Quarta-feira, 04 de Agosto de 2021
FIM DO TAMBAQUI?

Tambaqui em risco: alterações climáticas podem diminuir população do peixe após 2100

Desmatamento da Amazônia e o aquecimento global são os principais fatores para a redução da população de tambaquis, causando deformações nas espécies, que podem acabar desaparecendo como consequência



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02/05/2021 às 09:38

Frito, assado ou cozido, um dos peixes mais apreciados da culinária amazônica é o tambaqui. O peixe se destaca entre os pratos regionais sendo uma ótima alternativa para o almoço em família. Além de fazer parte de várias receitas da culinária nortista popular nos restaurantes apreciados por muitos turistas.

Entretanto, um dos peixes mais queridos pelos amazonenses corre risco de grande diminuição de espécies a partir de 2100, caso os fatores climáticos atuais, como desmatamento da Amazônia e o aquecimento global, se mantenham.

Segundo o biólogo e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) há mais de 40 anos, Adalberto Luis Val, as mudanças climáticas pelo aumento da emissão do gás estufa - dióxido de carbono - causou deformações nas espécies de tambaqui observadas. Conforme o pesquisador, as espécies foram colocadas em quatro salas climáticas que reproduziram o cenário ambiental previsto para 2100, de acordo com o Painel Intragovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

"Os nossos peixes, ao longo do processo evolutivo, se adaptaram a ambientes que já são muito quentes e ácidos, como são as águas do Rio Negro. O CO2, quando se dissolve na água, torna a água mais ácida ainda. E o aumento da temperatura causado pelo efeito estufa aumenta ainda mais a temperatura das águas. Com a pesquisa, nós observamos que os peixes já viviam no limite térmico. No tambaqui, ainda na fase larval, nós observamos que as espécies eram acompanhadas com distúrbios no esqueleto. Eles tinham anormalidade já nessa fase embrionária. Em um ambiente natural, se você não tá bem, alguém vem e preda você. Ou seja, os peixes com essa anormalidade não conseguem fugir dos predadores. Portanto, isso implica na diminuição da população dos animais adultos", descreveu o pesquisador.


Foto: Divulgação

De acordo com Adalberto Val, este é um fator preocupante, tendo em vista que o tambaqui é o pescado que deixa o Amazonas em terceiro lugar no ranking de exportação para outros mercados consumidores, segundo o Ministério da Economia.

"O que vai acontecer ao longo do tempo é, ou essas espécies se adaptam e passem por um processo de seleção dos mais resistentes a esses desafios ambientais. Ou então, a gente passa a ter uma diminuição muito significativa do estoque dessas espécies, no ambiente natural, inviabilizando o uso dessas espécies que temos no Amazonas", destacou Adalberto.

Tambaqui como potencial econômico

Nos últimos nove anos, a taxa de crescimento da piscicultura no Estado foi superior a 100%, saltando de 11,8 mil toneladas em 2010, para 25,4 mil toneladas em 2019, conforme levantamento da Secretaria de Pesca e Aquicultura do Amazonas (Sepa). Do total da produção registrada no ano passado, 19 milhões são de pós larvas e 3,5 milhões de alevinos (filhotes). A maior produção está concentrada na Região Metropolitana de Manaus (RMM), sendo 92% do cultivo baseado em tambaqui, 5% em matrinxã e outros 3% em outras espécies.


Foto: Junio Matos

A piscicultura é a terceira atividade econômica mais rentável do município de Rio Preto da Eva, distante a 88 quilômetros da capital, ficando atrás apenas da produção de citros e banana. O município produz, por ano, 16 mil toneladas de pescado.

Conforme a Sepa, 3.500 produtores atuam na atividade de piscicultura com a geração de renda para 10 mil pessoas direta e indiretamente. Atualmente, o manejo de peixes em Unidades de Conservação (UC) do Amazonas é uma das atividades mais importantes para gerar renda a comunidades ribeirinhas e desenvolver sustentavelmente as regiões. Todo o lucro arrecadado é revertido aos pescadores, estimulando o comércio justo e o empoderamento comunitário.

Identidade do Amazonas

Para a dona de casa Roziones da Silva, natural do município de Coari (distante a 363 km de Manaus), a possível extinção do tambaqui vai implicar no desaparecimento de um alimento que define o "ser amazonense".

"É difícil imaginar que algo tão tradicional para nós, como o cultivo e consumo do tambaqui possa não existir mais. A gente que veio do interior, em uma época em que onde se comia peixes quase todos os dias em quase todas as refeições, vai sofrer uma enorme perda. Não dá pra medir a falta que peixes como tambaqui irão fazer na vida de nós amazonenses, faz parte do que nós somos", declarou a dona de casa.

Apesar dessa preocupação, o pesquisador ressalta que há a possibilidade de parte dessas espécies sobreviverem e se tornarem mais resistentes. Mas para que o cenário não seja tão drástico, é necessário o cultivo maior dessas espécies.

"A gente precisa lembrar que a biologia e a evolução são processos muito dinâmicos. Quando nós estamos em um ambiente gelado, a gente se protege. No ambiente natural é a mesma coisa. Você vai tendo um processo de seleção de organismos que conseguem sobreviver nesse ambiente. Muitos animais vão morrer, porém outros animais sobreviverão e passarão a ser mais resistentes. Não há como dizer que será extinto. Mas que diminuirão os estoques. Para evitar isso, temos que pensar em novas tecnologias de produções que possam fomentar o cultivo dessa espécie", orientou o pesquisador.

Preservação ambiental

Adalberto Val acrescentou ainda que há alternativas para que a redução dessas espécies não aconteça. Segundo o biólogo, três elementos são importantes para evitar este cenário: preservação das florestas; uso de energia solar e locomoção por carros elétricos.

"Primeiro, a coisa mais importante é manter as florestas em pé. As florestas são capazes de absorver o dióxido de carbono. Toda vez que destruímos a floresta, estamos contribuindo para aumentar o dióxido de carbono na atmosfera. Segundo, encontrar formas de reduzir as emissões de maneira em geral. Por exemplo, já temos em Manaus, várias placas de energia solar. Em vez de gerar energia, a partir do petróleo, queimando gás. Nós usaríamos o Sol para gerar energia elétrica. A terceira coisa é que no mundo inteiro está na corrida de carros elétricos. Em vez de carros movidos a gasolina, teríamos carros movido a eletricidade que não iriam agredir o meio ambiente", pontuou Adalberto.

Além disso, o pesquisador finalizou que também é necessário investir na educação e ciência. Pois, esse elemento é primordial para o desenvolvimento humano.

"Uma das coisas mais importantes para gente encaminhar para um futuro sadio é a educação. Eu acho que precisamos investir na capacitação de pessoal para o desenvolvimento de novas tecnologias. Todas as coisas a gente pode na realidade, dispensar o fazedor. Mas a gente não pode dispensar quem pensa e desenvolve novas tecnologias. Os robôs podem fazer o serviço de construção civil, vendas no supermercado. Os sistemas todos vão se automatizando. Mas o pensar, não tem como automatizar", concluiu o biólogo.



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Repórter de A Crítica
Amazonense, nascido e criado em Manaus. Graduado em Jornalismo e mestrando em Antropologia Social, ambos pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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