Sábado, 16 de Janeiro de 2021
ALÉM DO VÍRUS

Pessoas com HIV/Aids abandonam tratamento por medo de exposição e constrangimento

Pelo medo de sofrerem preconceito e discriminação, pacientes com HIV e Aids evitam até mesmo serem vistos indo buscar medicamentos na Fundação de Medicina Tropical, em Manaus



30/11/2020 às 13:54

O modo como a pessoa vivendo com HIV/Aids é atendida nos centros de saúde pode ser determinante para a continuidade ou não do tratamento contra a doença. A conclusão é do Índice de Estigma em Relação às Pessoas Vivendo com HIV e AIDS, realizado em Manaus, que identificou as razões pelas quais os pacientes evitam a interação com os serviços de saúde.

De acordo com a secretária de informação e comunicação da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS no Amazonas (RNP+AM), Vanessa Campos, o abandono do tratamento acontece por diversos motivos, entre eles, a exposição da sorologia pelo profissional de saúde sem o consentimento do paciente.



“A maior e mais básica violação de direito é a exposição da sorologia. A pessoa não quer que ninguém saiba por que nem ela mesma conseguiu digerir esse diagnóstico, e essa exposição de sorologia acontece dentro do próprio sistema de saúde. Apesar de ter uma Lei Federal que proíbe isto, ainda é algo constante em nossas vidas”, comentou.


A exposição não consensual do paciente pode vir até mesmo dos médicos, segundo Vanessa Campos. Foto: Matheus Mota

A falta de adesão ao tratamento contra o HIV e AIDS pode resultar em mortalidade. Para se ter ideia, 229 pessoas morreram em decorrência do HIV até outubro deste ano, no Amazonas. No mesmo período do ano passado, 248 óbitos foram registrados pela doença conforme dados do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) da Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM). Quanto aos registros de casos, o Amazonas soma de janeiro a julho de 2020, 605 novos casos de HIV em adultos.

“Outra coisa que dificulta e muito na adesão ao tratamento é o medo, o pavor que os pacientes com HIV/Aids têm de serem vistos entrando na Fundação de Medicina Tropical (FMT) para buscar as medicações. A gente até brinca, faça as pazes com o seu HIV. A questão do estigma, o preconceito e a discriminação é o que mais interfere na busca pelo tratamento”, afirmou a secretária de informação e comunicação da RNP+AM.

“Há ainda profissionais da saúde fazendo pressão na cabeça das pessoas recém-diagnosticadas para revelar a sorologia. Não é essa a abordagem por que nós temos o direito ao sigilo da nossa sorologia. Eu não conheço uma pessoa que recebeu o seu diagnóstico que não contou para o seu parceiro e se a pessoa não quiser contar, é o dever da equipe multidisciplinar de conscientizar esse indivíduo a buscar terapia. É preciso um atendimento mais humanizado”.

Atualmente, Vanessa Campos é uma das principais vozes de pessoas com HIV no Brasil. Aos 48 anos, ela vive com o vírus há 30 anos. Mãe de três filhas, foi aos 19 que recebeu o resultado positivo para HIV. Ela havia contraído o vírus de um namorado, falecido naquele ano em decorrência da AIDS. À reportagem, Vanessa conta que mais 200 pessoas fazem parte da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS no Amazonas (RNP+AM) e o objetivo da entidade é encorajar as pessoas com HIV/Aids para que “façam as pazes com o HIV”.

Outros dados relevantes

O Índice de Estigma Brasil 2019, realizado em Manaus, revelou a presença muito forte do preconceito e da discriminação. Conforme a pesquisa, 55,1% dos participantes souberam que outras pessoas - não membros da família - faziam comentários discriminatórios pelo fato de o indivíduo ter HIV/Aids

Mesmo entre membros da família, essa forma de discriminação foi bastante relatada (42,5%), não ficando restrita a fofocas ou comentários discriminatórios, pois também foram relatados assédios verbais (23,9%), agressões físicas (5,6%) e até mesmo perda de fonte de renda ou emprego por ser paciente com HIV/Aids (22,6%). O Índice de Estigma em Relação às Pessoas Vivendo com HIV e Aids perguntou aos entrevistados se eles já tinham tomado alguma atitude de isolamento nos últimos 12 meses em virtude de do HIV.

As respostas apontam para um isolamento não apenas de eventos sociais. Nada menos que 35% dos participantes da pesquisa na cidade de Manaus relataram que se isolaram da própria família ou amigos e optaram por não fazer sexo por viverem com HIV/Aids. Das pessoas entrevistadas, 20,9% decidiram não participar de eventos sociais; 22,1% disseram que pararam de se candidatar a vagas de emprego; 20,7% deixaram de procurar apoio social; e 18% decidiram não procurar atendimento de saúde.

Índice de estigma brasil 2019

No Brasil, o estudo documentou as experiências de estigma e discriminação de pessoas vivendo com HIV/AIDS em sete localidades chave: Manaus (AM), Salvador (BA), Recife (PE), Porto Alegre (RS), Brasília (DF), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP). Ao todo 1.784 pessoas participaram das entrevistas que ocorreram entre abril e agosto de 2019. Em Manaus, 174 pessoas responderam as perguntas.

Divulgação dos resultados regionais acontecerá até dezembro de 2020 em seminários online. Os resultados para Manaus foram divulgados no dia 3 de novembro e o estudo completo pode ser acessado através do site: https://unaids.org.br/. As cidades identificadas representam não apenas uma diversidade geográfica do país, mas uma diversidade populacional e epidemiológica, representando os hotspots—áreas e localidades de maior incidência de casos de AIDS ou de alta mortalidade no país.

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Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

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