Domingo, 28 de Fevereiro de 2021
OPERAÇÃO VIDA

O dia a dia dos policiais que se arriscam para servir e proteger na pandemia do AM

Policiais civis têm atuado diariamente na logística e proteção de insumos aos hospitais de Manaus, entre eles um que virou item valioso: os cilindros de oxigênio



CAPA_JUNIO_MATOS_D373E87D-2679-4AE4-8036-642E5B5A4C70.JPG Foto: Junio Matos
24/01/2021 às 00:30

“Eu sei que ela fica muito preocupada, mas ela sabe que estamos salvando vidas de trabalhadores, de pessoas de bem”. O delegado Juan Valério, coordenador do Grupo Força Especial de Resgate e Assalto (Grupo Fera) da Polícia Civil (PC), foi às lágrimas ao recordar as orações feitas pela mãe dele, uma senhora de 75 anos, que vela pela proteção do filho durante trabalhos de transporte de oxigênio, realizados pela polícia, nos últimos dias, em Manaus e no interior do estado.

Até agora, a polícia distribuiu pelo menos 665 cilindros de oxigênio que foram adquiridos por grupos envolvidos na arrecadação dos recursos e que colaboraram com a PC para distribuição e escolta dos produtos. A CRÍTICA acompanhou o momento em que policiais civis receberam cilindros de oxigênio transportados para Manaus por avião. A equipe de reportagem conversou com Juan Valério, no Terminal de Logística de Carga (Teca) do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, situado na Zona Oeste da capital.



O delegado contou sobre as preocupações da mãe, que fica aflita com o trabalho do filho, que exige que ele esteja presente em aglomerações, diariamente, em áreas com alto risco de contágio. “Ela, muito devota, ora muito, sempre quando eu posso passar em casa. Isso tem comovido muito a base e nos ajudado a continuar. Temos tomado muito mastruz e açaí também”, disse Valério, interrompendo o momento de declaração emocionada com risos.


O delegado João Valério relembra os conselhos de sua mãe para evitar contágio na pandemia. Foto: Junio Matos

Além de um primo, o delegado tem tios e conhecidos próximos que foram diagnosticados com o novo coronavírus. “Alguns faleceram. Às vezes, não dá tempo de lamentar, só de continuarmos na guerra. Tomamos todos os cuidados possíveis para não nos infectarmos, porque, senão, são menos guerreiros no front”, disse. Até o momento, Valério não foi infectado.

Durante as ações de transporte de cilindros, o coordenador do Fera relatou que a maior dificuldade é vencer o tempo. “É uma corrida contra ele. Quando um cilindro acaba, temos apenas alguns minutos. Quando isso acontece, sabemos, que, se não agirmos rápido, uma pessoa morrerá”.

A chefe de gabinete da Polícia Civil, Akerna Marques Chagas Corado, emocionou-se ao conversar com a equipe de reportagem no aeroporto internacional de Manaus, durante o início do transporte de cilindros de oxigênio. “Com essa ação, já foi possível ‘ressuscitar’ vários pacientes que haviam entrado em parada cardiorrespiratória. Essa é a missão mais importante da minha vida, em meus 20 anos de polícia”, disse. 


Apesar de lidar com o crime diariamente, Akerna Corado definiu a missão na pandemia como a mais importante. Foto: Junio Matos

Trabalho ininterrupto

Os trabalhos da polícia começaram na quinta-feira (14), sob autorização da delegada-geral da PC, Emília Ferra. A ação é focada no transporte de cilindros a hospitais da capital, que são recebidos de influenciadores digitais do país, empresários e cidadãos anônimos. Além de efetuar o transporte do recurso, as equipes policiais também escoltam o material, para evitar furtos ou depredações, visto que estoques de oxigênio se tornaram produtos de grande importância em Manaus, em meio à lotação dos leitos hospitalares da cidade.

Valério recordou momentos calorosos junto aos familiares de pacientes internados nas unidades de saúde auxiliadas pela ação policial. “É muito tocante quando uma pessoa nos aborda e diz que seu familiar está se recuperando bem, porque conseguimos chegar a tempo no hospital. Quando alguém nos aborda assim, às vezes chorando, renova nossas energias”, contou.


Desde quinta-feira, os trabalhos da ação policial têm sido ininterruptos. Policiais integrantes da atividade têm dormido nas bases de operação. 

Os policiais também contam com a ajuda de voluntários dispostos nas unidades hospitalares com a intenção de distribuir água e comida aos agentes públicos. “É muito bom ver essa solidariedade, porque, por vezes não conseguimos comprar comida, nem água”, relatou Valério.

O delegado afirmou que se surpreendeu com a receptividade das pessoas, tanto familiares de internados, quanto profissionais da saúde, que receberam os agentes com agradecimentos e orações. “Achávamos que poderíamos ser hostilizados, mas o comportamento da população foi outro”, afirmou.

Na noite de sexta-feira (15), o Grupo Fera entregou pelo menos oito cilindros de oxigênio de 50 metros cúbicos, medicamentos e máscaras de proteção a unidades de saúde do estado. Os recursos foram adquiridos por meio de doação de empresários e influenciadores digitais, que conseguiram comprar os recursos, mas que estavam com dificuldade de transportá-los. Circularam vídeos, em redes sociais, onde os policiais são recebidos com aplausos, nas unidades de saúde onde entregaram os materiais.

Trabalho fora do habitual

Juan Valério comentou, ainda, a respeito da utilidade do treinamento especial do Grupo Fera, que se mostrou imprescindível ao cumprimento do serviço humanitário.

