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"Sou político que ficou reduzido a quase nada", diz o senador Alfredo Nascimento

Senador fala do prejuízo à sua imagem de "cara correto" após envolvimento, há dois anos, em denúncias de corrupção. Agora, inocentado pela PGR, promete recuperar eleitorado e concorrer à reeleição 11/08/2013 às 08:29
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Agora, inocentado pela PGR, Senador promete recuperar eleitorado e concorrer à reeleição
ANTÔNIO PAULO ---

Na última quarta-feira, 7, o senador Alfredo Nascimento (PR-AM) ocupou parte da sessão do Senado em um discurso de duas horas com 29 apartes de colegas senadores. Ele subiu à tribuna para informar ao Parlamento e à sociedade brasileira que a Procuradoria Geral de República (PGR) encerrou a investigação e concluiu não haver indícios ou provas do envolvimento dele nas denúncias que levaram à troca de comando do Ministério dos Transportes em julho de 2011.

O pedido de arquivamento do processo foi encaminhado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, que também é relator de dois pedidos de investigação contra Alfredo Nascimento. Nessa entrevista exclusiva concedida para A CRÍTCA, o senador fala da angústia e sofrimento que passou, das lições aprendidas e do futuro político no Amazonas após ser considerado inocente pelo Ministério Público.

Ao receber o parecer da PGR, arquivando o processo por não encontrar provas que o incriminassem, o senhor disse que não estava feliz. Por quê?

Sei que o homem público está sujeito a esse tipo de denúncia. E tem que ser apurado. Agora, quantos suportariam dois anos de verificação nas suas vidas individuais, com sigilo telefônico quebrado? Não sou mais honesto nem mais correto que ninguém, mas tenho noção de limites. Sei até onde posso ir para não errar, e sempre pautei minha vida nisso. Em discurso no Senado, disse que estou não feliz, mas me sentindo resgatado com a verdade sendo colocada e sendo mostrada para o Brasil: que o homem que comandou o Ministério dos Transportes o fez com a mesma dignidade com que se comportou em todos os cargos que ocupou nos últimos 30 anos.

De que acusações o senhor foi inocentado?

A investigação era sobre a denuncia da revista “Veja” que dizia que eu, como ministro, estava participando de possíveis irregularidades praticadas nos órgãos ligados ao Ministério dos Transportes. Saiu uma foto minha com um chapéu dizendo que eu ganhava 4% do dinheiro vindo de tais falcatruas. Essa imagem nunca saiu da minha cabeça.

O senhor temia o que poderia vir da Procuradoria Geral da República?

Fui investigado por um procurador que teve sob sua responsabilidade o mensalão, tem a fama de ser durão e não quebra galho de nada nem de ninguém. Mas minha expectativa era boa porque tinha certeza de que não fiz nada errado. Passado esse tempo, quem ou o que vai conseguir apagar essa imagem? Mas eu não tenho mágoa. A sensação, a leveza após o resultado disso, tira o peso, a raiva e o ódio.

Como foram esses dois anos esperando por uma decisão?

Passei 23 dias trancado dentro de casa sem coragem de abrir a porta para olhar o sol. Tinha vergonha até de olhar a luz do dia. Mas tive um aprendizado com tudo isso: que o homem público tem que estar pronto para esse tipo de coisa; infelizmente as pessoas confundem acusação com condenação. Da forma que estão procedendo, você primeiro é condenado para depois tentar provar que é inocente; você é exposto como alguém que praticou coisa errada e tempo depois você prova que não fez nada errado e não tem mais jeito; o tempo perdido não se recupera. 

O sr. será mais cuidadoso a partir desse episódio?

Levaram mais de 30 anos para me darem a primeira pancada porque sempre tive muito cuidado e fui muito criterioso no que faço. E era isso que me dava a certeza e garantia que eu podia ir ao Ministério Público e pedir para ser investigado. Passei por uma prova na qual me deram um atestado de bons antecedentes e isso vai me resgatar, não sei se politicamente, mas a minha dignidade. Vou voltar a andar de cabeça erguida.

O senhor pretende tomar alguma providência em relação aos que denunciaram o senhor?

Processei a “Veja”, o proprietário da Rádio CBN Manaus (Ronaldo Tiradentes), mas só falo das ações quando ocorrerem (decisões) e, naturalmente, o resultado desses processos deve dificultar para quem fez acusação contra mim.

Mas existem outros processos na PGR contra o senhor, não é verdade?

