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Manaus
SETEMBRO AMARELO

Suicídio: a cada dois dias uma morte foi registrada no Amazonas em 2017

Foram contabilizadas 186 mortes no Estado durante o ano passado. Número de suicídios cometidos por mulheres cresceu 88,3% no Amazonas 21/09/2018 às 07:19
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Foto: Reprodução/Internet
Priscila Rosas Manaus (AM)

No ano passado foi registrada no Amazonas uma média de um suicídio a cada dois dias. Com 186 mortes contabilizadas em 2017, o Estado receberá do Ministério da Saúde (MS) cerca de R$ 220 mil para a execução, a partir de novembro deste ano, do Plano de Prevenção ao Suicídio e Valorização da Vida. Os recursos para implantação foram liberados em maio, após aprovação de projeto elaborado pela Rede Estadual de Atenção Psicossocial (Raps).

Manaus, São Gabriel da Cachoeira e Tabatinga são consideradas cidades prioritárias na execução da estratégia pelo número de casos que registraram. Foram 89 óbitos registrados em Manaus, enquanto outros municípios do interior registram números bem menores, mas que ainda preocupam as autoridades de saúde. São 17 casos em São Gabriel da Cachoeira e sete em Tabatinga. 

O plano está em fase de implantação pela Secretaria de Estado da Saúde (Susam) com ações de capacitação direcionadas aos profissionais do setor. O projeto aprovado pelo MS tem a participação da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Instituto Federal do Amazonas (Ifam) e os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis) de São Gabriel da Cachoeira e Tabatinga. Uma das primeiras atividades a serem desenvolvidas será a qualificação dos profissionais da saúde, em novembro, trabalho que será conduzido por especialistas do Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam).

Nessa quinta-feira (20), o Ministério da Saúde divulgou um boletim sobre tentativas e óbitos por suicídio. A divulgação acontece em meio ao “Setembro Amarelo”, o mês de conscientização sobre a importância da prevenção ao suicídio. Entre 2007 e 2016, foram registrados no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) 106.374 óbitos por suicídio no Brasil. Em 2016, a taxa chegou a 5,8 por 100 mil habitantes, com a notificação de 11.433 mortes por essa causa.

O levantamento aponta que a intoxicação exógena, quando uma pessoa sofre as consequências clínicas da exposição a substâncias químicas (envenenamento), é o meio utilizado por mais da metade das tentativas de suicídio notificadas no País. Com relação aos óbitos, a primeira causa de morte por suicídio é por enforcamento (60%), enquanto a intoxicação é a segunda causa (18%). A atualização do boletim é uma das metas da Agenda Estratégica de Prevenção do Suicídio, lançada pela pasta em 2017.

Para esse ano, a expectativa do Ministério da Saúde  é receber dois milhões e meio de chamadas para o 188, telefone do Centro de Valorização da Vida (CVV), gratuito em todo o território brasileiro, e reduzir em 10,2% de óbitos por suicídios em população indígena. As ações fazem parte da agenda estratégica de prevenção, lançada ano passado, para atingir a meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de redução de 10% dos óbitos por suicídio até 2020.

Casos entre mulheres cresceram 88,3% no Amazonas

Conforme levantamento do Ministério da Saúde, divulgado nessa quinta-feira, a taxa de mortalidade por suicídio entre mulheres no Amazonas, no período de 2007 a 2016, cresceu 88,3%. Outros estados também relataram alta como Rondônia (65,5%) e Alagoas (45,8%). Esse dado chama a atenção, pois onde os casos aumentam pode-se intervir de alguma forma para evitá-los.

As mulheres representaram quase 70% (153.745) do total de tentativas de suicídio no País por intoxicações exógenas (envenenamento) nesses 11 anos. Sobre os agentes tóxicos utilizados, os medicamentos correspondem a 74,6% das tentativas entre as mulheres e 52,2% entre os homens. As intoxicações exógenas resultam em 4,7% de óbitos em homens e 1,7% nas mulheres.

O levantamento revela que as mulheres também iniciam mais cedo a tentativa de suicídio por intoxicação exógena, com ápice de casos entre os 10 e 20 anos de idade. Enquanto entre os homens, a maioria dos casos acontece entre os 18 e 25 anos.

Análise e fatores

“As regiões Norte e Nordeste são as que têm menores taxas de suicídio. Por outro lado, os estados nessas regiões são os que mais estão aumentando as taxas. O que a gente quer chamar atenção é que eu tenho que investir mais nesses estados para tentar conter o avanço”, disse a diretora do Departamento de Doenças e Agravos Não-Transmissíveis e Promoção da Saúde (DANTPS), do Ministério da Saúde, Fátima Marinho, durante a coletiva, nessa quinta-feira, em Brasília (DF).

Segundo Fátima Marinho, o aumento de casos de mortes por suicídio entre pessoas do sexo feminino ainda estão sendo analisados. De acordo com a diretora, o meio social pode influenciar nesses dados. O desemprego é um fator de risco. “Apesar do sistema  reportar mal se era alguém com emprego e carteira assinada, podemos captar dados de que em 52%, o desemprego desponta como principal fator atrelado às tentativas de suicídio. É algo a ser melhorado e discutido”, ressaltou.

Existem outros determinantes sociais que estão sendo averiguados, como a violência contra a mulher, especialmente em adolescentes e crianças, por causa das dores emocionais causadas em situações como essas.  Uma das soluções em análise  pelo Ministério da Saúde, em relação a fazer políticas públicas em relação ao suicídio, é dificultar o acesso a venenos, raticidas, remédios e dosagens.

Onze mil mortes por ano no país

O suicídio é um fenômeno complexo e multifacetado, que pode afetar indivíduos de diferentes, origens, classes sociais, idades, orientações sexuais e identidades de gênero. 

Atualmente a média nacional de suicídios no Brasil, em todas as idades, é de 5,5 por 100 mil habitantes. São, em média, 11 mil pessoas que tiram a própria vida todos os anos no  País.

Quando verificado por faixa etária, os idosos são os que mais preocupam, pois as taxas sobem para 8,9 mortes por 100 mil, nos últimos seis anos. Envenenamento e intoxicação são os meios mais utilizados e os homens são os que mais morrem por suicídio e 60% são solteiros. A região Sul concentra 23% dos suicídios e o Sudeste 38%.

Alerta - Lívia Vitenti, antropóloga

Entre os sinais de alerta estão uma diminuição do autocuidado, uma pessoa que de repente não esteja se alimentando muito bem ou com relação à higiene; um isolamento muito grande, a pessoa passa a conviver menos com a família, fica muito tempo sozinha; uma mudança repentina de humor,  uma pessoa que era muito extrovertida e fica mais introvertida ou o contrário; um abuso maior de drogas lícitas e ilícitas; e nos jovens a automutilação, que não necessariamente é um sinal para ideação suicida, mas é uma manifestação de sofrimento que deve ser levada em conta.

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