Terça-feira, 20 de Agosto de 2019
RECLAMAÇÃO

Servidores denunciam desvio de função e corte de refeição em hospitais de Manaus

Falta de materiais e funcionários, além de problemas na refrigeração também são queixas da comunidade nos hospitais 28 de Agosto e Platão Araújo, em Manaus



26/10/2018 às 06:58

Quem atua diariamente nos hospitais e prontos-socorros 28 de Agosto, na Zona Centro-Sul de Manaus, e Platão Araújo, na Zona Leste, testemunha a precariedade existente no sistema de saúde público do Estado. Quartos sem refrigeração, poucos funcionários e enfermeiros para atender a alta demanda de pacientes e falta de lençóis no setor de pediatria, além do desvio nas funções e falta de materiais.

“Há duas pessoas apenas para atender na medicação, isso em doze horas de plantão, todo o dia é assim. Uma para fazer medicação e outra para aplicar e aí, se for na hora do almoço, já viu a complicação, fica só uma para atender. Aqui é um hospital de urgência, o maior da Zona Leste, vem muita gente e tem pouco funcionário. Nas enfermarias fica dois técnicos de enfermagem para tomar conta de mais de trinta pacientes”, contou um dos funcionários que procurou o Portal A Crítica para denunciar o descaso. Temendo represálias, ele preferiu não se identificar. 

Outras servidores reafirmam a denúncia sobre a situação do HPS Platão Araújo localizado na avenida Autaz Mirim. “Há muito desvio de função, pessoas que são enfermeiras fazendo o papel de administrativo. Tem uma que é técnica e está no centro cirúrgico como enfermeira. Há vários desvios. Se está faltando funcionário e você ainda tira, sobrecarrega quem está na ativa colocando a mão na massa. Tem colega que fica com 16 pacientes, não dando conta de dar um atendimento de qualidade às pessoas”, relatou outra servidora, que também não quis se identificar.

“Outro absurdo são os pacientes, principalmente crianças e idosos, entrarem no centro cirúrgico de cueca ou calcinha. O hospital não está comprando fralda, nem para crianças e nem para adultos. Na Observação Infantil, as mães e crianças ficam no frio porque não há lençóis. Cortaram a refeição de merenda, os desjejuns que vão de 5h15 até 6h45 são um cafezinho e pedacinho de pão, o almoço só vem às 11h. As crianças choram com fome, tudo porque cortaram o lanche que seria às 9 horas”, criticou a enfermeira.


 

Outra enfermeira, do setor de pediatria, lamentou a falta de lençóis na unidade. “Primeiro a dificuldade é o pessoal, geralmente são quatro técnicos de enfermagem, e atualmente estamos com duas, e às vezes três técnicos. Aí a gente se vira para resolver o problema e nós sabemos que a pediatria é um setor crítico, são pacientes delicados porque são crianças. Chega a internação e infelizmente, a gente coloca a criança direto no colchão porque não tem lençol”, disse a profissional. “É de dar dó porque eu, como funcionária e como mãe, me parte o coração ver isso, mas o que podemos fazer?”, questionou.

A enfermeira disse que trabalha no local há muitos anos e, agora, viu o hospital chegar ao “extremo”. “Se eu pudesse faria uma cota para comprar lençol. Não é um item caro e mesmo assim não temos, não mandam mais fazer. É difícil trabalhar assim e é difícil ver isso. Dizem que a saúde está boa, mas não vemos isso, porque lá no hospital não está”, disse ela.

Risco aumenta

No Platão Araújo a denúncia é de falta de ar condicionado há mais de uma semana. “A situação está muito difícil. Eu mesmo peguei uma bactéria porque é muito quente aqui, o ventilador fica jogando as bactérias pelo ar”, disse um dos pacientes internados na unidade.

Problemas também no 28 de Agosto

Servidores e acompanhantes de pacientes nas dependências do HPS 28 de Agosto, localizado na avenida Mario Ypiranga, denunciam que quartos estão sem ar-condicionado há semanas.

“No terceiro andar não tem refrigeração, eles não querem saber de colocar uma nova central, consertar, porque não tem dinheiro. Todos os pacientes estão na quentura e isso já faz dois meses. Quem deve arrumar é uma terceirizada e não arrumam nada. Os pacientes estão passando mal e é dessa forma que está”, ressalta a denunciante.


Após a meia noite, muitos pacientes e acompanhantes à espera de medicamentos. Foto: Reprodução

Conforme o grupo de funcionários da saúde dos hospitais, as irregularidades serão levantadas e denúncias devem ser formalizadas em órgãos como Ministério Público do Estado (MP-AM), Conselho Regional de Enfermagem do Amazonas (Coren) e Secretaria de Estado de Saúde (Susam).

Resposta da Susam

Questionada sobre as denúncias, a Secretaria de Estado de Saúde (Susam) destacou em nota que  revitalizou o sistema de refrigeração de todas as unidades da rede de saúde na capital, “encontrado em situação crítica pela atual gestão, em outubro do ano passado”.

"Foi feita a manutenção corretiva e a substituição de aparelhos sem funcionamento por novos. Ao todo, foram adquiridos 304 condicionadores de ar novos e outros 200 estão em fase de aquisição para garantir que a situação encontrada ano passado não volte a se repetir”, ressaltou a pasta. 

No texto enviado à redação, a Susam informou que situações pontuais podem acontecer, quando algum equipamento apresenta problema por exemplo. “Mas sempre que isso ocorre é resolvido de imediato, porque a secretaria hoje tem contrato de manutenção para as unidades”, completou.

Quanto aos funcionários, a secretaria informou que os contratos são realizados de acordo com a demanda dos prontos-socorros, que podem ter situações de pico por serem porta aberta e, portanto, a obrigação de atender a todos os pacientes que as procuram. 

Na resposta à reportagem, a secretaria ressaltou ainda que investiu em abastecimento de medicamentos e materiais hospitalares. “Somente este ano já foram empenhados cerca de 170 milhões pela Central de Medicamentos do Amazonas (Cema)”.

500 aparelhos novos

No fim de agosto, o secretário de Saúde, Orestes de Melo Filho, anunciou a ampliação de leitos no HPS Platão Araújo, 28 novos, que seriam concluídos ainda neste ano. “A intenção é dar celeridade na resolução dos problemas e melhorar o atendimento das pessoas que estão aqui em tratamento”, declarou Orestes de Melo Filho à época.

O secretário também anunciou tratativas para a substituição de aparelhos de ar-condicionado antigos por novos, para melhorar o sistema de refrigeração do prédio. A promessa era de instalação de 500 novos aparelhos, sendo que 300 já haviam sido adquiridos  e estariam sendo instalados, enquanto  outros 200 estavam  em fase de aquisição.

“A expectativa, com isso, é recuperar o sistema de refrigeração das unidades, que encontramos com sérios problemas”, reforçou o secretário estadual de Saúde, em setembro.

Receba Novidades

* campo obrigatório

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.