Não são processos. São pedidos de investigação feitos pelo Ronaldo Tiradentes. O primeiro é sobre calúnia e difamação que eu teria praticado contra ele. E o outro é um processo, que já tramitou no Amazonas, que cita o meu filho (Gustavo Pereira). Esses pedidos estão no Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro-relator (Ricardo Lewandowisk) vai decidir se arquiva ou manda prosseguir. Se der continuidade, vai me ouvir e aí vou fazer novamente, como foi feito na justiça estadual, a comprovação de que o apartamento é de propriedade do meu filho, que vendeu e declarou no imposto de renda; que a pessoa que comprou mora no imóvel até hoje; que a empresa que recebeu dinheiro do Ministério dos Transportes foi do Fundo da Marinha Mercante e que não é do Governo, mas um ressarcimento. Então, eu não tenho absolutamente nada a temer.

Como o senhor avalia, a “faxina” da presidente Dilma na qual o senhor teria sido incluído? Se o senhor foi inocentado das acusações, a presidente errou?

Não quero emitir juízo de valor. Mas posso falar a meu respeito. A faxina em relação a mim foi inócua. Primeiramente, não fui demitido do Ministério, eu pedi para sair. Cometi a deselegância de nem falar com a presidente, mandei uma carta informando que, em função dos acontecimentos, não queria mais continuar. Ela não me demitiu, tanto que ela pediu para eu continuar no cargo, mas eu achei que não tinha condições de ficar conduzindo uma investigação de pessoas que trabalhavam comigo e tinham sido acusadas.

Após o parecer da PGR, dizendo que não tinha nenhuma evidência, a presidente Dilma telefonou para o senhor?

Recebi apoios e telefonemas do Brasil inteiro, todo mundo importante da República falou comigo, inclusive a presidente, que sabe que sou republicano. Ela disse isso quando nos reencontramos depois do episódio.

A partir de agora, como o senhor vai encaminhar o seu futuro político?

Sou candidato à reeleição ao Senado em 2014. Acho que isso (o arquivamento do processo pela PGR) vai dar um upgrade na minha vida política, pois, acredito que as pessoas que tinham ou ficaram com dúvidas a meu respeito vão dar uma verificada nisso tudo. Sou político que ficou reduzido a quase nada porque eu tinha da população o respeito principalmente por conta do meu comportamento, um cara correto, que fazia as coisas legalmente. Vamos relembrar isso tudo e as pessoas, naturalmente, vão compreender, vão perceber a malvadeza que fizeram comigo. 

Quem foi malvado com o senhor?

Só os maus exemplos são mostrados, o meu caso é claro. Mostraram tanto tempo uma coisa ruim ao meu respeito. Agora, tenho uma coisa boa pra dizer e saí só uma coisinha. Depois da decisão da PGR, ninguém procurou para me ouvir, com exceção do jornal A CRÍTICA. Saiu uma notícia rapidinha no Jornal Nacional, mas na época da denúncia, passei dias e dias no noticiário. Fui extremamente injustiçado. Quem vai pagar a conta pelo o que passei? Quem vai corrigir as noites de sono que eu perdi? (Nesse momento, o senador se emociona)

Entre os 29 apartes dos senadores ao seu discurso, um dos mais calorosos foi o do senador Eduardo Braga (PMDB-AM), adversário político do senhor nas eleições de 2010. Sua candidatura vai ser na chapa dele no ano que vem? 

Em função de tudo o que eu passei, sendo líder do PR no Senado, acabei tendo uma aproximação muito maior com o senador Eduardo Braga, que é líder do Governo. Se o meu partido é da base do Governo, a gente acaba tendo que conversar muito. Com relação à aliança no Estado, essa possibilidade hoje já existe, o que não acontecia antes. Mas não tenho nenhum acordo fechado com ele e nem sei se ele é candidato a governador. A hora de falar disso, de alianças é abril, maio do ano que vem.

A partir de agora, o senhor terá mais disposição para cuidar da sua candidatura da direção do partido e levá-lo inteiro às eleições de 2014?

A minha disposição é muito maior. Já estou muito mais atuante nesses dias que sucederam à decisão da PGR. Já atendi governadores, deputados, senadores. Eu tinha que ter ânimo e tomar gosto para voltar com força total à política e isso já está acontecendo.


Perfil

Nome: Alfredo Nascimento

Idade: 61 anos

Naturalidade: Martins (RN)

Estudos: Letras e Matemática pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam); especialização em Administração de Pessoal, Materiais e Auditoria em Recursos Humanos pela FGV

Experiência: Foi Superintendente da Suframa, Secretário de Fazenda e de Administração (1987-1990). Interventor na Prefeitura de Manaus (1988); vice-governador do Amazonas (1994-1996); Prefeito de Manaus (1997- 2004); eleito senador em 2006); assumiu o Ministério dos Transportes nos dois Governos Lula (2004-2010); e no Governo Dilma Rousseff permaneceu no MT de janeiro a julho de 2011

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