Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
COMPORTAMENTO

Aceitação das diferentes identidades de gênero esbarra na discriminação

Nos dois últimos anos, pelo menos 52 LGBTs foram assassinados em Manaus, de acordo com dados da SSP-AM



Capturar.JPG Aos 20 anos, Pietra é estudante de Francês na Ufam (Foto: Antônio Lima)
16/09/2017 às 20:49

Há três meses, Pietra Nascimento, 20, foi expulsa de casa porque os pais não aceitavam que ela iniciasse um tratamento hormonal para troca de sexo. Na verdade, Pietra não nasceu do jeito que sempre quis. Ela acreditava que ser “homem” não a representava. 

“Eu já havia contado para os meus pais sobre a minha sexualidade, mas isso não tem nada a ver com o gênero, ou seja, aquilo que você é. No meio do ano, disse à minha mãe que eu era uma mulher presa em um corpo masculino. Eu usava uma máscara. Ela não aceitou e disse que era para eu procurar outro lugar para morar”, disse. 

Além da falta de apoio da família, ela também encontrou o preconceito no meio social. Pietra é estudante de Francês da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e já foi xingada por um colega de classe. “’Você nunca vai ser uma mulher’, ele disse, depois de uma discussão iniciada nas redes sociais. Isso me chocou”, relatou.

Durante esse período difícil, Pietra descobriu que se encaixava como mulher transgênera. Antes disso, a discriminação começou com si própria. Desde os 10 anos, ela sentia algo diferente, mas no começo não aceitava.  “A escola é o inferno dos LGBTS (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros) porque, além da discriminação dos colegas, os próprios professores e diretores não estão preparados para lidar com essa situação. Eu fiquei por muito tempo isolada e humilhada”, contou. 

Atualmente, Pietra mora na casa de um amigo e não sabe como vai ser o futuro, mas enfrenta com a determinação de quem já descobriu a sua própria identidade. “Eu enfrentei a tudo e a todos. Sou mulher. Continuo o tratamento hormonal prescrito pelo médico e, apesar de não ter contato com a minha família, sou mais feliz e realizada”. 

Discriminação

O caso de discriminação de Pietra se repete em muitas outras famílias. A violência psicológica ocupa o primeiro lugar em denúncias de violência contra o público LGBT, registradas pelo disque 100 do Ministério dos Direitos Humanos. Em 2015, conforme relatório enviado à Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), 1.294 queixas foram feitas só no Amazonas.    

Matheus Santos*, de 23 anos, não sofreu apenas com palavras. O homem transgênero, que antes era chamado de Camila, já apanhou da mãe diversas vezes porque não era aceito. Depois que não mais aguentar os xingamentos e agressões, ele fugiu de casa. 

“Ela me batia muito, mas o que mais me doía era a rejeição. Você imagina sua mãe dizendo a você que ‘sapata’ tem que viver fora de casa porque  ‘dá chulé’? Eu cansei e fugi”, disse. 
Atualmente ele vive com a namorada, de 28 anos. Os dois aprenderam que viver juntos como casal os faz mais fortes para enfrentar o preconceito. “Amor e ódio têm a mesma intensidade. Eu escolhi o amor. Nós vamos sair da cidade e tentar a vida em outro lugar. O amazonense ainda é muito conservador quando vê o ‘diferente’”, lamentou.

Números assustadores

Nos dois últimos anos, pelo menos 52 LGBTs foram assassinados em Manaus, de acordo com dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP-AM).  Ano passado, foram 29 homicídios e, em 2015,  23 mortes.

Identidade de gênero em alta na mídia

Nos últimos anos, a identidade de gênero vem ganhando destaque na mídia, que retrata o tema em filmes, documentários, reportagens e até no horário nobre da televisão brasileira, na novela “A Força do Querer”   Personalidades como a atriz Rogéria, conhecida como a “travesti da família brasileira” - falecida recentemente - fizeram história para o reconhecimento não só de gays, lésbicas e bissexuais, mas também de outras nomenclaturas, ainda não reconhecidas pela sociedade.

E facilitaram a difícil missão de assumir a identidade de gênero para si mesmo e, principalmente, para a família, como aconteceu com o estudante de psicologia Akashi Hashimoto, 22. Ele se preparou durante cinco anos para contar à família que era um homem ‘trans’ não-binário, ou seja, Akashi não é exclusivamente homem nem mulher e está fora do binário de gênero, classificação dada pela sociedade normativa. “Eu pesquisei bastante sobre o assunto antes de contar a eles. Recebi apoio dos meus irmãos e logo depois dos meus pais. Sempre me senti diferente e hoje eu me sinto bem melhor que antes”.

*Nome fictício

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