Domingo, 26 de Maio de 2019
SEM MORADIA

Sobrevivendo: censo aponta que mais de mil pessoas ‘moram’ nas ruas de Manaus

Problemas familiares e vícios são os principais fatores que fazem as pessoas chegarem à situação de rua, segundo o censo realizado pela Gerência de Atenção à População em Situação de Rua da Sejusc diariamente



rua_123.JPG
Jorge e Cristiane improvisaram uma moradia próxima a uma delegacia. Foto: Euzivaldo Queiroz
12/04/2018 às 05:27

Quando tinha 11 anos, Jorge Cavalcante Ferreira perdeu a mãe e foi abandonado pelo pai. Como não teve apoio do resto da família, precisou sair da casa onde vivia no bairro Raiz, na Zona Sul da capital, e há 30 anos fez das ruas um lar improvisado. Hoje, com 44 anos, o homem é uma das 1.289 pessoas que não tem onde morar em Manaus, conforme levantamento da Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc).

No censo que está sendo feito continuamente pela Sejusc desde 2015, até novembro do ano passado, pelo menos 260 pessoas viviam nessas condições apenas no Centro da cidade.

 A casa improvisada que Jorge construiu desde janeiro para morar com a companheira Cristiane Ritalina Custódio, 38, fica na rua Jonhatas Pedrosa, em frente à delegacia do Centro, o 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP). Ele explicou que os moradores de rua preferem o Centro por conta das feiras e mais facilidade de conseguir trabalho em troca de comida. É isso que ele disse que faz todos os dias.

 “Nós fazemos um serviço aqui e outro ali em troca do que comer. Eu faço de tudo. Guardo carros, carrego frutas e até tiro escama de peixe”, explicou.

Ele contou ainda que foi preso há 11 anos por tráfico de drogas, época que conheceu a companheira, mas disse que abandonou a criminalidade. “Eu e minha esposa morávamos em um casarão abandonado aqui do lado, mas o dono começou a fazer uma obra e viemos para este barraco improvisado. Nós trabalhamos para comer e não sobra dinheiro para quase nada”, disse o homem que está desempregado. Ele  afirmou não ter carteira de identidade (Registro Geral, o RG) pela falta de dinheiro para pagar passagem de ônibus.

Diferentemente de Jorge, a companheira dele, Cristiane Custódio largou a casa onde morava com os pais, também no bairro Raiz, e decidiu morar com ele nas ruas.   “Meu pai não aceitou meu marido na casa dele e nos expulsou. Hoje estamos aqui. Já conseguimos dois colchões, algumas roupas e materiais para revestir o barraco. Infelizmente aqui nós não vivemos, sobrevivemos. Tem dias bons e dias ruins”, contou.

Os problemas de morar na rua só aumentam a cada dia. E para piorar a situação, ela acaba de descobrir que sofre de câncer de colo de útero. O diagnóstico foi informado  em março deste ano e por conta dessa situação o casal pensa em alugar um quarto e sair das ruas. No entanto, segundo a mulher, as pessoas não costumam dar uma segunda chance.

 “A palavra é discriminação. Muita gente não acredita, mas vários de nós somos trabalhadores. O problema é quando o cidadão erra e cai no mundo do crime. E, mesmo depois que paga pelo que fez e tenta voltar ao trabalho, não consegue, pois já está na ficha. Parece um carimbo imaginário na testa da pessoa escrita ‘bandido’”, desabafou.

Maioria é de jovens, mestiços  e nortistas

O censo é realizado pela Gerência de Atenção à População em Situação de Rua da Sejusc diariamente, com levantamento sendo feito pelo próprio órgão estadual e parceiros da rede de acolhimento à pessoa em situação de rua.

O levantamento atual revela o perfil do morador de rua: a maioria são homens e mulheres com idades de 21 anos a 35 anos, mestiços, oriundos de diversos estados, mas principalmente do Norte e Nordeste e das cidades do interior do Amazonas.

O censo mostra que o maior motivador para a pessoa viver em situação de rua são problemas familiares, com famílias em conflito e o uso de drogas ilícitas e álcool.

O bairro de Educandos, na Zona Sul, e a Praça da Saudade, são os locais com maior concentração de pessoas nessas condições. “São nessas áreas do Centro que essas pessoas trabalham, seja como flanelinhas, seja carregando e descarregando os barcos de recreio que chegam à cidade. Outros locais são as zonas Norte, Oeste em locais como o porto de Santo Agostinho e Compensa, e a Leste. O censo começou em 2015, sendo feito constantemente, e diariamente temos novidades no levantamento da secretaria e parceiros. Hoje, são 1.289 pessoas em toda a capital”, informou Ruberlande Pereira, gerente de Atenção à População em Situação de Rua da Sejusc.

A Sejusc informou em novembro do ano passado que Itacoatiara receberia o censo, o que não ocorreu. Desta vez, disse Ruberlande, será feita uma parceria com os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) de Itacoatiara e Manacapuru, mais as arquidioceses dessas cidades, visando realizar o levantamento e promover ações. “Há gargalos, mas o Governo do Estado tem trabalhado e a partir de junho deve iniciar o censo nesses dois municípios”, disse o gerente.

*Colaborou o repórter Paulo André Nunes.


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.