“Houve treinos, no curso que fizemos, que achávamos que nunca seria aplicado na prática, na segurança pública. Em determinados treinamentos, nossos integrantes ficam acordados e sem alimentos durante vários dias. Achei que nunca precisaríamos daquilo, mas, hoje, vejo que fomos forjados para esse momento”, disse. 

Na noite anterior à entrevista, Valério havia conseguido dormir duas horas. Os policiais aproveitam as longas viagens a hospitais do interior para cochilar dentro das viaturas.


Grande parte da articulação para recebimento de insumos para a pandemia tem auxílio de policiais. Foto: Junio Matos.

O Grupo Fera foi criado, oficialmente, em 27 de setembro de 1999. Na época, os integrantes da equipe eram conhecidos como “Homens de Preto”. Essa divisão da PC atua em trabalhos que envolvem elevado risco de morte.

Os membros do Fera passam por treinamento diário que envolve a prática de artes marciais como boxe e jiu-jítsu, além de capacitação em técnicas de abordagem e revista. Os policiais do grupo também são treinados em combates em ambientes confinados, modalidade que é conhecida internacionalmente pela sigla inglesa CQB, “Close Quarter Battle”. Os profissionais lotados na divisão também possuem certificação no Curso de Operações Táticas Especiais (Cote).

Em dezembro de 2003, o Grupo Fera atuou em um caso de repercussão. Um roubo realizado a uma agência bancária do município de Maués, distante 276 quilômetros de Manaus, havia gerado a morte de um policial civil, que foi baleado com tiros de fuzil. Os autores do crime haviam fugido e passaram 45 dias escondidos em uma região de mata. À época, policiais do Fera embarcaram em aeronaves do Exército Brasileiro e foram até a região, com a missão de capturar os criminosos.

Críticas

Internautas criticaram, em redes sociais, as formas de manuseio e posicionamento dos cilindros de oxigênio, durante a ação de transporte realizada pela polícia. Valério afirmou que a situação de urgência exige a quebra de protocolos, mas garantiu que métodos de segurança estão sendo assegurados para que não haja acidentes durante o transporte dos recursos.

“Nós estamos em uma situação extrema, que requer medidas extremas. Estamos com economia, procedimentos e logísticas de guerra. Claro que tomamos cuidado, mas o importante é salvar vidas. Não há como um transporte totalmente especializado fazer essa condução, porque não há meios suficientes para fazer o transporte cem por cento adequado”, disse.

A autoridade salientou que civis precisam solicitar apoio técnico para realizar o transporte de cilindros de oxigênio. “Apesar de transportamos os recursos em picape, nós estamos acondicionando os cilindros para que um não bata no outro, além da executarmos outras medidas de segurança para minimizar qualquer efeito colateral”, afirmou.

Valério pediu para que a população respeite o trabalho de transporte dos policiais, ao afirmar que alguns motoristas furam os comboios realizados pelas equipes, durante o transporte de recursos a hospitais.

“Alguns querem ‘pegar carona’ com o comboio. Às vezes, somos forçados a parar o trânsito e alguns motoristas reclamam e buzinam. Eu peço que compreendam que um minuto, apenas, é vital para salvar a vida dos internados. Peço aos condutores que abram caminho caso vejam uma viatura, caracterizada ou não, com a sirena ligada. Temos perdido tempo com essas situações”, disse.

As equipes policiais percorrem o bairro Distrito Industrial, localizado nas Zonas Leste e Sul, com o objetivo de recarregar cilindros, em empresas que oferecem o serviço e cooperação.

Polêmica

Na noite de quinta-feira (14), a polícia apreendeu 33 cilindros da empresa Fênix Comércio, do ramo de fornecimento de gás industrial e medicinal, atuante em Manaus há pelo menos 20 anos. Na ocasião, as equipes policiais haviam recebido uma denúncia de que um homem estava retendo cilindros de oxigênio com o objetivo de gerar especulação.

Após a apreensão, os policiais distribuíram os cilindros em unidades de saúde da capital. Uma das donas da empresa, Heliana Martins, 50, conversou com a equipe de reportagem e afirmou que a ação da polícia havia sido injusta. Ela disse que o caminhão do qual foram apreendidos os cilindros havia se afastado da sede da empresa com o intuito de evitar aglomerações e não para gerar especulação em cima do produto.

Juan Valério afirmou que o procedimento legal necessário à situação foi feito e que a polícia confirmou, no local onde a ação ocorreu, elementos de irregulares, armazenamento e distribuição. “Fizemos a oitiva das pessoas da empresa, acompanhadas de advogados. Não houve nenhuma arbitrariedade ou ilegalidade”, disse.

O delegado afirmou, também, que propriedades apreendidas ficam sob disposição da Justiça ou de um depositário. Visto que os cilindros ficaram com o Estado, foi decidida a distribuição dos cilindros a hospitais em decorrência da emergência provocada pela falta de oxigênio.

A autoridade policial homenageou o trabalho dos profissionais de saúde. “Nosso serviço é mínimo, de escolta e transporte. Eu enfatizo que os verdadeiros heróis são eles. Nós apenas deixamos as cargas de oxigênio nas unidades e saímos. Eles continuam lá, cuidando dos pacientes. Somos apenas coadjuvantes, dando apoio no que é possível. O Grupo Fera foi treinado para situações extremas, que é o que estamos vivendo”, disse.

Além do Grupo Fera, policiais do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS), do Departamento de Investigação sobre Narcóticos (Denarc), dentre outras divisões, estão atuando na ação de transporte e escolta de cilindros de oxigênio e materiais úteis às unidades de saúde.  Os trabalhos continuam.


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