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Símbolo do tempo áureo da borracha, Porto de Manaus é ‘retrato’ do abandono

Uma das principais portas de entrada para a cidade, o terminal hidroviário padece com a má gestão. Há muito lixo no chão, faltam banheiros, lanchonetes e até bancos para sentar 23/06/2015 às 17:07
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Até mesmo o PAC, que atraía a população, deixou de funcionar no local.
Luana Carvalho Manaus (AM)

Um porto flutuante que já foi majestoso: carregado de história, mas ofuscado pelo abandono. Uma das principais portas de entrada para a cidade, o Porto de Manaus padece com a má gestão. Há muito lixo no chão, faltam banheiros, lanchonetes e até bancos para sentar. E essas são apenas algumas das dificuldades que visitantes encontram ao desembarcarem na capital do Amazonas.

No salão que deveria abrigar restaurantes e lanchonetes, existem apenas três stands de artesanatos que mal são visitados, pois a população não conhece o local.

“Nos cederam este espaço enquanto o Centro de Artesanato Branco e Silva, onde trabalhamos, está em reforma. Passamos dias sem vender nada. A nossa sorte é quando atraca um navio”, contou uma das artesãs, que pediu para não ter o nome divulgado.


O pedreiro José Raimundo, 59, costumava visitar o porto “nos tempos bons”, quando, segundo ele, “o povo era bem recebido”. “Realmente acho que o porto está precisando de uma grande reforma. A gente vê o povo chegando de fora, principalmente os turistas, e encontram uma decepção desta. As autoridades poderiam tomar um pouco de vigilância sobre o Porto de Manaus, porque essa cidade atrai muitas pessoas de fora”, disse, enquanto observava a marcação da cota do rio Negro, na última quinta-feira.


A população ficou até sem a  unidade do Pronto Atendimento ao Cidadão (PAC), que foi transferida para Galeria Popular dos Remédios, no final do ano passado. “Antes muita gente procurava o porto por causa dos serviços do PAC. Hoje, nem isso. Ficou este enorme espaço sem uso”, comentou o carregador Joelson Santos, 55.

O comerciante Adnaldo Barbosa, 47, lembra com saudades da época em que tomava um chope, todas as tardes, no cais do porto. “Era um pouco bagunçado, sim, mas pelo menos os espaços eram utilizados pelo povo. Hoje a gente vê esse porto lindo, vazio, se acabando. Dá até dó”.

‘História apagada’

Construído em um cais flutuante e projetado por ingleses, o porto foi inaugurado em 1907, quando a cidade vivia o apogeu da época áurea da borracha. Mas desde a privatização do Porto de Manaus, em 2001, durante a gestão do ex-governador Amazonino Mendes, parte desse patrimônio histórico  se perdeu em meio a impasses, disputas judiciais e obras interrompidas.

O abandono do Museu do Porto de Manaus, criado em 1985, é um exemplo vivo disso. Hoje, o museu está fechado e muitos manauaras não sabem nem da existência desse importante espaço.

O diretor de engenharia e operações da Companhia Docas do Maranhão (Codomar), Silvio Romano, informou que, desde dezembro do ano passado, quando a Justiça Federal devolveu a administração do porto para os arrendatários, a União vem recorrendo para que o espaço volte a ser administrado pela Codomar.

“Enquanto não há uma decisão, não podemos deixar que a população padeça eternamente. Nós estamos tentando readequar os contratos, que já estão mais que defasados, para trazer melhorias ao porto e para que a gente possa fiscalizar, mesmo que nós não exerçamos o papel de administradores”, declarou.

Sobre as obras paralisadas, ele explicou que, como estavam sendo realizadas pelo governo federal, o mesmo cortou os recursos com a decisão da Justiça.

“Eles entenderam que a responsabilidade agora é de quem administra. A obra está paralisada e o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) ainda não devolveu para a Codomar para que a gente repasse para os administradores”. Procurado, o diretor do Dnit local, Fábio Galvão, se limitou a dizer que o órgão não é mais autoridade portuária desde agosto de 2014.

A administração do porto foi procurada para falar sobre os problemas expostos nesta reportagem, mas até o fechamento desta edição não respondeu aos questionamentos.

Pontos

História feita de imbróglios e impasses, o porto passou por um processo licitatório em 2001;  A empresa da família do ex-senador Carlos Alberto De’Carli venceu o processo; Em 2003, sob o governo de Eduardo Braga, o Estado entrou na Justiça para  retomar a posse do porto; Uma liminar repassou a concessão  para Companhia Docas do Maranhão (Codomar); A família De’Carli  voltou a recorrer na Justiça após o governo federal anunciar a reforma do local; A Codomar e o Dnit, elaborou o projeto de revitalização, avaliado em R$ 200 milhões; Durante as obras, outra liminar da Justiça devolveu a administração à família do ex-senador e os trabalhos pararam. Obras paralisadas por conta de briga judicial.

 

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