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Suspeita de negligência em maternidade pode deixar bebê em estado vegetativo

Por descaso e falta de leito, mãe deu à luz em pé, bebê ficou preso 40 minutos no canal vaginal e poderá viver em estado vegetativo para o resto da vida 19/06/2013 às 07:57
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Marco Lourenço, diretor da maternidade, afirma que o bebê apresenta melhora
FLORÊNCIO MESQUITA ---

A poucos dias de inaugurar a nova estrutura, a maternidade Balbina Mestrinho, na Zona Centro-Sul, é mais uma vez alvo de suspeita de negligência médica. Depois de voltar para casa porque não havia leito na maternidade, retornar no dia seguinte em trabalho de parto e não ser encaminhada para o centro cirúrgico, Rosimeire Freitas, 37, deu a luz ao pequeno Isaac, atualmente com 23 dias de nascido, na sala de espera da maternidade. A criança nasceu sentada e ficou presa pela cabeça no canal vaginal durante quase 40 minutos. Só depois que a equipe médica constatou a gravidade da situação, Rosimeire foi encaminhada para o centro cirúrgico com o filho ainda preso pela cabeça. 

O detalhe é que laudos comprovam que ela não poderia ter o filho de parto normal porque tinha uma gravidez pélvica, o que significa que o bebê estava sentado e que, provavelmente, seria submetida a uma cesariana caso a criança não virasse. A cirurgia cesariana de Rosimeire foi marcada para o dia 24 de maio. Contudo, chegando à maternidade foi informada que não havia leito e que deveria retornar na segunda-feira, três dias depois. Na noite de sábado, 25, porém, a bolsa (líquido amniótico) estourou.

Ela estava com mais de 40 semanas de gravidez. Depois das 42 semanas, a gestação é considerada “pós-termo”, que em alguns casos pode levar à morte súbita do bebê dentro do útero. Ela deu entrada na maternidade às 21h30, em trabalho de parto, acompanhada pelo marido Roberto Fernandes 47. Um médico passou pelo casal e disse “que não estava na vez dele de fazer o parto”. Roberto explicou que se tratava se uma gravidez pélvica e de risco. Mesmo apresentando exames que indicavam a necessidade de cirurgia cesariana, o médico que a atendeu decidiu forçar o nascimento para parto normal.

Rosimeire recebeu medicação para estimular o nascimento normal e como não tinha leito ela continuava na sala de pré-parto. Ainda aplicaram anestesia geral, ou “raqui”, em Romeire, mas só pediam que ela esperasse onde estava e não a levaram para o local apropriado para o parto.

Ela deu à luz, em pé, na sala de pré-parto, que funciona como um ambiente de espera que não tem estrutura para o procedimento cirúrgico. Primeiro saíram os pés e o tronco da criança, que ficou presa pela cabeça no canal vaginal. A criança nasceu aparentemente sem sinais de vida. Até ontem, Isaac não havia chorado ou respondido a nenhum estímulo. O prontuário médico informa que o bebê nasceu às 23h02, sendo que a mãe chegou à maternidade às 21h30 e, 20 minutos depois, entrou em trabalho de parto.

Isaac continua na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da maternidade. Ele teve duas paradas cardíacas e pneumonia. Por conta da demora no atendimento e por Rosimeire não ter sido submetida à cirurgia cesariana, a criança corre o risco de ficar em estado vegetativo para o resto da vida.

Mãe fez denúncia por meio de carta

O caso só veio à tona porque Rosimeire fez uma carta, de próprio punho, denunciando o descaso. A carta foi entregue pelo marido dela, Roberto, no gabinete da primeira-dama do Estado, Nejmi Aziz.

Na carta, a mãe faz um apelo para que a situação não fique impune e pede que ela intervenha junto à Secretaria de Estado de Saúde (Susam) para que Isaac receba outros cuidados que necessita na maternidade, como a presença de um fonoaudiólogo. Uma cópia da carta foi publicada na Internet e rapidamente retirada.

Conforme A CRÍTICA apurou, os pais vão formalizar a denúncia e estão recebendo o apoio do diretor da maternidade para tomar as providências cabíveis. A direção informou aos pais, conforme apurado, que não compactua com o posicionamento equivocado de profissionais que agem de tal forma.

Direção da unidade diz ter aberto sindicância

O diretor da Maternidade Balbina Mestrinho, Marco Lourenço, informou que abriu uma sindicância para apurar os fatos relatados pela paciente e também acionou o Comitê de Ética Médica da unidade. O Comitê irá ouvir todas as pessoas envolvidas e, segundo ele, caso fique comprovado que houve negligência médica, as medidas cabíveis serão aplicadas.

Ao tomar conhecimento do assunto, o secretário estadual de Saúde, Wilson Alecrim, determinou que a apuração dos fatos seja rigorosa.

De acordo com o diretor Marco Lourenço, o médico que atendeu Rosimeire relatou que ela chegou à maternidade no dia 24 de maio, conforme comprovam documentos e a carta da paciente, mas ela “ainda não estava em trabalho de parto”. No dia seguinte, segundo  o médico, quando Rosimeire entrou em trabalho de parto, ela foi encaminhada para o centro cirúrgico. Ambos confirmam que o bebê nasceu por via vaginal. Porém, o tempo em que ela esperou e a afirmação que ela só foi encaminhada para o cento cirúrgico pela porque a criança na nasceu na sala de espera não foram citados.

Conforme o diretor, o bebê apresenta melhora e a unidade está dando o suporte para a recuperação da criança. A mãe de Isaac passou 20 dias internada na maternidade e teve alta médica no último sábado. Ela está em casa, porém ainda muito abalada com o caso. Roberto Fernandes continua visitando diariamente o bebê nos períodos da manhã e tarde. Não há previsão de alta para a criança.

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