo. Se o Jimmy disse que houve sim uma relação amorosa, foi algo totalmente superficial. Eu creio que o meu filho seja heterossexual, mas também se não for ele vai continuar sendo o meu filho e eu não deixarei de amá-lo.

Você perdoaria o Jimmy?

Eu tento, oro muito para que Deus me conceda esse dom do perdão, mas infelizmente eu não consigo. Apesar disso, eu também oro pela alma dele, pelo que ele sofreu, pois ele está muito doente. Alguém que planeja uma coisa dessas e envolve outras pessoas não é uma pessoa normal. Eu não tenho contato com ele e nem quero ter, mas continuo buscando o perdão necessário para me sentir melhor.

Se você pudesse dizer algo à família Belota depois de tudo, o que diria?

O crime foi cometido contra pessoas que nós conhecíamos, os meus pais tinham uma convivência com membros da família Belota. Hoje, o que eu poderia dizer aos membros da família Belota é pedir que eles pudessem perdoar o meu filho. Eu sei que é muito difícil, assim como eu não consegui perdoar o Jimmy, mas o perdão é um dom de Deus, e aprender a amar aqueles que nos fazem mal também. Eu peço e oro todos os dias pra que um dia eles possam ser capazes de fazer isso e também perdoar o Jimmy e o Ruan, porque eles também precisam disso.

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