Sábado, 06 de Junho de 2020
Caso Deusiane

‘Tenho medo que me matem também’, diz mãe de soldado morta em batalhão

Mãe da soldado Deusiane Pinheiro, morta a tiro dentro de batalhão, fala sobre a luta por justiça cinco anos depois do caso



CLJ_SP3291_60CFE826-B543-41AD-BEE4-8ABCCBC2736D.JPG Foto: Sandro Pereira
07/04/2020 às 10:15

“Esperar cinco anos por justiça. Que nenhuma mãe passe pelo que eu estou vivendo!”. Esse é o desejo da dona de casa Antônia da Silva, mãe da soldado Deusiane Pinheiro, morta aos 26 anos no dia 1º de abril de 2015 nas dependências da Companhia Fluvial do Batalhão Ambiental, no Tarumã, Zona Oeste de Manaus, onde trabalhava, com um disparo de arma de fogo na cabeça.

Para a família, até hoje não há dúvidas de que Deusiane Pinheiro foi assassinada. Um dos fatores apontados pelos familiares que reforçam a hipótese consiste nas circunstâncias em que o disparo foi efetuado e o relacionamento abusivo que, de acordo testemunhas, ela mantinha com o cabo da Polícia MIlitar Elson dos Santos Brito que, conforme denúncia oferecida pelo Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM), é apontado como o autor do disparo que matou a soldado.



“Ele ameaçou matar minha filha inúmeras vezes. Quando minha filha saiu de casa no último dia de trabalho, ela me disse:  ‘mãe, se eu não voltar, ele me matou’. Hoje vivo presa dentro de casa. Quase não saio porque tenho medo que me matem também. É comum que viaturas parem em frente à minha casa sem ninguém sair do carro. Temo que façam algum mal para a minha família qualquer dia”, diz.

Desde o ano passado, a dona de casa recebe uma pensão pela morte da policial do Fundo Previdenciário do Estado do Amazonas (Amazonprev) por força de uma decisão liminar do juiz Leoney Figliuolo Harraquian, sob pena de multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento. Ela dependia economicamente da filha antes da tragédia que abalou sua família.

“Eles [a Polícia Militar] não quiseram pagar porque alegam que ela se matou. Ainda que se tratasse de um suicídio, e eu sei que ela não se matou, ela estava sob a tutela do Estado. Nunca a indenização foi paga. Aliás, nem as coisas dela me devolveram: a agenda, o colete, a placa”, contou.

Diante da morosidade da Justiça, é na fé que a dona de casa Antônia da Silva tira forças para continuar buscando a verdade sobre aquele abril de 2015. “Só o amor de Deus mesmo, porque a justiça é para poucos nesse País. Eu vou lutar até o fim para que os culpados paguem pelo que fizeram”, disse.

Além da fé, são nas lembranças da Deusiane Pinheiro filha, no cotidiano, que dona Antônia busca alento. “Ela era uma filha alegre, trabalhadora, que se preocupava comigo. É um anjo na minha vida. Ela não está mais aqui comigo, mas a lembrança que eu tenho dela, criança e adulta, me faz ter força pra continuar em frente. Não tenho palavras para descrever a perda da minha filha. Eu morro de saudades todos os dias”, relata a mãe, entre lágrimas.

Dificuldade em ouvir policiais

O Ministério Público do Amazonas (MP-AM), que ofereceu a denúncia da morte como crime de homicídio em julho de 2017, sustenta a tese de que a soldado Deusiane foi assassinada pelo ex-namorado, o cabo Elson dos Santos Brito, no local de trabalho. A defesa de Elson, no entanto, no entanto, que a soldado teria cometido suicídio.

Elson dos Santos é acusado de homicídio doloso qualificado por motivo torpe (art. 205 do Código Penal Militar), e os cabos Jairo Oliveira Gomes, Cosme Moura Souza e Narcízio Guimarães Neto, e o soldado Júlio Henrique da Silva Gama foram denunciados por falso testemunho. Todos estão respondendo o processo em liberdade.

A denúncia do MP-AM contraria a versão de suicídio apresentada por Elson dos Santos, tomando por base os laudos periciais das armas apresentadas, os registros lançados pelo armeiro Jairo Oliveira Gomes e os depoimentos colhidos. Segundo a denúncia formulada pelo promotor de Justiça Edinaldo Aquino Medeiros, Elson matou Deusiane, trocou o ferrolho de sua arma com o ferrolho de outra arma e a apresentou como a que teria sido usada no suicídio.

A troca dos ferrolhos teria sido feita com a conivência dos demais PMs acusados. O casal vivia uma relação conturbada pelo ciúme excessivo de Elson. Testemunhas relatam que a situação entre eles se agravou depois que Elson reatou com a ex-companheira, insistindo em manter o relacionamento com Deusiane, que não aceitava o triângulo amoroso. A vítima exigiu uma solução para o impasse e acabou sendo assassinada.

Na primeira audiência de instrução e julgamento do caso, em abril de 2018, foi colhido o depoimento de oito pessoas arroladas pela acusação: quatro testemunhas, dois peritos e duas designadas como informantes.

Para a advogada da família de Deusiane, Marta Gonzalez, o juiz do caso tem feito a sua parte, mas o a Polícia Militar “está dificultando” a realização das audiências ao não apresentar as testemunhas que ainda fazem parte do quadro da corporação. “Há dois militares que deveriam ser ouvidos no inquérito, que poderiam esclarecer tudo, e nunca foram ouvidos. Às vésperas das audiências eles viajam para fazer cursos, tiram férias. A defesa está dificultando o processo como pode”, apontou. “Todos os acusados estão no quadro da Polícia Militar, estão com porte de arma e trabalhando normalmente, como se nada tivesse acontecido”, lamentou Marta.

Sempre que questionada sobre o caso, a PM informou que abriria uma investigação interna e que não comentaria detalhes.

Testemunha chave depõe em junho

A próxima audiência do caso, quando a testemunha Renan de Oliveira Libório, tenente da Polícia Militar, deverá ser ouvida, está marcada para as 9h da manhã do dia 9 de junho. 

“O tenente chegou ao local logo após o crime acontecer, viu tudo, falou com todo mundo. De acordo com o laudo, as armas foram trocadas. O depoimento do Libório pode esclarecer muitos pontos, inclusive como lavaram o barco antes da perícia chegar”, disse Marta Gonzalez.
 

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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