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Soropositiva dá a luz em sala de pré-parto em Manacapuru (AM) e teme pela saúde da filha

“Tudo por causa de discriminação e falta de estrutura do hospital. Os médicos não quiseram marcar a cirurgia e me trataram como um bicho", declarou a mãe 29/06/2015 às 09:49
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A bebê corre o risco de ter sido infectada durante o parto normal
Luana Carvalho Manaus (AM)

Ana Lúcia dos Santos Pinheiro, 23, descobriu ser soropositiva aos três meses de gestação, durante os exames de pré-natal. No início do mês ela entrou com um processo no Ministério Público Estadual (MPE) por ter sofrido preconceito na hora do parto.

“Foi um choque. E ainda passei por uma situação de discriminação dentro do hospital de Manacapuru”, contou, em um dos bancos da Fundação de Medicina Tropical (FMT), enquanto segurava a filha de dois meses, que recebeu o nome de Vitória. 

Ana veio de Manacapuru (a 68 quilômetros de Manaus) na última quarta-feira (25), trazendo Vitória para fazer o primeiro exame de sorologia para HIV. A bebê corre o risco de ter sido infectada durante o parto normal.

“Tudo por causa de discriminação e falta de estrutura do hospital. Os médicos não quiseram marcar a cirurgia e me trataram como um bicho. Agora me resta a esperança de que minha filha não tenha isso que eu tenho (sic)”, desabafa. 

Ela iniciou o pré-natal no posto de saúde do município onde mora e concluiu na FMT Doutor Heitor Vieira, em Manaus. “Fui muito bem tratada na Fundação. Estive em todas as minhas consultas”, disse.

O médico que a acompanhava passou um encaminhamento para que a cirurgia  cesariana, que oferece menos riscos de contaminação durante o parto, fosse realizada no Hospital Lázaro Reis, onde também funciona uma maternidade, em Manacapuru. “Levei os exames e remédios que o médico passou para serem usados no parto, mas nem sequer olharam os exames. Disseram que eu não podia ter minha filha lá por causa do vírus. Voltei diversas vezes no hospital para tentar marcar, pois não tinha mais dinheiro para ir a Manaus”, relatou.

A dona de casa conta que ainda procurou o diretor do hospital, Marcelo Cabral, no dia 14 de abril, e que o mesmo solicitou novos exames de carga viral. “Eu já estava com um exame recente e estava tudo ótimo. Não tinha como fazer outro exame porque o resultado demora um mês para sair”, explicou.

A mãe da jovem, Juliene Mota dos Santos, 45, conta que pediu para levarem Ana para Manaus, já que “não poderiam fazer a cirurgia”. No entanto, no mesmo dia, por volta das 18h, a bolsa estourou. “Fomos às pressas para o hospital com a ajuda dos enfermeiros do posto, pois a ambulância não chegou. Ninguém quis atendê-la e disseram que não tinham os equipamentos necessários para fazer o parto. Ela teve a bebê na sala do pré-parto. Até as roupas dela eles jogaram fora. Foram momentos horríveis de preconceito que não desejamos  pra ninguém”, contou.

Ministério Público

O Fórum Amazonas de Organização da Sociedade Civil em DST, Aids e Hepatites virais denunciou, junto com Ana, o caso ao Ministério Público Estadual (MPE-AM). “O pior é saber que casos como estes acontecem todos os dias no interior.

Deveria existir o atendimento especializado em todas as unidades do Estado, pois muitos pacientes não têm como se deslocar para Manaus”, ressaltou a coordenadora do fórum, Evalcilene Santos.

O MPE-AM informou que o caso foi encaminhado às Promotorias de Manacapuru. No dia 18 deste mês, um ofício foi encaminhado ao diretor do hospital, Marcelo Cabral, e ao médico Emílio Chaves que, segundo Ana, negou atendimento. Eles têm dez dias para prestarem esclarecimentos sobre o ocorrido.

Centralização

O caso de Ana Lúcia dos Santos mostra que as  dificuldades enfrentadas por pacientes soropositivos são ainda maiores no interior do Estado. “O processo é lento. Além da questão da falta de descentralização, existe o direito do paciente de querer ser atendido em uma unidade mais próxima da casa dele sem sofrer discriminação”, declarou a coordenadora Fórum Amazonas de Organização da Sociedade Civil em DST, Aids e Hepatites Virais, Evalcilene Santos.

Para o frei Paulo Sérgio Dias Almeida, da Pastoral DST/Aids de Tefé, apesar dos avanços, a realidade da saúde pública no interior ainda é precária. “Hoje nós temos um número de 198 pessoas que convivem com HIV/Aids em Tefé. Temos um Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA), mas faltam alguns profissionais no hospital, como infectologistas e psicólogos”, comentou.

A pastoral atua desenvolvendo atividades de acolhimento. “Tentamos eliminar a baixa auto estima  e trazer aqueles que são soropositivos de volta à sociedade. No interior esta situação é um pouco mais particular, pois muitos têm medo que a família ou outras pessoas da cidade saibam. Quando os casos são mais graves, os pacientes são trazidos para Manaus, e já conseguimos um acordo para a prefeitura arcar com os custos de logística para estes pacientes”, relatou.

‘Treinamentos’

Na tentativa de capacitar e sensibilizar profissionais que trabalham na área da saúde, educação e direitos humanos, a Rede de Amizade e Solidariedade e a Coordenação Estadual de DST/Aids e Hepatites Virais, realizou, durante toda a semana passada, oficinas de humanização e acolhimento para pacientes soropositivos na sede da FMT.

De acordo com a coordenadora estadual de DST/Aids, Silvana Lima, todos os 62 municípios contam com um CTA e agora o Estado trabalha para descentralizar o atendimento. Antes, todos os positivos faziam tratamento na FMT Doutor Heitor Vieira. 

“Contamos com cinco Serviços de Assistência Especializada em HIV e Aids (SAEs) na capital e mais sete no interior (Coari, Manacapuru, Itacoatiara, Tefé, Parintins, Tabatinga, Benjamin Constant) com equipe mínima multidisciplinar para atender esses pacientes. Em casos mais graves, quando o paciente está com uma carga viral muito alta, ele é encaminhado para tratamento na capital”, explicou. Entre 1990 e 2015, dos 62 municípios do Estado, 59 já apresentaram casos da doença, antes restrita aos grandes centros.

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