Terça-feira, 23 de Julho de 2019
MÃOS AMIGAS

Serviços oferecidos por entidades ajudam refugiados e migrantes em Manaus

Em busca de esperança, refugiados e migrantes estão procurando atendimentos em entidades. O desejo é recomeçar a vida longe do país natal



aa1_11C2E88B-CFA5-4CEE-963D-415415ADFC22.JPG Foto: Junio Matos
21/06/2019 às 05:30

Há cerca de um mês, a professora de ensino infantil Glena Josefina Figuera, 46, deixou seus dois filhos aos cuidados da mãe e do marido na comunidade de San Félix, no estado de Bolívar, distante cerca de 677 quilômetros de Caracas, para fugir da crise venezuelana.  Na capital amazonense, contudo, sua situação não melhorou muito: trabalha como vendedora ambulante - “Eu era morena, estou ficando negra de tanto caminhar” – e divide espaço com outros onze conterrâneos numa casa no bairro São José II, Zona Leste.

“Preciso arranjar dinheiro até o fim desta semana. Caso contrário, serei obrigada a deixar o local”, lamenta Josefina, especializada em Educação e Inovação. “A situação na Venezuela está difícil. Tive que vender minhas coisas para viajar”. Na manhã da última terça-feira (18), ela buscou ajuda para conseguir emprego e fazer ligações para a família, alguns dos serviços oferecidos pelo Centro de Apoio e Referência a Refugiados e Migrantes (Care), no bairro Cachoeirinha, Zona Sul.

No mês passado, foram realizados 1.225 atendimentos no local, organização da sociedade civil financiada pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e pela Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA).

“Aqui recebemos toda espécie de profissionais, como professores, médicos e engenheiros”, conta a psicóloga Sara Zahn, que atua também como vice-coordenadora da agência, cujo atendimento prévio é realizado por voluntários. Sara faz a triagem do público que chega ao local e as direciona para o setor específico – há casos, no entanto, que exigem maior cautela.

“Mulheres e crianças desacompanhadas, por exemplo, são classificadas em níveis de complexidade. Precisamos verificar, antes de tudo, se a pessoa dispõe de uma estrutura de apoio aqui”, explica.

Josefina faz parte do contingente de 3.694 refugiados venezuelanos que aportaram no Amazonas em maio, de acordo com dados da Polícia Federal. Em 2017, esse total equivalia a 2.180 pessoas: no ano passado, aumentou para 10.101. Os venezuelanos formam a maior parte dos exilados no Amazonas, que concentra o segundo maior número de pedidos de refúgio dentre os Estados brasileiros (16 mil). Roraima figura em 1º lugar (83 mil), segundo a PF.

“Os processos de solicitação são avaliados pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare) e, posteriormente, essas pessoas podem ser reconhecidas como refugiados”, explica Lucas Nascimento, Assistente de Soluções Duradouras do ACNUR.

Segundo a Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), os números são variáveis por conta da dinâmica de comportamento de refugiados no Estado, uma vez que nem todos são registrados ou fazem a solicitação de refúgio. Além disso, o fluxo de saída e chegada de migrantes muda diariamente. Segundo levantamento do órgão, cubanos e colombianos frequentam, respectivamente, o segundo e o terceiro lugar do ranking de refugiados atendidos no Posto Avançado de Atendimento Humanizado ao Migrante na rodoviária de Manaus, lugar que se tornou uma espécie de abrigo daquelas famílias.

O Care mantém parceria com o Sistema Nacional de Empregos (Sine) e oferece uma série de serviços, como atendimento jurídico e psicológico, orientação sobre programas sociais e agendamento para solicitação de refúgio, além de cursos profissionalizantes, cujas modalidades variam de acordo com as parcerias com empresas e órgãos governamentais.

Extensa semana

Principais destinos  dos cidadãos que fogem da crise venezuelana, os Estados de Roraima e Amazonas receberão nesta semana extensa programação alusiva ao Dia do Refugiado.

Em Boa Vista, as atividades seguem até sábado, e incluem rodas de conversas, apresentações culturais, torneios esportivos e a formatura da 1ª turma de venezuelanos que participaram do projeto “Oficinas de Acesso e Integração ao Mundo do Trabalho”. Pacaraima, a 215 km de Boa Vista, terá exposição de fotos e sessão de cinema hoje.

Em Manaus acontece a caminhada #ComOsRefugiados, no Largo São Sebastião, sábado, às 8h. Haverá exibição de filmes, e confraternização e oficinas para refugiados no Care, no domingo, às 10h. Os eventos são promovidos pela ACNUR e parceiros.

Há mais de 10 mil refugiados

Dados do 3º Relatório “Refúgio em Números”,  elaborado pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare), mostram que, em 2017, o Brasil tinha um acumulado de 10.145 refugiados reconhecidos e pouco mais de 86 mil solicitações de reconhecimento em trâmite. A Síria é o país da maioria dos refugiados com maior número acumulado (39%). Ainda segundo o registro, a maioria dos refugiados está na faixa etária dos 30 a 59 anos, e os homens respondem pela maior parte dessa população (71%).

Segundo dados da Polícia Federal publicado neste relatório, Manaus registrou 2.864 pedidos de reconhecimento da condição de refugiado em 2017, o que corresponde a 8% das unidades federativas brasileiras no mesmo contexto.

 À esq., Freddys Martinez, que concluiu curso de orientação profissional. Foto: Junio Matos

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